Archive for Novembro, 2018

PORTAL FÓRUM: REGGAE VIRA PATRIMÔNIO CULTURAL IMATERIAL DA UNESCO

Novembro 30, 2018

Bob Marley, seu maior expoente, vendeu cerca de 200 milhões de cópias pelo mundo

Foto: Divulgação

O reggae entrou para a lista de Patrimônio Cultural Imaterial da Unesco. A resolução foi anunciada na última quarta-feira (28). O site da Unesco destaca que o gênero musical surgiu na década de 60, num espaço cultural de grupos marginalizados, principalmente no oeste de Kingston, capital jamaicana.

O ritmo, uma mistura de ska, r&b, rockabilly, rock and roll entre outros ritmos do caribe e do mundo, rapidamente tomou a Jamaica e, posteriormente, o mundo. Reza a lenda que a quebrada tradicional do reggae se deve à dificuldade que os habitantes da ilha tinham em ouvir a música americana, que chegava cortada através das ondas distantes das rádios. A maneira própria como passaram a tentar reproduzir o rock and roll teria originado o reggae.

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O seu maior expoente é o músico, cantor, compositor e guitarrista Robert Nesta Marley, conhecido por todos como Bob Marley. Criador de inúmeros sucessos com letras politizadas, entre eles “Redemption Song”, “Get Up, Stand Up”, “Zimbabwe”, “Africa Unite” entre outras, Marley vendeu cerca de 200 milhões de discos ao redor do mundo

Mas o reggae não vive apenas de Bob Marley. Outros músicos também ganharam fama mundial, como Peter Tosh, Jimmy Cliff, Linton Kwesi Johnson, Eddy Grant, a banda The Wailers, Sly Dunbar & Robbie Shakespeare entre muitos outros.

No Brasil, o ritmo ganhou notoriedade com nomes como Gilberto Gil, um de seus maiores entusiastas, que chegou a gravar o álbum “kaya na Gandaia”, só com composições de Marley. Além dele, outros grupos como Cidade Negra, Tribo de Jah, Natiruts, Edson Gomes, Chimarruts entre outras também se especializaram no ritmo.

Um dos primeiros reggaes gravados no Brasil é “Nine Out of Ten”, de Caetano Veloso, de seu álbum “Transa”, gravado em 1972, durante o seu exílio, em Londres. Caetano e Gil tomaram contato com o ritmo em Porto Bello Road, uma rua do bairro Notting Hill, em Londres, que, na época, contava com grande concentração de jamaicanos.

Outra canção precursora do reggae no Brasil é “Negra Melodia”, de Jards Macalé e Wally Salomão, gravada por Macalé no seu álbum “Contrastes”, de 1977 e, posteriormente, por Itamar Assumpção, no álbum “Ás p´roproas custas S/A”, de 1981, outro grande entusiasta do ritmo.

A Unesco destaca que os jamaicanos aprendem a tocar o ritmo já nas escolas. Festivais como como Reggae Sumfest e Reggae Salute também são vistos como oportunidade de estudo e transmissão do conhecimento para futuros artistas e músicos.

O reconhecimento do reggae como patrimônio cultural leva em consideração a contribuição para a discussão internacional sobre questões como a injustiça, a resistência, amor e humanidade.

BRASIL DE FATO: COM ARTIGO SOBRE FEMINISMO LÉSBICO< LIVRO "EXPLOSÃO FEMINISTA" SERÁ LANÇADO NO RIO

Novembro 29, 2018

LITERATURA

A publicação, organizada por Heloísa Buarque de Hollanda, reúne artigos sobre um panorama da onda feminista no Brasil

Camila Marins

Brasil de Fato | Rio de Janeiro (RJ)

O lançamento acontece nesta quinta-feira (29), na livraria da Travessa, em Ipanema, no Rio de Janeiro - Créditos: Divulgação
O lançamento acontece nesta quinta-feira (29), na livraria da Travessa, em Ipanema, no Rio de Janeiro / Divulgação

Nesta quinta-feira (29), será lançado livro “Explosão Feminista”, na livraria da Travessa, em Ipanema. Organizado pela professora Heloísa Buarque de Hollanda, a publicação reúne artigos sobre um panorama múltiplo da quarta onda feminista no Brasil de 2013 até hoje e é definida como um livro-ocupação.

Heloísa convidou mulheres de diferentes origens e campos de atuação para tratar deste tema que, de 2013 para cá, vem ganhando um alcance sem precedentes. “Como, nesta quarta e surpreendente onda, o movimento tem se organizado nas ruas, nas redes e na política? De que maneira as mulheres estão se posicionando nas artes, na poesia, no cinema, no teatro, na música e na academia? Quando dizemos ‘feminismos’, no plural, de quem exatamente estamos falando, e qual é a importância de marcar as diferenças? E, por fim, quem são, no Brasil, as veteranas que vêm fazendo história, tanto na área cultural quanto na política?” são algumas das reflexões promovidas ao longo do livro.

Um dos capítulos sobre “Feminismo Lésbico” é assinado pela roteirista, pesquisadora e agitadora cultural sapatã, Érica Sarmet, que entrevistou mulheres lésbicas de diferentes regiões do Brasil. “É inegável como certas discussões que antes se davam apenas no âmbito dos movimentos sociais agora já fazem mais parte das vidas das pessoas. Ao meu ver, a ascensão do fascismo está diretamente ligada, entre outros fatores, a essa explosão, como uma reação conservadora mesmo a essa mobilização das mulheres. O bom é que já explodiu e não tem volta”, afirmou Érica, que foi indicada por Adriana Azevedo. O artigo reúne entrevistas feitas por WhatsApp método escolhido para possibilitar a produção em pouco tempo e também para dialogar com o ativismo em redes sociais tão utilizado nessa quarta onda do feminismo. Erica foi convidada em setembro de 2017 e produziu o artigo em dois meses. 

Entre as entrevistadas estão Neusa das Dores Pereira (Casa das Pretas), Yone Lindgren (ABL), Bárbara Alves (Lesbibahia), J Lo Borges (Coletiva Visibilidade Lésbica), Renata Alves (Coletiva Luana Barbosa/Sarrada no Brejo), Franci Junior (Dandara – Movimento das Mulheres Negras da Floresta), Evellyn Tavares (Velcro), Gláucia Tavares (Isoporzinho das Sapatão e Velcro), Yasmin Ferreira (Coletiva Visibilidade Lésbica), Adriana Azevedo, Neide Vieira, Raíssa Éris Grimm, Juliana Cesario Alvim Gomes.

O lançamento acontecerá nesta quinta-feira  (29), às 19h, na livraria da Travessa, localizada na Visconde de Pirajá, 572, Ipanema, no Rio de Janeiro. 

Edição: Mariana Pitasse

FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO: CEM ANOS DEPOIS, O CAIPIRA JECA TATU VOLTA A DAR AS CARAS, POR ISAÍAS DALLE

Novembro 29, 2018

por Isaías Dalle

Lobato descreveu o Jeca Tatu como o caipira abandonado à própria sorte, vítima da fome que lhe parecia natural e imutável – exceto se ocorresse um lance de muita sorte ou divina intervenção – e prisioneiro de uma ignorância inamovível. Era um retrato do Brasil, ainda majoritariamente rural, que o escritor e jornalista atacava com mordacidade para ver se era possível tirá-lo do estupor.

