Archive for Junho, 2016

Caminhadas celebram obras de Drummond e Guimarães Rosa

Junho 30, 2016

No próximo domingo, evento em Paraisópolis (MG) lembrará duas obras do poeta.

por Vitor Nuzzi, da RBA

São Paulo – Caminhadas literárias neste mês de julho, em Minas Gerais, celebram as obras dos escritores Carlos Drummond de Andrade e Guimarães Rosa, nascidos em Itabira e Cordisburgo, respectivamente. No segundo caso, ocorre a 28ª edição da Semana Roseana, com diversas atividades entre os dias 11 e 16. No primeiro caso, o evento Tinha um Drummond no meio do Caminho será realizado no próximo domingo (3), na cidade de Paraisópolis, sul mineiro.

A sexta Caminhada Poética de Paraisópolis compreende um trajeto com a duração de aproximadamente três horas, na manhã do domingo. Durante a atividade, o Grupo de Teatro Toque de Arte apresenta dois livros de Drummond,Novos Poemas (1948) e Claro Enigma (1951). O organizador é o professor aposentado José Antonio Braga Barros, que se inspirou justamente na Semana Roseana.

Em Claro Enigma está, por exemplo, o poema Máquina do Mundo: “A máquina do mundo se entreabriu/ para quem de a romper já se esquivava/ e só de o ter pensado se carpia”. Nascido em 1902, Drummond publicou o seu primeiro livro, Alguma Poesia, em 1930. Morreu em 1987.

Em Cordisburgo, a Semana Roseana começa com missa e narração de textos de Guimarães. Ao longo da programação, outros textos serão narrados, inclusive pelo Grupo Miguilins, formado por crianças e adolescentes. Haverá ainda exposições, saraus, palestras, feira gastronômica, apresentação teatral, exibição de documentário e caminhadas urbana e eco-literária, esta com o tema Os Amores de Riobaldo – Grande Sertão: Veredas. Provavelmente o mais conhecido do autor, o livro Grande Sertão: Veredas está completando 60 anos e é o tema do evento.

Guimarães Rosa nasceu em 1908 e morreu em 1967, três dias depois de assumir seu posto na Academia Brasileira de Letras. Havia sido eleito quatro anos antes, mas relutava em tomar posse.

Leia mais: Onde vive o sertão

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Novo livro de Sérgio Vaz será lançado no Sarau da Cooperifa nesta terça

Junho 28, 2016

‘Flores de Alvenaria’ traz verso e prosa sobre o cotidiano dos moradores da periferia.

por Redação RBA

São Paulo – De sorriso largo e palavras afiadas, o criador de um dos mais famosos saraus da capital paulista, Sérgio Vaz, lança “em casa” o oitavo livro de seus mais de 25 anos de poesia. Flores de Alvenaria (Global Editora, R$ 25), oficialmente lançado no dia 23 em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, será a vedete do Sarau da Cooperifa nesta terça-feira (28), a partir das 19h30, no Bar do Zé Batidão.

A obra de 184 páginas traz contos e poesias que abordam cotidiano na periferia e alma das ruas. As calçadas do subúrbio hoje e ontem, os amigos, o amor e o poder da poesia estão impressos no livro no qual Sérgio descortina um universo nem sempre visível aos olhos menos atentos. Em verso e prosa, o autor trata sobre educação, negritude, liberdade, sexo, empatia, entre outros temas.

O autor e cantor Chico César, responsável pela apresentação do livro, descreve os textos de Flores de Alvenaria: “Variam formas e temas. Mudam a tessitura e o timbre. Pode ser poesia ou prosa. O homem e o poeta são o mesmo, um só. Romântico, mordaz, perplexo, inquieto”.

Trecho do poema Flores de Alvenaria:

Dá-me tua mão amor
a madrugada tem olhos que machucam
e as ruas estão cobertas de pequenas estrelas
anunciando que o passado sombrio
caminha contra a liberdade do futuro.

A neblina tem olhos que delatam
e noites sem pão nem flores
querem de novo sentar à nossa mesa
jã tão farta de antigas dores.

Corpos negros sangram nas calçadas
e enquanto o asfalto trama o fim da paz
o sangue dos famintos escorre surdo
no rap triste e nas filas dos hospitais.

