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PASSEIO KINEMA-HISTÓRICO

Agosto 16, 2014

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Sequenciando os instrumentos técnicos-kinema-históricos o passeio esquizo de hoje carrega boas revelações. Partindo do Praxinoscópio de Emile Reynard, vamos o fuzil-fotográfico do francês Ètienne Jules Marey, inventado no ano de 1882 que ele usou para fotografar pássaros voando. Mas as pesquisa não param e não param porque são importantes para a sustentação científica do capitalismo técnico-industrial.

Um importante salto científico para desembocar na possibilidade da produção do filme ocorreu no ano de 1887, quando o norte-americano Hannibal Williston Goodwin, patenteou uma película de celulose. Logo em seguida, em 1889, William Kenedy Dickson, que fora auxiliar de Thomas Edison, criou um processo para fazer passar uma película pelo interior de uma câmara. Para conceber a ideia de quem inventou a câmara cinematográfica se estabeleceu que ela fora inventada simultaneamente por Marey e William Freise-Greene. Claro que eles apenas foram combinando inventos anteriores até chegar à câmara cinematográfica. Sem os inventos anteriores eles não teriam chegado às suas invenções, é mais do óbvio, mano.capa 001 capa 002

Então, depois da criação da câmara cinematografia, apareceu o elemento necessário para complementação da arte cinematográfica: o projetor. Todos sabem que a arte cinematográfica tem dois corpos agenciadores de comunicação coletiva: a câmara filmadora e o projetor do filme. E novamente aparece a questão científica. Em 1890, alguns pesquisadores se dedicaram a essa tarefa. Em 1892, no Musée Grévin de Paris, Émile Reynard apresentou uma série de pantomimes lumineuses. Em 893, em Chicago, Muybridge, apresentou um aparelho camado de Zooscópio. Todavia, em uma loja da Broadway, Edison, expos o aparelho Cinetoscópio, inventado por seu auxiliar Dickson. Edison, não era otário. Era muito esperto. Alias, como essas pesquisas tinham como drive o capitalismo industrial-científico, nesse meio não havia gente ingênua.capa 003 capa 004

Ocorreu, porém, para perturbar a ambição de Edison, que o cinetoscópio tinha suas limitações. Ele não projetava imagens sobre uma tela grande e não trabalhava com filmes longa-metragem. Mas, como dizem os sábios capitalistas envolvidos no lucro que não há problema que não tenha solução para esse sistema econômico, em 1895, Woodville Latham, apresentou a solução: a famosa Curva de Latham. Ela regulava o movimento da bobina criando uma velocidade necessária para que o olho humeno pudesse captar a imagem. Porrada, meu! O mesmo não se pode falar do movimento da imagem-computada que é usado na televisão e internet, onde esse movimento é para seres de outras galáxias. É um movimento para ocultar a imagem. São truques computadorizados usados para ocultar a ausência de talento de seus realizadores. Por isso, que se afirma, sem receio de errar, que os filmes que usam esses recursos não podem ser tratados como cinema.capa 001 capa 002

Bem, moçada, a partir de 1895, o panorama do cinema estava arreganhado. Um exemplo. No mês de setembro desse mesmo ano, foi realizado na Exposição do Algodão, nos estados de Atlanta, Georgia, Thomas Armat realizou a exibição de alguns filmes. Em novembro, Max Skladanowski, realizou projeções no Wintergarten de Berlim, na Alemanha. Em 28 de dezembro, os nossos já conhecidos irmãos Lumière, em Paris, exibiram, em um porão, algumas fitas que deixaram o público ouriçado com a nova percepção. E, em fevereiro de 1896, em Londres, Robert W. Paul fez demonstrações como o revolucionário projetor.

Leiam essa onda e tirem o sarro que é possível. No dia 23 de abril de 1896, em uma sala do Koster and Bials Music Hall, em Nova York, o narcisista, esperto e ambicioso Thomas A. Edison, fez uma apresentação e proferiu essa sintomática sentença:

– “Essa é a primeira exibição pública da última maravilha de Edison”.

Gostaram? Estava aberta a temporada do cinema comercial. E tudo ficou muito claro: Edison não era um inventor, mas um empreendedor que fazia uso das invenções alheias. Aberração capitalista. Do jeito que o capitalista produz sua riqueza roubando a vida do trabalhador através de sua força de trabalho, eufemisticamente simbolizada como salário, Edison roubava os inventos dos outros pesquisadores como fez com seu auxiliar Dickson, inventou do cinetoscópio.

Deleitem-se com as imagens que outros passeios ocorrerão.

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PASSEIO KINEMA-HISTÓRICO

Agosto 1, 2014

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 “Para mim, cinema é fotografia e o que é interessante é fotografar a realidade”.

                                 Jean Renoir

Hoje, o passeio é um real passeio esquizo dado suas decomposições cronológicas. Vamos passear enquanto seu lobo não vem. Vamos passear por percursos que o lobo não passa. Percursos históricos científicos-tecnológicos.