Indisfarçável nessa fase da obra de Lobato uma inclinação a crenças eugenistas. Não declamadas com o estufar do peito ou com o prazer de quem se sente no direito de condenar o que julga inferior, mas essas crenças estão lá. Como estiveram presentes na campanha eleitoral deste 2018, cem mudanças de calendário depois, com a diferença de que atualmente veio embalada com a ideia, muitas vezes explícita, da hipótese de remoção (ou “varrição”) do outro como saída plausível.

A fome, a falta de saneamento básico, a completa distância de acompanhamento médico e, tristemente curioso, o mesmo desconhecimento dos rumos políticos de que sofria Jeca Tatu voltam a grassar, após breve período recente em que tentativa de superação dessas mazelas deixou de ser guiada pela tese que enxerga sofrimento e sofredor como um só e indelével fenômeno.

No seu ataque ao Jeca, o escritor nascido em Taubaté (SP) começa por ridicularizar a romantização do homem original brasileiro, à moda de José de Alencar, primeiro demonstrada na louvação do índio Peri e que naqueles idos de 1910, segundo acusa Lobato, era transferida para a figura do homem do campo numa representação de pureza e destemor, como se representações do atraso – tais como as queimadas atacadas em outro texto por Lobato – não existissem como obstáculo ao progresso e a uma possível emancipação. Essa idealização iria compor anos mais tarde o ideário do integralismo, em sua louvação das “origens” como amálgama do fascismo à brasileira.

“Seu grande cuidado é espremer todas as consequências da lei do menor esforço – e nisto vai longe”, descreve Lobato em seu conto, em contraponto ao “indianismo” heroico redivivo na crônica daquele tempo. A interiorização do destino trágico como algo normal ao Jeca é retratada pelo escritor a partir de hipotética banqueta dotada de três pernas que o pobre caipira reserva em sua casa de palha para os visitantes– já que o próprio Jeca não se senta em um, para isso bastam-lhes os calcanhares sobre os quais acocora-se: “Seus remotos avós não gozaram de maiores comodidades. Seus netos não meterão quarta perna ao banco. Para quê? Vive-se bem sem isso”.

No plano simbólico, o conto “Urupês” retrata o Jeca como supersticioso, avesso à política (salvo o voto quadrienal) e invejoso do vizinho mais próximo com ares de patrão bem sucedido.

Esse Jeca Tatu criado por Monteiro Lobato pode muito bem ser apropriado pelas narrativas tanto da esquerda quanto da direita. Esta, tradicionalmente, utilizou-se da mediocridade do caipira lobatiano para menosprezar nossas chances como nação, no que foi seguida por incautos caipiras de diversos matizes.

Lobato tinha 36 anos nessa época. Seu afã por um Brasil independente e desenvolvido evoluiu e transformou-se em ações práticas e campanhas de grande envergadura. A começar pela criação de uma editora 100% nacional, a partir de onde projetou seus livros como sucessos de venda inéditos até então. Sua intervenção mais conhecida foi a campanha O Petróleo é Nosso, que entre tropeços e sucessos redundou anos depois na criação da Petrobras.

Foi entusiasta da Revolução Russa e da campanha soviética contra os nazistas. Foi acusado de comunista pela igreja – na época, a hegemônica Igreja Católica – por conta de seu livro História do Mundo para Crianças, apontado como subversivo pelo padre Sales Brasil. Como preso político em 1941, sob o Estado Novo, no presídio Tiradentes, aprofundou seu conhecimento sobre comunismo com seus companheiros de prisão.

Resumiu assim o cenário político e social brasileiro: “A nossa ordem social é um enorme canteiro em que as classes privilegiadas são as flores e a imensa massa da maioria é apenas o esterco que engorda essas flores. Esterco doloroso e gemebundo. Nasci na classe privilegiada e nela vivi até hoje, mas o que vi da miséria silenciosa nos campos e nas cidades me força a repudiar uma ordem social que está contente com isso e arma-se até com armas celestes contra qualquer mudança.”

RBA: EM CARTA, LUIZ SCHWARCZ, PROPÕE ‘REDE DE SOLIDARIEDADE’ A EDITORAS E CULTURA DO LIVRO

Novembro 28, 2018
LIVROS AMEAÇADOS
Crise das grandes livrarias já levou a demissões e redução na produção de livros, segundo presidente da Companhia das Letras
por Redação RBA publicado 28/11/2018 14h18, última modificação 28/11/2018 14h50
NOCAUTE/REPRODUÇÃO
Luiz Schwarcz

Crise no setor tem por base a recuperação judicial decretadas por duas das maiores redes de livraria do país, Saraiva e Cultura

São Paulo – O processo de recuperação judicial decretado pelas livrarias Cultura e Saraiva expôs não apenas o colapso de um modelo de negócios, mas reflete também a realidade atual do setor editorial. Em resposta a essa crise, o editor e presidente da Companhia das Letras, Luiz Schwarcz, divulgou nessa terça-feira (27) uma carta aberta de “amor aos livros”, em que invoca alternativas de sobrevivência e a solidariedade entre pequenos e grandes grupos editoriais.

Segundo Schwarcz, as editoras, de um modo geral, têm diminuído o número de lançamentos, colocando em segundo plano escritores com vendas menores e demitindo funcionários em todas as áreas. “Passei por um dos piores momentos da minha vida pessoal e profissional quando, pela primeira vez em 32 anos, tive que demitir seis funcionários que faziam parte da Companhia há tempos e contribuíam com sua energia para o que construímos no nosso dia a dia”, lamentou.

Em sua carta, publicada no blog da editora, o presidente da maior editora brasileira destaca a “capacidade financeira pessoal” dos sócios destes grupos e o idealismo de autores e leitores, de todos os gêneros e categorias de livros, como meios para a superação da crise. “As redes de solidariedade que se formaram, de lado a lado, durante a campanha eleitoral talvez sejam um bom exemplo do que se pode fazer pelo livro hoje”, propôs.

Confira o texto de Luiz Schwarcz na íntegra

Cartas de amor aos livros

O livro no Brasil vive seus dias mais difíceis. Nas últimas semanas, as duas principais cadeias de lojas do país entraram em recuperação judicial, deixando um passivo enorme de pagamentos em suspenso. Mesmo com medidas sérias de gestão, elas podem ter dificuldades consideráveis de solução a médio prazo. O efeito cascata dessa crise é ainda incalculável, mas já assustador. O que acontece por aqui vai na maré contrária do mundo. Ninguém mais precisa salvar os livros de seu apocalipse, como se pensava em passado recente.

O livro é a única mídia que resistiu globalmente a um processo de disrupção grave. Mas no Brasil de hoje a história é outra. Muitas cidades brasileiras ficarão sem livrarias e as editoras terão dificuldades de escoar seus livros e de fazer frente a um significativo prejuízo acumulado.

As editoras já vêm diminuindo o número de livros lançados, deixando autores de venda mais lenta fora de seus planos imediatos, demitindo funcionários em todas as áreas. Com a recuperação judicial da Cultura e da Saraiva, dezenas de lojas foram fechadas, centenas de livreiros foram despedidos, e as editoras ficaram sem 40% ou mais dos seus recebimentos— gerando um rombo que oferece riscos graves para o mercado editorial no Brasil.