Lançamento de Flores de Alvenaria
Quando: terça-feira, 28 de junho, às 19h30
Onde: Sarau da Cooperifa, no Bar do Zé Batidão
Rua Bartolomeu dos Santos, 797, Jardim Guarujá, São Paulo
Quanto: grátis

Ficha técnica
Autor: Sérgio Vaz
Apresentação: Chico César
Editora: Global Editora
Páginas: 184
Preço: R$ 25,00
Idioma: português
Edição: 1ª edição
Gênero: literatura periférica
Tema: poesia

‘A aceitação do cabelo afro não é só uma questão estética, é política’

Junho 25, 2016

Exposição ‘Raízes’, de Sophia Costa, aborda o papel do cabelo na construção da identidade da mulher negra.

por Xandra Stefanel

Alisamentos, relaxamentos, hidratações constantes. Desde criança, Sophia Costa tinha uma rotina intensa para deixar seu cabelo afro o mais liso possível. Desde os 13 anos, ia ao cabeleireiro semanalmente para lavar e fazer escova. Quando entrou na faculdade de Publicidade e Propaganda, na Universidade de Brasília (UnB), notou que muitas garotas assumiam o cabelo afro e descobriu, enfim, a beleza de deixá-los naturais. Foi dessa experiência pessoal que nasceu a exposição Raízes, que fica em cartaz de amanhã (24) a 3 de julho no Terraço Shopping, em Brasília.

“A relação da mulher negra com o cabelo é extremamente complexa desde a infância, é dolorosa e deixa marcas. É incrível como, quando essas mulheres fazem o caminho inverso e tentam resgatar suas raízes por meio de seus cabelos, elas passam a, não só se aceitar, como a se empoderar”, afirma o texto de apresentação da mostra, que é resultado do projeto de conclusão de curso da publicitária.

A ideia do projeto nasceu durante a graduação, quando Sophia decidiu fazer a transição capilar. “Eu percebi que eu não gostava daquele cabelo liso que eu estava usando. Ele não me fazia feliz. Eu estava usando porque era obrigada, porque achava que só seria considerada bonita daquele jeito. Daí, eu comecei a ver outras meninas com cabelo crespo e natural e comecei a querer conhecer a estrutura do meu cabelo. Este foi um processo muito importante para mim. Eu conheci várias outras meninas que estavam passando pela mesma situação e percebi a importância do cabelo na construção da identidade da mulher negra.”

Raízes

A exposição, que tem como tema principal o cabelo e seu papel de construção da identidade da mulher negra, exibe fotografias de 12 mulheres negras que trazem uma profunda ligação com seus cabelos – inicialmente, de negação, e, depois, de aceitação. Todas estão representadas como rainhas, deusas ou guerreiras, com roupas que destacam e promovem os penteados afro.

A escolha do número 12 não foi aleatória: “O número doze é interpretado como centro de essência dos objetos e, muitas vezes, representa o final de um ciclo (12 meses do ano, 12 signos, 12 apóstolos). Esse número foi escolhido para passar a ideia de que no centro da formação da identidade da mulher negra está o cabelo, e que quando a mulher assume a força que ele representa, ela finaliza esse ciclo de autorrejeição e passa a se amar do jeito que ela é”.

Sophia Costa afirma que sua vida mudou depois de ter aceitado seu cabelo afro: “Hoje, eu sou outra pessoa. A minha visão de mundo e minha visão em relação a mim mesma e às outras pessoas é outra. Meu referencial de beleza é outro, eu enxergo a beleza do cabelo crespo. Se antes era algo de muita rejeição – tanta, que eu não queria nem mesmo tocar no meu cabelo –, hoje eu amo meu cabelo, conheço sua estrutura e sei cuidar dele. Eu comecei a querer mudar meu cabelo por uma questão estética, mas depois percebi que não era só isso: a aceitação do cabelo afro não é só uma questão estética: é política também”.

