Archive for Maio, 2016

Salão do Livro Político promove debates sobre a atual crise brasileira

Maio 31, 2016

Evento que será realizado de 1 a 3 de junho no CCSP reúne os filósofos Marilena Chaui e Vladimir Safatle, os juristas Fábio Konder Comparato e Alysson Leandro Mascaro, entre outros participantes.

por Xandra Stefanel

Entre quarta e sexta-feira (1º a 3), a segunda edição do Salão do Livro Político reúne no Centro Cultural São Paulo, na capital paulista, dezenas pensadores e autorespara discutir a atual crise brasileira. Além da reflexãosobre os vários aspectos do ambiente político nacional, oevento também promove apresentações culturais, exibição de curtas-metragens e uma feira de livros que reúne 25editoras que oferecem descontos de até 50% em suasobras.

A programação traz debates, mesas redondas e sessões de autógrafo que devem reunir filósofos, sociólogos, economistas e políticos para refletir sobre o que se passa hoje, a ascensão da agenda conservadora, questões de gênero e raça, sobre a ditadura civil-militar e a crise que levou ao impeachment de Fernando Collor de Mello. Entre os nomes já confirmados para o evento estão os filósofos Marilena Chaui e Vladimir Safatle, os juristas Fábio Konder Comparato e Alysson Leandro Mascaro, a ex-presa política Amelinha Teles, o economista Marcio Pochmann e o jornalista Luis Nassif, entre outros.

Também serão debatidos o papel da imprensa nesta crise e o importante contraponto das mídias independentes, o movimento estudantil contra a reorganização escolar, a ascensão do teatro político, a emergência dos autores da periferia na literatura, o desempenho do mercado do livro político no Brasil e a questão da Palestina.

“A ideia de criar o Salão do Livro Político surgiu da urgência em ampliar o debate político, renovar interpretações da nossa realidade e apontar alternativas na contracorrente dos discursos conservadores, das narrativas tradicionais e da onda reacionária que assolam o país. ‘O avesso do avesso do avesso do que rola aí’ foi o lema adotado por editores vinculados às humanidades e que dão o tom não apenas à composição do acervo de livros oferecidos ao público, mas também aos nomes selecionados para as mesas de debates, homenagens e tudo o mais que acontece no salão. Em tempos de neomacarthismo, quando há no país um clima de ódio fomentado pelo conluio de juízes, políticos golpistas, colunistas de jornais e o oligopólio midiático que promoveram um golpe de Estado, esse espaço de reflexão será muito bem-vindo”, afirma Ivana Jinkings, idealizadora e coordenadora-geral do Salão do Livro Político.

ChauíA programação será aberta na quarta-feira (1º) com a exposição Escudos Literários do Book Bloc, com capas de livros políticos clássicos e que sofreram censura ao longo da história. Das 12h às 14h, a Sala Adoniran Barbosa sedia o debate “Escolas de luta – O movimento dos estudantes contra a reorganização escolar”. Das 16h às 17h30, no Teatro Jardel Filho, a militante do Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT) Diana Assunção, coordena uma mesa redonda sobre a questão de gênero nos dias atuais e, no mesmo local, Fábio Konder Comparato, Marilena Chaui e Vladimir Safatle participam da mesa redonda “Que democracia?”, das 19h às 20h30.

Na quinta-feira (2), das 14h às 16h, o debate é sobre literatura periférica, e das 19h às 21h, a mesa redonda “O impeachment de 1992 e o golpe de 2016” reúne Marcio Pochmann, Ciro Gomes, Alysson Leandro Mascaro e Carina Vitral no Teatro Jardel Filho. Os destaques do último dia de evento, 3 de junho, são as mesas redondas “O futuro da mídia independente”, “O mito da democracia racial” e “Leituras do Brasil de hoje”.