Na Companhia das Letras sentimos tudo isto na pele, já que as maiores editoras são, naturalmente, as grandes credoras das livrarias, e, nesse sentido, foram muito prejudicadas financeiramente. Mas temos como superar a crise: os sócios dessas editoras têm capacidade financeira pessoal de investir em suas empresas, e muitos de nós não só queremos salvar nossos empreendimentos como somos também idealistas e, mais que tudo, guardamos profundo senso de proteção para com nossos autores e leitores.

Passei por um dos piores momentos da minha vida pessoal e profissional quando, pela primeira vez em 32 anos, tive que demitir seis funcionários que faziam parte da Companhia há tempos e contribuíam com sua energia para o que construímos no nosso dia a dia.

A editora que sempre foi capaz de entender as pessoas em sua diversidade, olhar para o melhor em cada um e apostar mais no sentimento de harmonia comum que na mensuração da produtividade individual, teve que medir de maneira diversa seus custos, ou simplesmente cortar despesas. Numa reunião para prestar esclarecimentos sobre aquele triste e inédito acontecimento, uma funcionária me perguntou se as demissões se limitariam àquelas seis. Com sinceridade e a voz embargada, disse que não tinha como garantir.

Sem querer julgar publicamente erros de terceiros, mas disposto a uma honesta autocrítica da categoria em geral, escrevo mais esta carta aberta para pedir que todos nós, editores, livreiros e autores, procuremos soluções criativas e idealistas neste momento.

As redes de solidariedade que se formaram, de lado a lado, durante a campanha eleitoral talvez sejam um bom exemplo do que se pode fazer pelo livro hoje. Cartas, zaps, e-mails, posts nas mídias sociais e vídeos, feitos de coração aberto, nos quais a sinceridade prevaleça, buscando apoiar os parceiros do livro, com especial atenção a seus protagonistas mais frágeis, são mais que bem-vindos: são necessários. O que precisamos agora, entre outras coisas, é de cartas de amor aos livros.

Aos que, como eu, têm no afeto aos livros sua razão de viver, peço que espalhem mensagens; que espalhem o desejo de comprar livros neste final de ano, livros dos seus autores preferidos, de novos escritores que queiram descobrir, livros comprados em livrarias que sobrevivem heroicamente à crise, cumprindo com seus compromissos, e também nas livrarias que estão em dificuldades, mas que precisam de nossa ajuda para se reerguer.

Divulguem livros com especialíssima atenção ao editor pequeno que precisa da venda imediata para continuar existindo, pensem no editor humanista que defende a diversidade, não só entre raças, gêneros, credos e ideais, mas também a diversidade entre os livros de ambição comercial discreta e os de ambição de venda mais ampla.

Todos os tipos de livro precisam sobreviver. Pensem em como será nossa vida sem os livros minoritários, não só no número de exemplares, mas nas causas que defendem, tão importantes quanto os de larga divulgação. Pensem nos editores que, com poucos recursos, continuam neste ramo que exige tanto de nós e que podem não estar conosco em breve. Cada editora e livraria que fechar suas portas fechará múltiplas outras em nossa vida intelectual e afetiva.

Presentear com livros hoje representa não só a valorização de um instrumento fundamental da sociedade para lutar por um mundo mais justo como a sobrevivência de um pequeno editor ou o emprego de um bom funcionário em uma editora de porte maior; representa uma grande ajuda à continuidade de muitas livrarias e um pequeno ato de amor a quem tanto nos deu, desde cedo: o livro.

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AFROBRASILEIROS: 25 ANOS SEM GRANDE OTELO: RELEMBRE A VIDA E A OBRA DO HUMORISTA

Novembro 27, 2018

Foto: Programa Petrobras Cultural / Divulgação ator e humorista Grande Otelo em foto de seu acervo, que passou a ser restaurado a partir de 2004

do Afrobrasileiros

‘Quando você conhece um humorista, percebe que não temos nada a ver com o que levamos para o palco’

Há 25 anos morria Grande Otelo, um dos maiores atores e comediantes da história do cinema e da TV no Brasil.

“Quando você conhece um humorista, percebe que nós não temos nada a ver com o que levamos para o palco”, dizia o mineiro de Uberlândia – “Não fala Uberabinha para mim que tem briga!”, brincava, em referência ao antigo nome da cidade – que tinha uma história de vida difícil.

Nascido em 18 de outubro de 1915, Grande Otelo já morou na rua, passou por diversas famílias e viveu outros tantos dramas pessoais, como o suicídio de sua esposa, em 1948, logo após matar seu filho, Osmar, enteado de Otelo, quando tinha apenas dois anos de idade, ou quando levou uma facada de sua outra mulher, Joséphine Héléne, em 1978, durante uma crise de ciúmes e bebedeira.

Grande Otelo e Oscarito em cena de ‘Barnabé, Tu És Meu’ (1951) Foto: Arquivo / Estadão

Ao todo, Sebastião Bernardes de Souza Prata, como se chamava, casou-se quatro vezes e teve cinco filhos: “quatro homens do casamento oficial e uma mulher de uma aventura.”

Um quarto de século após sua morte, o E+ relembra momentos marcantes da vida e carreira de Grande Otelo. Confira a seguir.

Surge Grande Otelo

Filho de uma mãe alcoólatra e um pai que morreu esfaqueado quando era jovem, Grande Otelo tinha como nome original Sebastião Bernardo da Costa.

“Eu não gostava do ‘Bernardo’ e botei ‘Bernardes’. ‘Da Costa’ eu desprezei, peguei o nome da mamãe, ‘Souza’, e o nome da família que o papai era agregado, ‘Prata’”, explicava, sobre a mudança em seu registro.

Mais tarde, em 1935, começou a ser conhecido publicamente pela alcunha: “A crítica do Rio de Janeiro me batizou como Grande Otelo, por intermédio do Jardel Jércolis [precursor do teatro de revista no Brasil], que me lançou como The Great Othelo“.

Grande Otelo em cena de bastidores com Joaquim Pedro de Andrade, Dina Sfat e Cristina Ache, ao fundo. Foto: Arquivo / Estadão

A origem do apelido remete à sua infância, anos antes. Otelo costumava acompanhar a filha de sua tutora em suas idas à Ópera Lírica Nacional, onde ela estudava canto. Certa vez, o maestro pediu para que também cantasse.

“Ele experimentou minha voz e me viu pretinho, pequenininho… A minha voz era de tenorino – ele achou que era – e eu cheguei a cantar a ópera Tosca [de Giacomo Puccini].”

“Ele achou que, quando eu crescesse, cantaria O Othello [ópera de Giuseppe Verdibaseada no texto de William Shakespeare]. Seria um physique du rôle [perfil físico] autêntico: negro, grande e tal. Mas eu não cresci. Passei a ser o pequeno Otelo”, relembrava, garantindo que, em seu colégio, assinava como Otelo Queirós.

Foto de Grande Otelo em sua infância. Foto: Arquivo / Estadão

A infância de Grande Otelo

Quando jovem, o ator chegou a fugir de casa algumas vezes, passou por diversas famílias e até morou na rua.