Raízes
Quando: de 24 de junho a 3 de julho, das 10h às 22h
Onde: Terraço Shopping
SHC entrequadras 2/8 lote 5 Octogonal Sul, em Brasília
Quanto: grátis
Mais informações: (61) 3403-2992

Vereadores aprovam projeto de iniciativa popular de Fomento à Cultura da Periferia

Junho 23, 2016

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Projeto aprovado ontem (21) pela Câmara paulistana cria financiamento de R$ 20 milhões anuais direcionado principalmente a grupos e coletivos dos extremos da cidade.

por Redação RBA

São Paulo – A Câmara Municipal de São Paulo aprovou, na tarde de ontem (21), o Projeto de Lei (PL) 624, de 2015, que cria o Fomento Cultural das Periferias, projeto de apoio à formação artística, intelectual e técnica para movimentos e grupos culturais paulistanos que atuam em regiões de alta vulnerabilidade social. O projeto foi elaborado pelos próprios ativistas e, depois de três anos e dezenas de reuniões e mobilizações, foi encampado por parlamentares como o vereador e ex-secretário Municipal de Cultura, Nabil Bonduki (PT). O projeto segue para a sanção do prefeito Fernando Haddad (PT).

“É uma maneira de direcionar para a periferia recursos para o desenvolvimento de projetos, porque [a periferia] tem sido excluída de editais de fomento ao teatro, dança e outros, exatamente porque as regiões mais centrais acabam reunindo grupos mais consolidados, e dessa maneira é mais difícil um grupo da periferia receber algum recurso ou apoio”, explicou Bonduki.

“É uma vitória popular. Às vezes, as pessoas acham que por morarmos na periferia e não termos possibilidade de estar constantemente nesses espaços, não sabemos escrever, falar ou até mesmo fazer arte. Essa lei prova o contrário, que estamos atentos e somos perspicazes o suficiente para construirmos uma lei que beneficie uma grande camada da população paulistana”, destacou Jesus dos Santos, integrante do coletivo Casa no Meio do Mundo.

O orçamento anual do fomento será de R$ 20 milhões e deverá contemplar, no mínimo, 66 grupos com R$ 100 mil a R$ 300 mil. Mas, diferente dos fomentos à dança e ao teatro, será aberto a todas as formas de expressão cultural, como artesanato, grafite, dança, literatura, desenho, teatro etc.. A preocupação dos ativistas era que os artistas da periferia tivessem apoio para estudar, desenvolver, produzir e viver da arte.

Para isso, o recorte social da proposta é bastante específico, levando em consideração a distribuição da população em situação de vulnerabilidade social pela cidade. Assim, a região central da cidade, que mantém 7% da população com renda familiar per capita de meio salário-mínimo, receberá verba proporcional a esse extrato populacional. Outros 23% serão aplicados nas regiões ao redor do centro. E os 70% restantes nos extremos, como Guaianases, na zona leste, e Capão Redondo, na zona sul.

Para ter acesso ao financiamento, os grupos terão de comprovar suas realizações ao longo do tempo e não apenas apresentar um projeto. Os interessados terão de comprovar ao menos três anos de atuação cultural na cidade. Com isso, os ativistas esperam evitar a profissionalização de coletivos na captação dessa verba. O fomento será destinado a pessoas físicas, facilitando a participação de grupos que não têm condições de se institucionalizar.

O processo de elaboração da lei começou em 2013, reunindo ativistas culturais das regiões sul, leste e oeste da capital paulista. Após muitas discussões foi criado o Movimento Cultural das Periferias, que no último ano realizou várias conversas com a gestão Haddad e vereadores paulistanos em busca de apoio para a proposta.

A prefeitura mantém cinco programas de financiamento à arte: os Programas de Valorização de Iniciativas Culturais (VAI) I, II e TEC – este último é específico para tecnologia da informação; o Agente Comunitário de Cultura; e os Fomentos ao teatro e à dança – que investiram, em 2015, R$ 7,9 milhões e R$ 9,5 milhões, respectivamente.

O VAI aporta até R$ 32 mil, por projeto, na chamada modalidade I e até R$ 64 mil na modalidade II, para oito meses de realização. E os 150 agentes selecionados no primeiro edital do programa recebem R$ 1 mil, por um ano, totalizando R$ 1,8 milhão.