Antes, gostaríamos (não gostaríamos: gostamos), com a devida venha de todos, nos reportarmos ao comentário de um companheiro, o filósofo e economista, Anderson Litaif, que disse encontra-se aproveitando esse passeio kinema-histórico para fazer um curso de história do cinema. Agradecemos a parceria, mas não sabemos se se trata de um curso, mas que é um suave, alegre e cumpliciado passei, é. Com esse comentário você deixa nossos ‘amigos’ ouriçados.

Para o primeiro passo, uma pergunta não-didática: Quem inventou o cinema? Resposta paradidática: Ninguém. Segundo o talentoso historiador do cinema John Howard Lawson, criador da insigne obra, O Processo de Criação no Cinema, é impossível afirmar “a quem cabe o mérito da criação. Historicamente muitos indivíduos contribuíram para a criação do cinema. E mais, “a ideia de projetar imagens em movimento remonta há muitos séculos atrás”. Daí não se poder apresentar o proprietário da invenção. Ainda bem. Já que tudo não passa de imbricações e composições de corpos, como diz o filósofo Lucrécio.cinema 002

 Esse Lawson é um cara ‘malvado’. Em uma sociedade onde predomina o princípio da lógica da identidade aristotélica, é uma maldade não afirmar quem inventou o cinema. Uma sociedade que prima pela identificação: isto é isto, aquilo é aquilo, não é isto, é isto. Coisa de professores marcadores de poder.

Não saber quem inventou o cinema tem uma importância política. Já imaginaram em uma ditadura com uma censura braba, a força de repressão querer prender, torturar e matar o inventor do cinema, já que é uma arte revolucionária? Não é melhor assim. O cinema não tem inventor.

O que se pode tentar é compor corpos cinematográficos que surgiram nos transcursos históricos e encontrar alguns enunciados dos criadores. Vamos nessa.cinema 001

Athanasius Kirchener, em 1640, em Roma, apresentou a sua famosa lanterna-mágica Magia Catoptrica. Foi deslumbrante. A galera vibrou. Coisa de louco, mano. Em Viena, Simon Ritter Von Stampfer, no ano de 1832, mostrou o seu revolucionário Estroboscópio. A galera se estroboscopizou. William George Harner, em 1833, apresentou na Inglaterra o seu Dédalo mais conhecido como Roda do Diabo. O cara como inventor era o diabo. Abalava toda fé na impossibilidade de não se fazer a imagem ser projetada em movimento. Na Filadélfia, um engenheiro mecânico conhecido como Coleman Sellers, criou um aparelho chamado cinematoscópio que fora patenteado por ele no ano de 1861.

Saca só o grande salto qualitativo da criação. Os caras, em suas loucuras, sabiam que a comunicação entre o olho do homem e seu cérebro, ou seja, a imagem que é vista é retida em um tempo de um vigésimo a um décimo de segundo, tempo suficiente para que essa imagem se funda com a imagem ulterior. Com esse saque eles, com suas loucuras, experimentaram aparelhos que pudesse expressar essa realidade perceptiva e conceptiva do homem.

Aí, não deu outra. Eles criaram esses aparelhos com um disco rotatório que mostrava as imagens separadas em quadros que quando eram acionados, em um tempo suficiente, cada quadro era gravado na retina e fundido posteriormente com o quadro seguinte. Loucura, pura! Os quadros tinham como conteúdos, imagens desenhadas. Mas, Sellers, que era um pouco mais maluco, não usou desenhos, usou uma série de fotografias. Claro que ele já conhecia os outros aparelhos, por isso foi mais fácil para ele. E, também, a fotografia já era moda. Louis Daguerre, já a havia inventado no ano de 1839. O que não tira de Sellers, sua importante loucura.

A invenção da fotografia é um maravilhoso elemento intensivo para o salto qualitativo que vai levar ao cinema. Ela possibilitou que a câmara realizasse além de uma série de imagens separadas imagens simultâneas que reproduzissem o movimento. O exemplo clássico foi fornecido pelo governador da Califórnia, Leland Stanford, que em 1872, talvez enfadado com sua posição de governador, resolveu apostar que um cavalo correndo levanta as quatro patas. “Não acredito! “Voar é com os Pássaros!” Alguém, ingenuamente, ou supersticiosamente apavorado, deve ter duvidado. E outro deve ter dito: “Cavalo voar nunca vi, mas boi voador, já. Perguntem aos monges da Idade Média”.cinema 004

O governador, que deitava na grana chamou Eadweard Muybridge, fotógrafo em São Francisco, e mandou o maluco realizar a façanha-cinematográfica. O cara que era também muito louco mandou ver. Resultado: não deu certo, cara. Que horror! O cavalou não voou. No lugar apareceram manchas confusas. Que tristeza. Mais tristeza ainda, porque o dinheiro para pagar o fotógrafo deveria ser público.

Mas não esquenta. Louco é louco e não pode viver sem o produto de sua loucura que quando chega à exterioridade lhe alimenta para novas loucuras. Cinco anos depois, o grande Muybridge, instalou uma bateria de 24 câmaras, acionadas por uma carente elétrica que quando o cavalo passasse diante delas disparava. Cara, loucura! Como diz Lawson, “as câmaras viram o que o olho não podia ver”! Claro, quem é o louco que vai ficar olhando para patas de cavalo. O cavalo voa. Suas patas ficam fora do chão quando ele corre. Não é loucura, é física. Einstein era também capaz de ver o que outros não viam. Nessa loucura-histórica-cinematográfica tem Newton e Einstein.