“Era a vida de moleque de rua de boa índole: pedia comida e as pessoas me davam comida. Dormia na rua, nos Correios, vendia jornais. Naquele tempo, a facilidade da vida não dava espaço para o moleque pensar em roubar.”

“Ele pedia e recebia. Hoje, ele pede, mas não recebe. Então diz: ‘Vou roubar”, refletia.

“A família que me trouxe de Uberlândia era de teatro e me ensinou a trabalhar no teatro. Era a família da dona Iara Isabel Gonçalves. Quando eles foram para a Itália, eu estava fugido de casa e não fui. Fiquei em São Paulo, e ela deu parte no juizado de menores.”

Grande Otelo ao lado do diretor Humberto Mauro, morto em 1983, nas filmagens de ‘A Noiva da Cidade’ (1977). Foto: Arquivo / Estadão

“O juiz me apanhou na rua, me botou no juizado. Depois, a dona Maria Eugênia de Queirós foi buscar uma menina para ajudar na cozinha, e o juiz de menores apelou para que me levassem, porque eu era inteligente e, se fosse bem protegido, poderia dar em alguma coisa na vida. Ela teve pena da minha situação e levou-me”, contava.

Otelo, que fugia porque gostava de “conhecer gente”, se meteu em uma confusão na casa da família Queirós. Para compar um iôiô, vendeu um livro do jurista Clóvis Bevilacqua, da biblioteca da casa, que “já estava meio carunchado”, achando que ninguém ia perceber.

Grande Otelo caracterizado como personagem. Foto: Arquivo / Estadão

Porém, o Dr. Queirós deu pela falta da obra e questionou-o. “Eu disse que havia vendido porque estava todo carunchado. Então ele se aborreceu e disse que eu arranjasse outro tutor. Eu arranjei o Miguel Max, que era de teatro.”

“Ele [Miguel] não me trouxe para o Rio, levou-me para o interior de São Paulo – e eu queria vir para o Rio. Daí fugi e vim para o Rio com a Companhia de Arte Jardel Jércolis.”

Grande Otelo, ator e humorista

Segundo contava, sua primeira experiência no mundo artístico se deu antes de completar 10 anos de idade, na década de 1920.

“A primeira entrada que eu fiz foi uma beleza, porque eu já era, assim, um palhaço da cidade, com a pouca idade que eu tinha. Então, naquele dia, o circo encheu mais pra ver o Bastiãozinho [como era conhecido na região].”

Grande Otelo ao lado de Jorge Amado Foto: Ana Stewart / Estadão

“Eu tinha uns sete anos. Bastiãozinho, vestido com um vestido comprido e com um travesseiro no bumbum e rebolando de braços com o palhaço. Aí todo mundo riu, todo mundo achou graça”, recordava.

Em 1935, já com o nome de Grande Otelo, fez parte da companhia de arte de Jardel Jércolis, e começou a ganhar cada vez mais projeção no mundo do teatro e do cinema.

Entre 1938 e 1946, fez parte do Cassino da Urca, uma das casas noturnas mais badaladas do País entre 1930 e 1950, época em que o Rio de Janeiro era a capital federal, e que chegou a ser a casa da TV Tupi, anos depois.

Elenco do ‘Cassino da Urca’. Na foto, Grande Otelo aparece ao lado de Emilinha Borba. Foto: Arquivo / Estadão

A partir da década de 1940, começou a fazer diversos filmes. Multitalentoso, causava risos nos cinemas brasileiros, mas não era somente engraçado, sendo reconhecido pouco depois como um grande ator, até hoje considerado um dos principais da história do Brasil.

Grande Otelo e Oscarito

Grande Otelo ficou conhecido também por conta da dupla feita com outro grande humorista brasileiro, Oscarito, especialmente nas chanchadas da Atlântida [companhia cinematográfica da época].

Oscarito e Grande Otelo – dupla de comediantes fez sucesso no cinema brasileiro. Foto: Arquivo / Estadão

Entre eles, Céu Azul (1941), Não Adianta Chorar (1945), Aviso aos Navegantes (1950),Barnabé, Tu És Meu (1951) e Matar ou Correr (1954).

O ator, porém, evitava falar sobre os bastidores das produções e sua relação com parceiro do riso: “Eu e o Oscarito nos entendíamos bem no set de filmagens; fora do set, não interessa a ninguém.”

Grande Otelo ao lado de Oscarito, morto em 1970, em cena do filme ‘Matar ou Correr’ (1954). Foto: Arquivo / Estadão

Grande Otelo e Orson Welles                                                    O encontro entre o humorista e Orson Welles, diretor norte-americano conhecido mundialmente pelo filme Cidadão Kane, aconteceu no Cassino da Urca, em 1942. Na ocasião, Otelo olhou o cineasta de alto a baixo e disse somente “oi”.

“Não fui eu que o conheci, ele que me conheceu. Foi ao Cassino escolher um elenco. No dia seguinte, quando começou a filmagem, ele achou estranho que eu não estivesse no meio dos atores que foram cedidos pela Urca. Procurou-me e fez grande amizade comigo.”

“A minha história com Orson Welles foi muito simples, mas como ele era um americano que me dedicou muita amizade, e eu sou um negro, teve grande repercussão. Ele foi realmente meu amigo, da maneira como os americanos são amigos.”

Grande Otelo ao lado de duas atrizes da Atlântica. Foto: Arquivo / Estadão

“Trabalhei com ele, conversamos muito e fui um dos mais bem pagos. Enquanto os outros ganhavam 70 mil cruzeiros, eu ganhava 500 mil”, contou Otelo sobre sua atuação em It’s All True, filme de Welles que nunca chegou a ser finalizado.

A amizade foi abordada à exaustão pela imprensa ao longo dos tempos, especialmente pelos elogios feitos por Welles, que considerou Otelo como genial. “Grande Otelo é o maior ator do Brasil”, dizia.

Grande Otelo, o homem

Apesar do sucesso, Grande Otelo fazia questão de separar o ator de seus personagens, e revelava até uma dose de frustração ao fim de sua vida.

“Sebastião Bernardes de Souza Prata é diferente do Grande Otelo. O Grande Otelo é um ator, e o Sebastião Bernardes de Souza Prata é um cidadão preocupado completamente com todos os problemas do Brasil.”

Grande Otelo. Foto: Cedoc / TV Globo / Divulgação

 

“Todos nós, querendo ou não, de alguma maneira, nos preocupamos. Por menos que a gente queira. E isso embaratina. Às vezes eu não tenho vontade de trabalhar, fico meio desanimado.”

Em entrevista ao Estado no ano anterior à sua morte, declarou: “Eu me sinto como uma pessoa que não deu certo. Não fez 10 pontos na vida. Foi até cinco, seis pontos.”

Lembrado de que era considerado “patrimônio do Brasil”, fazia questão de destacar: “O ator. Mas o cidadão não é.”

Conhecido por seu passado de boemia, Otelo também refletia sobre o tema, já idoso.

“O que pesa mais foi o tempo que farreei. Foi um tempo perdido. Pesa, mas não me dá remorso, porque, afinal de contas, a vida é isso.”