PERIFERIA VAI ÀS RUAS CONTRA TEMER COM O SLOGAN: “ORGANIZAR OS DE BAIXO PARA DERRUBAR OS DE CIMA”

Junho 21, 2016

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Movimentos sociais e coletivos das periferias de São Paulo, principalmente de Campo Limpo e Osasco, estão realizando seu primeiro Fora Temer com o slogan: “Organizar os de Baixo para Derrubar os de Cima”.

O Fora Temer da periferia tem alguns sinais diferentes das outras manifestações realizadas no Brasil, mormente nas grandes capitais, desde a implantação do golpe idealizado, elaborado e executado por indigentes parlamentares, mídias acéfalas capitalistas e parte do judiciário.

Enquanto essas manifestações contam com muitos representantes da classe média protestando contra o golpe em si, a periferia se manifesta contra o golpe, mas ligado principalmente às realidades cruéis de seus cotidianos como moradia, insegurança, saúde, educação, racismo, homofobia, violência contra as mulheres, entre outros, que foram aumentados com a realização do golpe ao tirar antigas garantias.

A forma que esses militantes moradores da periferia fazem uso para manifestarem seus protestos contra o ilegítimo Temer é a cultura expressada pela música, grafite, poesia, teatro, fotografia e dança. Tudo de forma mais radical.

“Na periferia, esse ato tem um tom mais radical. É na periferia que mais se sofre com os cortes nas políticas sociais, com a homofobia, com o machismo, o racismo que este governo também fomenta e estimula através de suas figuras públicas. A periferia não reconhece esse governo como legítimo.

A periferia, na nossa opinião, ainda não para a rua. Porque, se tiveram grandes atos – e é verdade – esses atoa poderiam ser ainda maiores com mais negros, mais mulheres se a periferia fosse às ruas. E a periferia vai às ruas por um projeto radical, porque ela precisa de mudanças radicais. Por isso, as periferias são Fora Temer e hoje é só o primeiro ”, observou a integrante do Movimento Luta Popular, Helena Silvestre.

Para o coordenador do Movimento Luta Popular, Avanilson Araújo, o Fora Temer tem como impulso a questão da moradia, já que já apresentado pelos golpistas uma mudança na política de moradia que vai atingir duramente as famílias.

“Em Osasco, a gente vem de uma ocupação, que já vai completar três anos, que estava avançando para uma negociação. Agora o proprietário acabou de pedir a reintegração, com o cumprimento da liminar novamente. Na nossa avaliação isso tem a ver com a falta de perspectiva de que os programas de moradia vão seguir com esse governo.

Onde tinha acordo, não vai ter mais acordo. Vai ter mais despejo, mais violência e vai ter um aumento de conflito social no país”, afirmou Avanilson.

Veja, ouça o vídeo e torne mais consistente sua consciência política-cultural

‘Trago Comigo’ trata do esquecimento e da memória nos anos da ditadura

Junho 20, 2016

Diretora Tata Amaral destaca a importância de rememorar o período quando pessoas saem às ruas pedindo a volta dos militares.

por Tiago Pereira, da RBA

Lançado na última quinta-feira (16) nos cinemas, o filme Trago Comigo, da diretora Tata Amaral, trata das marcas deixados pela ditadura nas trajetórias pessoais daqueles que viveram o período sombrio, e de toda a sociedade brasileira, que ainda hoje convive com heranças dos anos de chumbo, como a tortura.

O filme conta a história do diretor de teatro aposentado Telmo Marinicov, interpretado por Carlos Alberto Riccelli, que participou da resistência contra o regime civil-militar inaugurado com o golpe de 1964. Indagado sobre  sua companheira da luta armada Lia, Telmo busca resgatar a memória desse amor, apagada pelo trauma da tortura e violência.

Da busca por essas lembranças, duras e doces, Marinicov decide montar uma peça reconstituindo a ação de seu grupo nos idos de 1968, quando da decretação do AI-5, que marca a fase mais obscura da ditadura, com perdas de liberdades individuais e coletivas, prisões, torturas e mortes. “É a história de uma peça. É também a história de um homem que procura resgatar o seu amor de juventude, ao mesmo tempo em que busca resgatar seu sonho de liberdade e de mudança”, diz a diretora Tata Amaral à RBA.