Para Ivana Jinkings, o evento é uma forma de luta para preservar as conquistas dos últimos anos e de combater o obscurantismo trazido pelo governo ilegítimo de Michel Temer. “Não podemos imaginar a livre circulação de ideias em outra ordem que não seja a da diversidade democrática, sem a qual editoras independentes correm o risco de desaparecer. Em um governo ilegítimo, marcado pelo obscurantismo, vender livros e ideias poderá ser um negócio de risco. Somaremos forças com os que resistem em favor da cultura, da educação e de uma base institucional progressista; contra a perda de direitos trabalhistas e retrocessos de conquistas dos últimos anos. O projeto “Uma ponte para o futuro” rompe o pacto da redemocratização e suprime qualquer possibilidade de desenvolvimento pela próxima década. Neste momento grave da vida nacional, o silêncio significa conivência e, por isso, o II Salão do Livro Político não se furtará à contenda e espero que nas salas e auditórios ecoem fortes, nos três dias de evento, as palavras de ordem: ‘Fora Temer!’”.

O II Salão do Livro Político é organizado pelas editoras Alameda, Anita Garibaldi, Boitempo, Caros Amigos, Cortez, Filoczar, Iskra e Sundermann. Confira a programação completa no site do evento.

II Salão do Livro Político
Quando: de 1 a 3 de junho, das 11h às 22h
Onde: Centro Cultural São Paulo
Rua Vergueiro, 1000, São Paulo (SP)
Mais informações: (11) 3397-4002/ www.salaodolivropolitico.com.br

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VIVA O VINIL! PAPETE! SOM-MARANHÃO!

Maio 29, 2016

P1010810                               Tremula a

                                         BANDEIRA DE AÇO

                                         No movimento do

                                         PLANADOR

                                         Enquanto sorve

                                         ÁGUA DE COCO.

Olha aí, vinilesquizofílico, Papete! O Som-Maranhão dos tambores afros que se disseminaram pelo Brasil à dentro.

P1010774 P1010775 P1010778Não se trata de Papete sem se tratar de Marcus Pereira. Foi exatamente em 1978 que Papete gravou sua primeira bolacha-crioula, hoje, mais do que nunca, verdadeira relíquia, Bandeira de Aço, através da Marcus Pereira com apresentação do próprio Marcus Pereira. A histórica obra reveladora fez parte da coleção Música Popular do Norte que se desdobrava na cartografia musical que envolvia, também, as regiões do Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul.

P1010780 P1010779Papete teve contato com Marcus Pererira através do ilustre e talentoso, Chico Maranhão que lhe apresentou a sensibilidade musical dos artistas da terra de Gonçalves Dias. Chico Marnhão também gravou seu primeiro vinil na Marcus Pereira.

P1010781 P1010782 P1010783 P1010784 P1010785Em 1980, Papete, gravou sua segunda bolacha-crioula, ainda na Marcus Pereira. Água de Coco. Também com a direção musical de Marcus Pereira e direção de Marcus Vinícius que regeu a primeira bolacha-crioula de Belchior: Mote e Glose, na Chantecler. Marcus Vinícius também gravou pela Marcus Pereira como o vinil Dédalus, entre outros.

P1010786 P1010787Já em 1981, Papete gravou Planador, desta feita na Continental contando com um time de músicos de arrepiar o universo das sonorizações. Capenga, Zé Gomes, Almir Sater, Carlão de Souza, Marcinho Werneck, Dudu Portes e Hilton Acioly.

E Papete continua potencializando as variáveis musicais como deslocamento dos estados de coisas do som- sedimentado promovido pela indústria de consumo alienante que visa só seu deus: o capital.

P1010788 P1010790BANDEIRA DE AÇO

P1010776“Se ela soubesse

Da areia que eu como

Ela nem perguntava

Se ela soubesse do pó da sereia

Ela nem se zangava

Vento na cumieira

Nem dizia palavra, palavra, palavra.

Mamãe, eu tô com uma vontade louca

De ver o dia sair pela boca

De ver Maria cair da janela

De ver besouro, ai, ai, besouro.

E ela nem se parece

Com Nhozinho Chico Soldado,

Que na subida da bandeira

Pensou que estava no mundo

E era fundo de quintal”.