“Lamento que não tenha cumprido aquilo que um cidadão normalmente cumpre, que é cuidar da família, e tal. Também sinto que, devido à minha profissão, não poderia tratar a família como deveria.”

“Diverti-me bastante, inconsequentemente, às vezes. Hoje não tenho capacidade nenhuma de me divertir, nem de divertir os outros”, refletia, aos 77 anos de idade.

Grande Otelo também lamentava o fato de precisar continuar trabalhando mesmo na terceira idade: “O ser humano tem de entender que, depois dos 70 anos, a gente quer sombra e água fresca.”

As obras de Grande Otelo

“O mais importante filme, pra mim, foi um que uniu o cinema brasileiro de todas as maneiras: Macunaíma. […] Agora, pessoalmente, me agradou muito [Rio,] Zona Norte, de Nélson Pereira dos Santos”, afirmava Grande Otelo.

Nos palcos, Grande Otelo citava O Homem de La Mancha, em que vivia o personagem Sancho Pança e contracenava com Bibi Ferreira e Paulo Autran. Já na televisão, destacava a primeira versão da novela Sinhá Moça.

Grande Otelo em cena da peça ‘O Homem de La Mancha’, em que interpretou Sancho Pança, ao lado de Bibi Ferreira e Paulo Autran. O espetáculo contava com a direção de Flávio Rangel. Foto: Alcir / Estadão

Grande Otelo ao lado de Bibi Ferreira e Paulo Autran em divulgação do musical ‘O Homem de La Mancha’, que inaugurou o Teatro Adolfo Bloch no Rio de Janeiro, em 1972. Foto: Arquivo / Estadão

Preconceito no Brasil

Questionado pelo Roda Viva em 1987 se ainda via discriminação no Brasil, foi enfático: “Completamente! A discriminação existe totalmente. Pela sua pergunta, a gente sente que a discriminação existe. Se não existisse, você não teria a necessidade de fazer essa pergunta.”

Em seguida, dava sua ‘receita’ para tentar solucionar o problema: “Só com tempo e, principalmente, educação. Porque a educação é o que faz os homens se aproximarem mais. Havendo a educação, você se aproxima de uma pessoa qualquer, e qualquer pessoa pode se aproximar de você.”

Grande Otelo em cena de ‘Macunaíma’ (1969) Foto: Arquivo / Estadão

“Eu só não sou discriminado porque me tornei o Grande Otelo, mas o Benedito da Silva é discriminado, por quê? Porque ele tem pouco poder aquisitivo…”, ressaltava.

Zé Carioca

Curiosamente, Grande Otelo quase se tornou dublador de Zé Carioca, papagaio brasileiro criado por Walt Disney que era um legítimo ‘malandro’.

A sugestão, à época, foi feita por Carmen Miranda, que já fazia sucesso em Hollywood.

Otelo, porém, não pôde aceitar o convite por conta de seu contrato com o Cassino da Urca, que o impediria de viajar para realizar as gravações.

Zé Carioca dança com seu amigo, Pato Donald Foto: Arquivo / Estadão

Grande Otelo e o carnaval

Nem todos têm conhecimento, mas o nome oficial do Sambódromo da capital paulista é Pólo Cultural e Esportivo Grande Otelo, uma homenagem ao ator.

Em 1986, Grande Otelo foi homenageado pela Escola São Carlos no carnaval carioca. Em agradecimento, escreveu o seguinte samba:

“Quem diria que um dia

Minha pessoa modesta

Merecesse receber uma grande festa

Lá no Estácio, a rapaziada fez meu nome virar batucada

Eu escutei, gostei, senti e até chorei

Vendo a cidade toda dizendo:

– Salve o Tião das Minas Gerais

E que do Rio de Janeiro não sai mais”

A morte de Grande Otelo

Grande Otelo morreu em 26 de novembro de 1993, aos 78 anos de idade, quando teve um acidente cardiovascular brutal por volta das 14h30, ao desembarcar em no aeroporto Charles De Gaulle, em Paris.

Otelo estava junto de sua companheira, Terezinha Brandão Costa. Após cumprimentar os funcionários do voo da Varig e brincar com uma recepcionista da empresa, passava por uma passarela quando sofreu uma queda brusca, causada por uma crise cardíaca.

Grande Otelo em foto de dezembro de 1992. Foto: Renata Jubran / Estadão

Recebeu os primeiros socorros de Flavio Carvalho, diretor da empresa, que vinha logo atrás dele, e também de uma médica brasileira que estava no mesmo voo e realizou massagem cardíaca e respiração boca a boca, sem sucesso.

Na sequência, ainda foi atendido pela Polícia do Ar e das Fronteiras, sendo depois foi transferido para o ambulatório de Roissy, atendido por uma equipe médica bem aparelhada, mas não foi possível salvá-lo. Sua morte foi oficialmente constatada às 16h30.

O ator estava na França para receber uma homenagem no 15º Festival dos Três Continentes na cidade de Nantes. Em 1985, Grande Otelo já havia recebido do país a Medalha das Artes e das Letras durante viagem do então presidente francês François Mitterrand ao Brasil.

No dia anterior, 25 de novembro, havia participado do lançamento de seu livro de poesias, Bom Dia, Manhã, no Festival de Cinema de Brasília.

Em entrevista a um telejornal local, leu um de seus textos: “Se a vida parasse, talvez fosse possível sofrer menos…”

Saudades

Ao longo de sua carreira na TV, no cinema e no teatro, Grande Otelo esteve ao lado de outros grandes nomes como Oscarito, Ronald Golias, Dercy Gonçalves, Ankito, Chico Anysio, entre tantos outros.

Relembre a seguir alguns momentos de Grande Otelo em frente às câmeras:

Contracenando com Chico Anysio na Escolinha do Professor Raimundo:

Mostrando seu talento musical em cena do filme Rio, Zona Norte, com Ângela Maria:

Em esquete humorística com Zacarias, conhecido por ter feito parte do grupo Os Trapalhões:

Em cena musical com Dercy Gonçalves:

*Para realização desta matéria, foram utilizadas entrevistas de Grande Otelo publicadas no jornal O Estado de S. Paulo em 20 outubro de 198510 março de 1992 e 8 de abril de 1997 (esta publicada após sua morte, com base em entrevista realizada em 17 e 18 de novembro de 1992), além de sua entrevista para o programa Roda Viva, da TV Cultura, em 15 de junho de 1987.

BRASIL DE FATO: “O PAÍS DOS 6 BERLUSCONIS” DENUNCIA CONCENTRAÇÃO DE MÍDIA E SEU IMPACTO NA DEMOCRACIA

Novembro 27, 2018

CINEMA

Documentário realiza campanha de financiamento coletivo para poder circular pelo Brasil e alcançar pessoas e movimentos

Luciana Console

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

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Ouça a matéria:

Ator Paulo César Pereio fará a personificação da mídia brasileira no filme "O País dos 6 Berlusconis" - Créditos: Rogério Che
Ator Paulo César Pereio fará a personificação da mídia brasileira no filme “O País dos 6 Berlusconis” / Rogério Che

“Os 6 principais grupos de comunicação no Brasil concentram mais de 90% da audiência”, é o que afirma o diretor Pablo Guelli, realizador do documentário “O País dos 6 Berlusconis”. O filme tem previsão de estreia para abril de 2019 e traz entrevistas com pensadores renomados como Noam Chomsky, Luis Nassif, Glenn Greenwald, Jessé de Souza e Xico Sá, entre outros, e faz uma referência à Silvio Berlusconi, ex-Primeiro Ministro italiano, dono de uma rede de televisão e bilionário.