Para a montagem da peça, Telmo dirige um grupo de jovens atores que, a partir desse recorte geracional e das dificuldades de entender o que movia a luta daquela época, surgem com uma série de embates e tensões de ordem moral e ideológica.

A história foi filmada em 2009. Tata afirma que o filme ganha ares de “urgência” no atual momento, principalmente quando pessoas saem às ruas pedindo pela volta da ditadura, por conta de uma “ideia-fantasia”, que deturpa o ocorrido naqueles 21 anos de arbítrio. “Essas pessoas não sabem que, numa ditadura, se você pede um outro tipo de regime, como a democracia, isso já significaria voz de prisão, tortura e morte”, frisa a cineasta.

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Tendo retratado o mesmo período no filme Hoje, Tata Amaral diz ser fundamental lembrar da ditadura enquanto práticas daquele período, como a tortura, seguem incomodando no presente. “A tortura é uma prática de Estado, no Brasil, e ela precisa acabar. Como sociedade, temos que dizer que a gente não quer mais saber de tortura. Nesse momento em que estou falando com você, alguém está sendo torturado em alguma prisão. Isso porque a gente nunca disse não”.

Além da história da montagem da peça, Trago Comigo apresenta ainda depoimentos reais de homens e mulheres que participaram da luta armada e viveram na pele os horrores da repressão. No entanto, os nomes dos algozes torturados foram silenciados no filme, pois seguem impunes, sem julgamento.

A diretora, que se declara favorável à revisão da Lei da Anistia (1979) para que os agentes de estado que cometeram crimes sejam punidos, lembra que a tortura é classificada pela ONU como crime de lesa-humanidade e que, portanto, esses crimes não prescreveram.

“As pessoas que contestaram o regime foram presas, acusadas, torturadas, exiladas, algumas foram mortas. Os torturadores nunca foram sequer importunados. Inclusive recebem pensão do Estado brasileiro, que premia a tortura”, lamenta a diretora.

Filme aborda cultura do estupro, respeito às vítimas e justiça

Junho 18, 2016
Em ‘Paulina’, do diretor argentino Santiago Mitre, protagonista escolhe caminho incompreensível para superar o trauma e a dor da violência sexual
por Xandra Stefanel
Já nos primeiros minutos de Paulina é possível sentir que as convicções políticas e sociais são os verdadeiros protagonistas do novo filme de Santiago Mitre, que estreia nesta quinta-feira nos cinemas brasileiros. O longa-metragem argentino conta a história de Paulina (Dolores Fonzi) que, depois de estudar direito em Buenos Aires, decide voltar para Posadas, no interior do país, para se dedicar à formação política em uma comunidade carente na sua cidade, na fronteira entre a Argentina e o Paraguai. Um dia, quando volta da casa de uma amiga, ela é estuprada por um grupo de rapazes.

A história é uma releitura de La Patota, dirigido por Daniel Tinayre em 1961. Sem o tom religioso do original, o novo filme se debruça prioritariamente sobre questões sociais e a origem da violência, assim como o respeito integral à vítima. Uma das frases mais marcantes do longa é quando Paulina argumenta com seu pai (Oscar Martínez), o juiz Fernando, que não quer que seu caso seja investigado: “Quando há pobres envolvidos, a polícia não busca a verdade, busca culpados”.

“Não tinha assistido à versão original até que eles me disseram para trabalhar em sua adaptação. Vi o filme uma vez e decidi nunca mais assisti-lo: uma vez fora o suficiente. Havia algo no personagem de Paulina que me deu um estalo, me colocou em apuros. No início, tentei compreendê-la, e logo percebi que era impossível, que não tinha que entender Paulina, e que justamente aí estava o que me interessava nessa história. Paulina é movida por uma força de sobrevivência que beira o irracional e essa força é o que move o filme, que nos arrasta junto com ele”, afirma Santiago Mitre.