Muybrideg que era louco, mas não otário, patenteou seu invento como método e aparelhagem para fotografar objetos em movimento. Em 1882, Emile Reynard, em Paris, projetou sobre uma tela com seu invento Praxinoscópio, fotografias criadas por Muybridge…cinema 003

E o governador, ganhou a aposta? Nunca mais se ouviu falar sobre ele. Pelo menos nós.

Vejam algumas lâminas com texto do crítico de cinema, o português, Armindo Blanco. As lâminas 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 e 10. As lâminas 1 e 2 já foram publicadas no segundo passeio.

PASSEIO KINEMA-HISTÓRICO

Julho 25, 2014

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“Os iniciadores do processo cinematográfico foram os inventores, mas somente na obra dos artistas é que a invenção adquiriu sua função criadora”  John Howard Lawson.

O passeio de hoje percorre, além de alguns elementos da criação cinematográfica, imagens, também conhecidas como lâminas ou fotogramas e os primeiros estúdios. Como diria Godard: ”Cinema é a vida se repetindo 24 fotogramas por segundo”. Antes, porém, com toda vênia dos ilustres passageiros-kinema-históricos, gostaríamos de oferecer esse imagético passeio a um companheiro engajado nessa estética audiovisual. Que em verdade, é mais visual. O kinema-real é a arte da visão. A sonorização é um corpo sedutor acoplado no movimento imagético.

O companheiro em questão, é o cinegrafista argentino, Lyonel Lucini. Lyonel Lucini foi professor de cinema da Universidade Nacional de Brasília (UNB) cassado pelos militares no começo da década de 70 e criador de um dos melhores documentários sobre manifestação cultural-sacra: A Festa do Divino, além de outros documentários. Como cineclubista, foi também um dos criadores do Cine Clube de Brasília, um dos mais importantes do Brasil. Escreveu sobre cinema no Jornal Correio Brasiliense, no seu Caderno de Cultura.

Lyonel sabia da dimensão filosófica do olhar. Mesmo quando não estava com a câmara focada seus olhos pareciam evidenciar um objeto que logo era transposto para a situação de imagem. Há um fato na produção de Lyonel que poucas pessoas conhecem. Embora tenhamos tido pela primeira vez contato com ele em Brasília, todavia nossa relação permaneceu por alguns anos. Volta e meia ele se fazia presença aqui em Manaus. Numa dessas volta e meia ele participou de um trabalho sobre doença de Chagas feita com pescadores.capa 002 capa 004 capa 005

Uma companheira nossa, que é médica, ainda em 70 elaborava um trabalho de tese sobre a doença e seu campo de pesquisa era a beira do Mercado Municipal, onde ela colhia sangue dos pescadores que chegavam em seus barcos com seus pescados para distribuir aos vendedores. Lyonel durante o trabalho não desperdiçou a ocasião e passou a fotografar. Um trabalho inédito dele.

Foi ele que nos apresentou o cinema como uma arte revolucionária e necessária para desvelar a dominação sobre os sentidos e a inteligência. E ainda nos proporcionou um bom número de literatura kinemasófica quando do nosso primeiro encontro, em Brasília. Que por intenção, estão sendo usadas nesse Passeio Kinema-Histórico.

No ano de 2005, o engajado Lyonel Lucini, realizou seu Plano Panorâmico. Um plano em que a câmara se movimenta sobre seu eixo em 360º.capa 003 capa 007

Então os irmãos Lumieré diante de seu cinematógrafo disseram: “No futuro, o cinema só poderia vir a servir como curiosidade científica”. George Méliès imaginou: “Curiosidade científica, é? Pois tá! Deixa comigo”. Comprou, por um bom preço, dos desesperançados irmãos, o brevet, e com seu tino comercial, passou a realizar, com sua imaginação, filmes com crivo fantasioso através de truques inventados por ele. Em 1902, realizou a famosa Viagem à Lua. Na época, (e por que não dizer, ainda hoje?) os cenários arrepiaram os espectadores, assim como as indumentárias e adereços cênicos. Observemos as lâminas. Vejamos a Conquista do Polo e a Fantasia Submarina. Loucura, manos!capa 006

Mesmo assim, os irmãos cinematografamentedesesperançados, ainda realizaram  A Saída dos Operários da Fábrica, O regador, Regado, A Comida do Bebé, O Mar, a Pesca, a famosa Chegada do Trem na Estação da Cidade.

Vejamos mais duas lâminas, uma de Charles Pathé que aproveitou o Kinetoscípio de Edison e realizou várias películas. Outra do primeiro grande mestre do cinema David Wark Griffith. No caso em questão, Nascimento de Uma Nação. Uma apologia a luta sulista-racial da Ku Klux Klan contra os negros e A Queda da Babilônia.