Ao longo dos 70 minutos de duração, o documentário revela como funciona o oligopólio de mídia no Brasil e como ela é usada para beneficiar poderosos e gerar lucro em detrimento do interesse público. 

A ideia de retratar o assunto no audiovisual começou a surgir desde a época em que Guelli trabalhava como jornalista para as grandes empresas de mídia. “Comecei a perceber que a imprensa brasileira sempre tem conflito entre o que é interesse da empresa e do que é interesse público. ‘O país dos 6 Berlusconis’ é o primeiro filme que fala concretamente sobre como a concentração de mídia influencia a democracia brasileira.” 

Produzido inicialmente para o canal CINEBRSILTV pela Salamanca Filmes, “O país dos 6 Berlusconis” foi um dos projetos brasileiros selecionados pela DOCSP e Doc Society, além de ter sido escolhido para o Laboratório de Convergência Audiovisual do Ministério da Cultura e Spcine pelo teor de impacto social. No entanto, Pablo explica que o financiamento não foi suficiente e a produção está com uma página no Catarse para arrecadar fundos. 

“A gente conseguiu verba para produzir o filme, mas não tivemos verba para divulgar nos cinemas de todo o Brasil. Então a gente precisa desse valor para que o filme não seja restrito a um canal à cabo. A gente quer mostrar o filme pra todo o Brasil e quer que as pessoas vejam”, diz. 

A produção será lançada em um momento delicado da política brasileira que, segundo Guelli, é resultado de um ciclo que começou em 2005. O diretor se refere ao escândalo do Mensalão e a forte atuação da mídia brasileira na construção do ódio à um grupo político específico. 

“Acho que todos que começamos a observar como funciona a imprensa brasileira, começamos a ver que existem dois pesos e duas medidas. Por que você dá um peso para o ministro que comprou uma tapioca com cartão corporativo e aquilo rende um mês de reportagens, com direito a capas de jornais e Jornal Nacional?“.

Além das salas de cinema, a campanha no Catarse tem como intuito financiar várias ações de impacto social em torno do tema da concentração da mídia brasileira. A intenção é realizar cine-debates, exposições, peças teatrais e também levar o filme para ONGs, faculdades e governos. 

Edição: Pedro Ribeiro Nogueira

BRASIL DE FATO: PRETA RARA: “PARA MIM, RESISTIR É ESTAR VIVA”

Novembro 27, 2018

CONSCIÊNCIA NEGRA

Rapper paulista versa sobre o cotidiano, a desigualdade racial e a história brasileira em suas canções

Mayara Paixão

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

Ouça a matéria:

Hoje com 33 anos, Preta Rara também é arte-educadora - Créditos: Juh Guedes/Divulgação
Hoje com 33 anos, Preta Rara também é arte-educadora / Juh Guedes/Divulgação

Se “resistir” é uma das principais tarefas que se impõem após a eleição do presidente de extrema direta Jair Bolsonaro (PSL), a cantora Joyce Fernandes afirma: a resistência, em sua vida, não começa agora. Veio desde o berço. Nascida e criada em Santos, município do litoral de São Paulo, ela é conhecida como Preta Rara, nome artístico que adotou.

A rapper de 33 anos é também arte-educadora, feminista e militante do movimento negro. Sua trajetória, no entanto, tem muito mais a contar. Durante sete anos, trabalhou como empregada doméstica e lutou para ecoar as vozes dessas trabalhadoras com o projeto “Eu, empregada doméstica”.

Há 12 anos, Preta Rara constrói seu espaço no cenário musical, trazendo a realidade das mulheres e do povo negro brasileiro para as letras de suas músicas. Audácia (2015), seu primeiro álbum solo, reflete isso. Faixas como Falsa Abolição e Negra Sim! cantam a temática em suas letras, com provocações sobre a situação das mulheres negras no país e a falsa ideia da democracia racial.

Em entrevista à Rádio Brasil de Fato, Preta Rara falou sobre a carreira, o projeto Escola Sem Partido, as redes sociais e a mobilização do povo brasileiro.

Confira abaixo a íntegra da entrevista.

Brasil de Fato: Com suas críticas e provocações sobre as desigualdades sociais, como foi a recepção da sua produção cultural pelo mercado e pelas pessoas?

Preta Rara: Tudo que eu faço está relacionado ao meu trabalho. Chego neste lugar por conta das minhas opiniões políticas sendo expressadas nas redes sociais e as pessoas se identificando com o que eu escrevo. Tudo isso de vivências, na realidade, é uma forma de eu sobreviver neste mundo. Utilizo o rap como ferramenta pedagógica nas escolas, no palco, falando coisas que as pessoas nunca ouviram na sala de aula, mas que é de extrema importância saber. E tudo isso tem um preço.

Muitas pessoas se identificam, mas muitas se sentem incomodadas. Criei um termo que chamo de “geração incômodo”, porque acredito que é através do incômodo que a gente vai conseguir obter mudanças no país. Às vezes, as pessoas falam que é uma fala dura, um rap direto e reto, mas que é necessário. E eu preferi utilizar a música do que pegar um microfone e começar a falar. Com certeza teriam bem menos pessoas interessadas. Agora, na música, as pessoas são levadas ao ritmo e à reflexão também.

Um dos principais projetos que tem sido discutido é do Escola Sem Partido. Enquanto professora de história e arte-educadora, como você enxerga essa iniciativa?

Um grande retrocesso. Nós demoramos muito para conquistar algumas políticas públicas, o direito de falar, e querem nos silenciar também na área da educação.

Acho bem estranho porque, no Brasil, a única pessoa que não pode ter posicionamento político é o professor. A mídia tem, o governo tem, a igreja. E o professor, que é o facilitador do conhecimento — não é o único que detém o conhecimento, porque acredito que o conhecimento é cíclico —, não pode se posicionar. Isso impede que os alunos raciocinem e tenham censo crítico.

O presidente eleito, Jair Bolsonaro, enquanto deputado federal, votou contra a PEC das Domésticas. O que significa ter no maior cargo de poder um político que votou contra os direitos dessas trabalhadoras?

A PEC das Domésticas é mega recente e foi um grande avanço quando a conquistamos, porque deu diretrizes para falar que esse emprego é um emprego como qualquer outro — por mais que tenha todo esse resquício de uma abolição não conclusa. Mas, pelo menos, existe um documento ali exigindo nossos direitos.

Então, vem esse presidente eleito — graças a Jah não por mim — e retrocede toda a nossa luta. Se já era difícil termos os nossos direitos conquistados e esse cara vota contra, fico imaginando quanto que ainda vamos retroceder.

É um verdadeiro senhor do engenho que não quer assegurar os direitos das trabalhadoras domésticas. Provavelmente, as domésticas na casa dele têm horário para entrar, mas não têm horário para sair; o tratamento não deve ser humanizado, assim como vários lares do Brasil inteiro.