Segundo o diretor, o remake é uma espécie de fábula política: “A versão original trabalhava com uma ideia do perdão através de parâmetros morais e religiosos. Para mim, a religião não interessa, mas percebi que poderia trabalhar com os temas do filme em outra perspectiva, e tentar construir uma fábula política, onde a convicção estivesse no centro. De alguma forma, o que a religião representava na versão original, foi suplantada por outro tipo de crença: a ideologia. Quão longe você pode levar uma convicção social?Qual é o limite da ideologia? Com estas perguntas, Paulina embarca em uma busca pessoal, e sozinha sofre pela dor que viveu. O que a faz se identificar com outras mulheres que sofreram violência semelhante, é a mesma e dolorosa pergunta: como você sobrevive a isso?”

Com uma gravidez decorrente do estupro, as decisões da protagonista são questionadas e criticadas o tempo todo pela família e pelos amigos. Ninguém se abre para tentar compreender que cada pessoa reage de forma diferente à dor e ao trauma. E, como se não bastassem a humilhação da violência física, o filme explora algo que também é bem conhecido no Brasil: a incompetência policial para tratar de casos como este. Na delegacia, Paulina é submetida a outro tipo de violência: sem rodeios, o policial lhe pergunta sobre o tipo de roupa que estava vestindo, se estava bêbada e por que não reagiu.

Como não poderia deixar de ser, a obra é densa e tensa, causa mal-estar em qualquer pessoa que tenha o mínimo de empatia. É por isso que, mais do que um ótimo filme, Paulina também é útil porque propõe um exercício de reflexão profunda sobre o respeito às vítimas de estupro. “Um dos desafios que Paulina coloca é como respeitar as decisões com as quais não concordamos. É fácil respeitar as decisões que você mesmo tomaria, mas torna-se quase impossível quando temos que compreender as coisas que consideramos erradas. Por que Paulina decide o que decide? O que procura? O que quer provar? É algo que nos perguntamos muito durante o filme, e continuamos a nos perguntar agora, e espero que o espectador se pergunte também”, afirma Santiago, que conversou com diversas mulheres que trabalham dando assistência psicológica a vítimas de violência.

O filme foi o vencedor do Grande Prêmio da Semana da Crítica, no Festival de Cannes, e da Mostra Horizontes Latinos, no Festival de San Sebastián, em 2015, além de ser exibido na 39ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

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Título original: La Patota
Direção: Santiago Mitre
Roteiro: Mariano Llinás e Santiago Mitre
Elenco: Dolores Fonzi, Oscar Martínez, Esteban Lamothe e Cristian Salguero
Produtores: Axel Kuschevatzky, Fernando Brom, Santiago Mitre e Walter Salles
Música original: Nicolás Varchausky
Distribuição: Vitrine Filmes
Classificação: 16 anos
Ano: 2015
País: Argentina/Brasil
Duração: 103 minutos

PRÁXIS E POIESIS, EM MANAUS, NO POETAÇO “FORA TEMER!”

Junho 17, 2016

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Hoje, dia 17, em Manaus, a multiplicidade das práxis e poiesis se encadearão como rede de desejos sensitivos, intelectivos, éticos e estéticos em forma de meta democrática, com sua potência-política, para enfraquecer a força-molar da configuração golpista que se instalou no Brasil com a usurpação do governo Dilma Vana Rousseff.

Serão músicos, poetas, grafiteiros, escritores, teatrólogos, dramaturgos, atores, atrizes, pintores, grafiteiros, ativistas culturais afrosóficos, hip-hop, rap, cantos juninos, entre outras expressões que comporão o Devir-Poetaço. Uma subjetividade criadora que corta as linhas duras que sedimentam as forças controladoras que estão petrificadas como golpe.

Esse o Devir-Poetaço. Toda liberação das potências só ocorrem como criatividade. O Resto é tão somente repetição do já posto como realidade inalterável. Por si só, uma aberrante forma de controlar o movimento criador de novas formas ontológicas de existências.

      Sim, o local!

       Praça do Congresso – Centro.

       É, o horário!

       Às 17 horas.

Vamos lá, moçada! Deixe que sua práxis e poiesis lhe conduzam! 

Documentário mostra como mídia de direita altera formação de opinião do público

Junho 15, 2016
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Tendo como base a imprensa dos Estados Unidos, em ‘The Brainwashing of My Dad’ diretora busca entender a transformação do pai de apolítico democrata a radical conservador
por Cynara Menezes
Socialista Morena – Vocês já repararam como as pessoas têm se transformado em outras ultimamente, como o médico e o monstro? Cidadãos antes cordatos, educados, gentis, de repente viraram cães raivosos, espumando pela boca, prontos a atacar o próximo. E o alvo de sua ira é sempre o mesmo, a esquerda, personificada no PT e em Lula, e as minorias: negros, gays, mulheres. Eu sempre fico com a impressão que o problema dessas pessoas não é política… Mas o que aconteceu para que elas ficassem assim? Será que a mídia tem alguma responsabilidade nisso?

Um documentário que estreia este mês nos EUA, The Brainwashing of My Dad (A lavagem cerebral de meu pai, em tradução livre), explora um dos mais bizarros fenômenos de mídia norte-americanos: o perigoso poder que a mídia de direita pode exercer sobre os cidadãos comuns (lembrando que nos EUA há alternativas “liberais”; no Brasil só existe mídia de direita).

Quando a cineasta Jen Senko tentou entender a transformação do pai dela de um homem apolítico que votou a vida inteira no partido Democrata em um fanático de direita furioso, descobriu as forças por trás da mídia que o fizeram mudar completamente: um plano de Roger Ailes (CEO da FOX News) durante o governo de Richard Nixon para o controle da mídia pelos republicanos; o Memorando Powell, conclamando líderes empresariais a influenciar as instituições de opinião pública, especialmente as universidades, a mídia e os tribunais; e, no governo Ronald Reagan, o desmantelamento da Fairness Doctrine (política governamental que garantia equilíbrio nas notícias de TV, com a obrigatória veiculação de visões opostas de determinado tema).

À medida que a busca de Senko avança, descobrimos que o pai dela é parte de um contingente muito maior, e que a história afeta a toda a sociedade norte-americana.

Utilizando entrevistas com personalidades da mídia, linguistas e ativistas de movimentos sociais, incluindo Noam Chomsky, Jeff Cohen, George Lakoff e outros, The Brainwashing of My Dad revela o plano de direcionar os EUA para a direita nos últimos 30 anos, principalmente através de manipulação midiática. O resultado disso é que hoje há menos vozes, menor diversidade de opinião, desinformação massiva intencional e uma enorme divisão do país. Alguém aí pensou no Brasil?

O documentário mostra como isso aconteceu (e ainda está acontecendo) e coloca questões como a quem pertencem as ondas de transmissão, que direitos nós temos como consumidores de mídia e qual a responsabilidade que o governo tem de fazer essas ondas serem realmente justas, acuradas e próximas à verdade.

Assista a um trecho do filme:

Campo Grande e as crianças invisíveis

Junho 14, 2016

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POR :JOSÉ GERALDO COUTO

Filme de Sandra Kogut expõe desigualdade social brasileira com estética depojada porém perturbadora, na qual o mundo surge um lugar confuso e inóspito

Por José Geraldo Couto, no blog do IMS

Crianças pobres só atraem nossa atenção, e com grande estardalhaço, quando estão envolvidas em tiroteios, assaltos, estupros ou assassinatos. No restante do tempo são invisíveis. É como se não existissem.

Campo Grande, de Sandra Kogut, rompe com essa indiferença passiva ao trazer para diante dos nossos olhos dois desses pequenos seres, os irmãos Ygor (Ygor Manoel), de uns oito anos, e Rayane (Rayane do Amaral), de uns seis. Eles aparecem de surpresa no apartamento de Regina (Carla Ribs), uma mulher de classe média e meia-idade, que não sabe quem são e nem o que fazer com eles.

Não cabe reproduzir aqui a saga de Regina em busca da família dos dois irmãos ou, na falta dela, de um abrigo adequado para eles. O que importa é que, o tempo todo, essas duas criaturas ariscas e lacônicas apresentam-se à personagem (e por extensão a nós, espectadores) como um enigma a ser decifrado. Sua irrupção no apartamento de Regina não apenas desarranja sua vida como também revela a distância entre dois mundos, o abismo vertiginoso entre Copacabana e Campo Grande, bairro da zona oeste carioca que dá título ao filme e de onde os irmãos dizem ter saído.