Uma das palavras de ordem para o período que se coloca a frente com a eleição de Bolsonaro é ‘resistência’. O que significa essa resistência pra você?

Para mim, resistir é estar viva. Porque a gente sabe que eu, mulher preta e gorda, já estou no mapa da vulnerabilidade social, independente de que partido ocupe [o poder]. Vou resistir através da arte, da música, do afeto dos meus iguais e não me calar com toda essa opressão que está por vir. Estou preparada para o pior.

Acho que essa placa de ódio que foi instaurada no Brasil sempre existiu, mas se potencializou porque com um líder como o novo presidente, as pessoas se sentiram pautadas a escancarar o seu ódio, já que ele falava isso em rede pública e nunca era detido ou recriminado.

A gente tem que resistir, e a minha fala vai mais contra os fascistas do que ficar apenas apontando para as pessoas e dizer ‘eu te avisei’. A gente vai ter que dar um jeito de quebrar essa placa de ódio de outra forma, trazendo o afeto e dialogando com as pessoas.

As redes sociais tiveram papel fundamental nestas eleições. Às vezes por um lado muito negativo, como a divulgação das fake news, mas por vezes por um lado positivo, como o espaço que elas dão pra ecoar vozes e pontos de vistas. Você acredita que esse pode ser um espaço de resistência?

Sim. Me fortaleço muito com as redes sociais, apesar dos vários ataques que recebo. Assim que saiu o resultado do segundo turno, entrou uma galera para me xingar. Tudo que eles estavam esperando era Jair Bolsonaro ganhar para poder dilacerar todo o ódio que têm na internet.

Mas, a internet também possibilitou que a gente pudesse eleger nossa primeira candidata estadual mulher trans e negra, Erica Malunguinho. Então foi possível fazer campanha na internet, como a Talíria Petrone, que ganhou no Rio de Janeiro. Conseguimos subverter acima de toda essa questão da fake news para poder divulgar nossos candidatos e candidatas.

Utilizo a internet também como uma ferramenta de afeto, aproximação, resistência e para falar sobre tudo que precisamos falar. E não existem outros canais abertos para isso. A internet é um pouco mais democrática do que a TV e mais acessível, então conseguimos dialogar com os nossos e com quem também não tem acesso a esse tipo de informação.

Edição: Rute Pina

RBA: FILME ‘SEQUESTRO RELÂMPAGO’ TRAZ REFLEXÕES SOBRE PRIVILÉGIOS E DESIGUALDADE

Novembro 26, 2018
EM CARTAZ
Suspense da diretora Tata Amaral, baseado em uma história real, tem Marina Ruy Barbosa, Sidney Santiago Kuanza e Daniel Rocha no elenco
por Redação RBA.
DIVULGAÇÃO

filme sequestro relampago

Sidnei Santiago, a diretora Tata Amaral, Marina Ruy Barbosa e Daniel Rocha: narrativa social e política

São Paulo – Em cartaz desde quinta-feira (22), o filme Sequestro Relâmpago, da diretora Tata Amaral, é um suspense, mas não só. A ideia é ir além da história em si, baseada em fatos reais, e trazer a partir do conflito entre os personagens reflexões sobre a questão do reconhecimento dos privilégios e da desigualdade como um dos fatores que explica a violência no Brasil.

No longa, Isabel (Marina Ruy Barbosa) é alvo de um sequestro ao chegar em seu carro e conduzida para sacar dinheiro em um caixa eletrônico. Como o horário possível para realização de saques já havia passado, Matheus (Sidney Santiago Kuanza) e “Japonês” (Daniel Rocha), que se juntaram apenas para realizar o crime, decidem prolongar a situação.

Tata Amaral, que também assina o roteiro com Marton Olympio e Henrique Pinto, conta no programa Bom para Todos, da TVT,  que uma amiga apresentou a ela uma história que “daria um filme”. Quatro anos depois, o resultado chegou às telas. A diretora fala a respeito da questão da tomada de consciência social, representada pela protagonista Isabel. 

“Eu me identifico muito com um aspecto dessa personagem (Isabel). Acredito que nós somos iguais, e a partir de um determinado momento me dei conta de que, apesar de sermos iguais, as distâncias geográficas, econômicas, culturais, principalmente no caso do Brasil, fazem com que a gente tenha que compreender os privilégios”, conta Tata.  “Por exemplo, eu, que sempre me considerei uma pessoa de classe média baixa, já que minha mãe era professora primária e meu pai corretor de imóveis, sempre meio duro, demorei pra compreender que mesmo com essas condições e tendo que dar duro, sou privilegiada perante as pessoas que vivem na periferia, os negros, indígenas . Acho que a tomada de consciência dessa menina nessa situação é o processo pelo qual passei há muitos anos, de entender minha existência como privilegiada.”

No programa, a diretora também falou sobre o trabalho com os atores, mais adaptados a trabalhos em televisão. “O tipo de interpretação que a novela exige é diferente do cinema e passa pelo texto e encenação”, aponta. “A Marina (Ruy Barbosa) e o Daniel (Rocha) são muito interessantes em novelas, mas no cinema eu precisava trabalhar com uma profundidade dos personagens que a televisão, muitas vezes pela sua extensão e natureza, não permite. Foi  muito legal porque a Marina e todos eles se dispuseram a fazer testes para que eu pudesse avaliá-los em um outro terreno, porque não bastava só vê-los com o material que tinha de novela. E foi por meio desses testes e contatos que escolhi a Marina, o Daniel e o Sidney.”

Confira abaixo o Bom para Todos com Tata Amaral

Em São Paulo, o filme está em cartaz nas salas Kinoplex (Itaim, Vila Olímpia e Osasco) e UCI (Jardim Sul e Santana Parque Shopping)

EM MANAUS, COMPANHIA DE TEATRO CAMCRU, MOSTRA LUZ NAS TREVAS (LUX IN TENEBRIS), DE BRECHT

Novembro 25, 2018

Produção Afinsophia.

Paduk, um homem perigoso, depois de gozar durante muito tempo, no bordel da senhora Hooge, dos prazeres que o sexo prostituído oferece através do capital, se viu expulso exatamente pela força daquilo que lhe permitia tal prazer: a falta do capital.

Proibido de frequentar o bordel pela madame Hooge, sua proprietária, por não ter mais dinheiro para bancar suas taras sexuais junto às meninas que vendiam seus corpos, ele não deixou barato: planejou uma forma de vingança. O mesmo que todo capitalista faz quando se sente impossibilitado do lucro. No caso de Paduk, a impossibilidade do sexo e do álcool usados para prostituir as meninas do bordel.

Para concretizar seu plano de vingança, ele montou uma barraca para exposição dos perigos das doenças sexuais ao lado do bordel, e, assim, atrair o público incauto e promover a falência da casa de tolerância. Usou o mesmo recurso que a moral capitalista oferece a todo despudorado: misturou religião, doenças venéreas e moral. Paduk fez o mesmo que a campanha eleitoral de Bolsonaro fez: aproveitou os baixos sentimentos da massa, como diz senhora Hooge, em forma de mistificação, superstição para conseguir público. Aproveitou o sentimento de culpa sexual da massa, o que o psiquiatra alemão W. Reich, chama de excitação sexual inconsciente sublimada no consciente como excitação religiosa usada pelo nazismo de Hitler, e passou a ganhar dinheiro. Essa repressão sexual sublimada em forma de religião foi o mesmo signo usado na campanha de Bolsonaro em forma de Fake News. Principalmente o delirante kit gay.

  Pode-se aventar que os mesmos tristes sentimentos que levaram o público de Paduk acreditar em suas conferências contra a prostituição e sua vocação para combater o mal, são os mesmos que levaram grande parte dos eleitores de Bolsonaro a votarem nele. É o que nos mostra a psiquiatria. Exaltação da culpa. Ou, com Freud, magnificação da histeria coletiva. Não esquecer que a peça Lux In Tenebris, Luz Nas Trevas, foi escrita em 1919. Vai fazer 100 anos e continua atualíssima, principalmente no Brasil. Coisa da pós-modernidade de Brecht.

Depois, como ocorre na lógica do capitalismo, quando a concorrência é muito forte a decisão mais mais economicamente certa é se unir com o inimigo. Foi o que fizeram madame Hooge e Paduk. 

A montagem da peça é o produto do Encontro Sobre a Práxis e a Poiesis na Estética Marxista criado com estudantes da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) executado pelo filósofo Marcos José sob a coordenação do filósofo e professor da instituição Vitor Leandro tendo como coadjuvante o historiador, ator e fotógrafo Alci Madureira.

Durante o movimento do tema do Encontro, occurso, como diz o filósofo Spinoza, os estudantes participaram de exercícios de criação do ator e direção teatral. Como resultado foi a montagem da peça e a criação da Companhia Artística Momento Cru (CAMCRU) que resultou na apresentação na UEA para uma platéia que, em sua maioria, nunca tinha assistido um espetáculo teatral e na sua totalidade muito menos uma peça de Bertolt Brecht. Foi uma noite inolvidável. Não podia ser diferente. Brecht mostrado pelas magníficas interpretações das atrizes e atores. O verdadeiro encontro spinozista com produção de afetos alegres. Aumento da potência de agir.

ELENCO

Paduak————————————Maurício 

Madame Hooge e outros————-Ayene

Jornalista e outros———————-Jamine

Capelão e outros————————Matheus

FICHA TÉCNICA

Encenação——————————Marcos José

Assistente——————————-Alci Madureira

Contra-Regar————————– Vitor Leandro                            

Música———————————–Composição Coletiva                                                                                                                                                             

BRASIL DE FATO: UM PASSEIO POR MONUMENTOS QUE REVELAM A HERANÇA NEGRA ESQUECIDA

Novembro 23, 2018

MOSAICO CULTURAL

Pedra do Sal, Pelourinho da Liberdade, conheça a história de alguns pontos de resistência negra espalhados pelo Brasil

Norma Odara

Brasil de Fato | São Paulo (SP)

23 de Novembro de 2018

Ouça a matéria:

No roteiro pelas memórias negras a Bahia é referência e também a cidade mais negra fora da África / SETUR/ Fotos Públicas

Você já ouviu falar na Pedra do Sal, no Rio de Janeiro? No Quilombo dos Palmares, em Alagoas? Ou no Pelourinho da Liberdade, em São Paulo?  Essas e tantas outras localidades consideradas turísticas escondem memórias negras e de resistência, de um passado doloroso e escravocrata.

 

Pedra do Sal

A Pedra do Sal, localizada no final da Rua Argemiro Bulcão é conhecida hoje como importante reduto do samba. Lá surgiram os primeiros ranchos carnavalescos e rodas de samba de estivadores. Além de ter recebido grandes nomes de nossa música popular brasileira como João da Baiana, Pixinguinha e Donga.

Mas o lugar carrega este nome porque durante o século 17 escravos descarregavam na pedra lisa o sal das embarcações que aportavam nas proximidades.

 

Quilombo dos Palmares

Saindo do Rio de Janeiro e entrando no sítio arqueológico da Serra da Barriga, em Alagoas, temos o Parque Memorial Quilombo dos Palmares, potente reduto de resistência negra do período colonial, que acolhia escravos fugidos.  O memorial conserva a história de um dos maiores quilombos do Brasil, que resistiu por mais de um século e foi comandado por Zumbi e Dandara.

O quilombo foi derrotado pelas tropas do bandeirante Domingos Jorge Velho, em 1695. Após resistir bravamente aos ferimentos sofridos durante o ataque, Zumbi foi morto e decapitado, no dia 20 de novembro, do mesmo ano. Em 2011, através da lei nº 12.519, o dia 20 de novembro foi instituído oficialmente como Dia da Consciência Negra, em homenagem a resistência de Zumbi.

 

Ladeira da Praça

A Bahia, que foi capital do Brasil de 1549 e 1763, recebeu muitos escravos através do Porto do Cais da Cidade Baixa e em portos ilegais como Baía de Camanu ou da Ilha de Itaparica. A Bahia é considerada a cidade mais negra fora do continente africano e, portanto, carrega muito da memória, costumes e tradições.

Uma das Ladeiras mais conhecidas da Bahia, a Ladeira da Praça, próximo ao pé da ladeira da Praça, em frente ao Quartel General do Corpo de Bombeiros teve início uma das mais importantes revoltas, considerada a maior revolta de escravos urbanos nas Américas:, a Revolta dos Malês.

O levante aconteceu em 25 de janeiro de 1835 e foi organizado por africanos iorubás, que no Brasil eram chamados de nagôs. Estudos apontam que mais de seiscentos rebeldes tenham participado.

 

Pelourinho da Liberdade

Na cidade de São Paulo temos o Pelourinho da Liberdade, onde hoje é a Praça da Liberdade, conhecido atualmente como bairro oriental, mas que já abrigou a forca de escravos e o cemitério, como explica a historiadora Carol Oliveira.

“A parte de baixo que era o lava-pés, ali do Glicério, que é a parte mais encharcada, onde tinha enchentes e tem até hoje, sempre foi ocupada por negros. Então nunca teve uma retirada das pessoas negras dali pra colocar imigrantes orientais. O que acontece é que a urbanização vai se transformando e se adaptando ao capital das pessoas e aos interesses capitalistas das pessoas”, comenta.

A historiadora faz parte do projeto “História da Disputa: disputa da história” e comenta sobre a permanência negra

“É negado às pessoas negras a memória. Então a questão é que está sempre em disputa. Você morar em uma casa ou morar em um cortiço é uma disputa de sociabilidade, hábito urbano, que transforma a cidade e faz com  que permaneçam certas memórias. Se você não tem uma casa, se você não consegue ter um pedaço de terra e terra aqui é a coisa mais importante que tem, você não vai conseguir deixar esse legado”, diz. 

Carol indica também o “Inventário dos Lugares de Memória do Tráfico Atlântico de Escravos e a História dos Africanos Escravizados no Brasil”, pesquisa feita por estudantes da Universidade Federal Fluminense, sobre portos ilegais, terreiros espalhados pelo Brasil e patrimônios imateriais do negro no país, clique aqui

É difícil precisar os impactos de um sistema racista respaldado pela religião, que perdurou por mais de 400 anos em nosso país e escravizou milhões de negros e negras. Mas é certo que a resistência continua.

Edição: Guilherme Henrique