Na aflição de Regina há um movimento pendular entre o desejo de livrar-se logo do problema e a necessidade de compreender aquelas crianças, de protegê-las de algum modo das durezas do mundo. Entram em jogo também suas próprias carências afetivas de mulher recém-separada e com um relacionamento difícil com a filha (Julia Bernat).

Mundo fragmentário

Resumindo assim, pode-se dar a impressão de um melodrama social corriqueiro, mas o filme não é nada disso. Sua força e sua originalidade estão no seu modo de construção, que preserva e exacerba o caráter fragmentário, truncado, incompleto do espaço físico, bem como da identidade dos personagens e das relações entre eles.

A paisagem urbana que o filme apresenta é de um grande canteiro de obras, com tapumes e guindastes obstruindo parte do quadro, sob o som de motores, serras e bate-estacas. A câmera é colocada no mais das vezes ao nível do olhar das crianças, o que torna tudo mais ameaçador e opressivo. O mundo é um lugar confuso e inóspito, sobretudo para esses pequenos personagens a quem todos olham com desconfiança ou indiferença, quando olham.

A relação tensa e instável entre a adulta Regina e o menino Ygor faz lembrar em alguns momentos Gloria (1980), de John Cassavetes, e sua mal disfarçada versão brasileira, Verônica (2008), de Mauricio Farias. Só que de Campo Grande o crime está ausente, bem como as armas e a violência explícita.

No filme de Sandra Kogut não há maniqueísmo, nem discurso sociológico, nem ênfase declaratória, nem resquício de pieguice. O olhar da diretora é ao mesmo tempo delicado e franco. Equilibra admiravelmente o registro documental, vívido e despojado (graças em grande parte à habilidade do diretor de fotografia Ivo Lopes Araújo), com a segurança narrativa que faz tudo aos poucos se esclarecer, mas de modo indireto, solicitando a participação ativa do espectador.

As coisas parecem se passar naturalmente diante de uma câmera invisível – não no sentido da invisibilidade “clássica”, em que a decupagem cria uma continuidade macia, sem tropeços, mas sim no de uma captação espontânea e provisória, que colhe os acontecimentos de modo parcial, quando já estão em curso (in media res, para dizer de um modo pernóstico). Não há descuido aqui: os enquadramentos são sempre os mais expressivos e ricos de informação. Mas há uma porosidade que permite que a cidade respire e pulse como os próprios personagens.

Atores mirins

Uma última palavra sobre o elenco. Se Sandra Kogut já demonstrara, em Mutum (2007), uma grande competência para dirigir crianças, aqui esse talento se mostra prodigioso: raras vezes se viu na tela um desempenho tão crível e pungente como o de Ygor e Rayane. Carla Ribas, que até agora teve poucas mas marcantes aparições no cinema (O outro lado da rua, A casa de Alice, O abismo prateado) oferece aqui sua mais tocante e corajosa atuação.

Por fim, cabe lembrar que o filme não estava programado para nenhuma das dez salas de cinema existentes no bairro de Campo Grande, quase todas ocupadas com blockbusters americanos, mas um movimento de moradores conseguiu que fosse exibido num shopping local. Agora outros bairros periféricos do Rio, sobretudo da zona norte, mobilizam-se para ver Campo Grande. Essa pressão para a ampliação do circuito de certa forma é um desdobramento do projeto político, ético e estético do filme, de abertura, inclusão, conhecimento e troca.

Cinema francês

O cinema francês realiza uma bem-vinda invasão das telas brasileiras. Até o próximo dia 22, a sétima edição do Festival Varilux exibe quinze filmes recentes e inéditos em cinquenta cidades do país. No Rio, uma das salas exibidoras é o Instituto Moreira Salles.

Entre os destaques estão Chocolate, de Roschdy Zem, em que Omar Sy (o astro de Intocáveise Samba) encarna o ex-escravo que se tornou o primeiro clown negro da França, no final do século 19; o drama de amor Meu rei, dirigido pela atriz Maïwenn, que deu a Emmanuelle Bercot o prêmio de atriz em Cannes; a animação Abril e o mundo extraordinário, de Christian Desmares e Franck Ekinci, ganhadora do festival de Annecy; e Um belo verão, de Catherine Corsini, história do romance entre duas jovens no início dos anos 1970.