Fresu: a ofensiva reacionária e o esforço de reconstrução da esquerda

Maio 28, 2016

Gianni Fresu é integrante do grupo de pesquisa "A cultura política no mundo do trabalho"

Entrevista com o marxista italiano Gianni Fresu, cujo livro Lênin leitor de Marx: dialética e determinismo na história do movimento operário será lançado, em junho, pela Fundação Maurício Grabois/Editora Anita Garibaldi

Por Marcos Aurélio da Silva e Rita Coitinho Gianni Fresu

É pouco conhecida, do público brasileiro, a trajetória do movimento comunista italiano. O PCI, que chegou a ser o maior partido comunista do Ocidente e desempenhou papel destacado na luta contra o fascismo e na consolidação democrática da Itália do pós-guerra, desintegrou-se completamente e hoje a luta dos comunistas italianos é para conseguir um mínimo de organização – o que se faz procurando colocar em marcha um movimento de reconstrução que unifique as forças em torno do Partido dos Comunistas Italianos (PdCI) e do Partido da Refundação Comunista (PRC). Antonio Gramsci, o maior expoente do antigo PCI, deixou uma obra inacabada, da qual, a maior parte em manuscritos e cartas, cuja interpretação e contribuição para o desenvolvimento do marxismo é reconhecida, mas ao mesmo tempo pouco compreendida. Muitos são os teóricos que reivindicam o pensamento de Gramsci, justificando as mais variadas interpretações, que vão do dogmatismo ao culturalismo e o liberalismo.

São interpretações incompletas, ou mesmo desonestas, afirma Gianni Fresu, jovem pesquisador e dirigente comunista italiano. Filiado por 22 anos na Refundação Comunista, onde desempenhou tarefas de dirigente regional e nacional, Fresu já publicou seis livros na Itália, entre eles Lenin lettore di Marx: dialettica e determinismo nella storia del movimento operaio, Il Diavolo Nell’Ampola. Antonio Gramsci, gli intellettuale e il partito e Eugenio Curiel: il lungo viaggio contro il fascimo. Seu percurso intelectual se desenvolveu em torno às disciplinas histórico-políticas, particularmente a história do movimento operário, com destaque para o pensamento de Antônio Gramsci. Gianni Fresu é integrante do grupo de pesquisa “A cultura política no mundo do trabalho”, coordenado por Marcos Del Roio, e a partir do qual realiza uma pesquisa sobre a propagação do pensamento de Gramsci no Brasil através do trabalho de Carlos Nelson Coutinho.

Pergunta – No seu livro Lenin, leitor de Marx, você afirma que a ideia de um Lenin dogmático e doutrinário é, na verdade, uma tese difundida pela ofensiva conservadora sucessiva à queda do Muro de Berlin. Por favor, fale um pouco sobre isso.

Gianni Fresu – Com o predomínio do modelo ocidental, após o fracasso do bloco socialista no Leste Europeu, a liquidação da herança teórica de Lenin passa a ser uma tarefa seguida com obstinação por grande parte do mundo político, acadêmico e cultural. Assim, entre a maioria dos historiadores do pensamento político, sociólogos, cientistas políticos, economistas ou simples jornalistas, prevalece a tendência de representar sumariamente Lenin como um “doutrinário” rígido e dogmático, que tinha a obsessão de abrigar a realidade numa camisa de força. O “drama do comunismo” seria, então, o resultado do fundamentalismo ideológico de Lenin e de sua pretensão de fazer nascer uma nova ordem a fórceps. O século 20 tem sido descrito como o século dos horrores, das ditaduras e, nessa leitura apocalíptica, Lenin é representado como a origem do pecado, o diabo responsável pelas desgraças e os lutos de um século ensanguentado, incluído aí o fascismo. Por isso, uma das suas elaborações mais conhecidas, o imperialismo, tem sido combatida com tanta violência. O sinal desta ofensiva não é neutro, porque nasce da exigência de cancelar a dupla validade do imperialismo, não só pelo que tem representado na obra de desmistificação das formas de autorrepresentação do real, mas sobretudo pelos instrumentos de luta fornecidos aos povos subalternos. E me refiro em especial à luta pela libertação do domínio colonial na Ásia, África e América Latina no século 20. Há noventa anos da morte de Lenin, a necessidade de retornar às suas premissas filosóficas e à sua atividade política surge, em primeiro lugar, pela exigência de se evitar esses atalhos e começar um trabalho de investigação o mais sério e rigoroso possível. Para além da liquidação e também das interpretações apologéticas, tal retorno é fundamental, se temos a ambição de compreender o fato revolucionário que marcou profundamente a história da humanidade no século XX. Embora tenha sido definido como um “doutrinário dogmático”, podemos identificar um fio vermelho na atividade teórica e política de Lenin, e este está exatamente na recusa metodológica das orientações mais esquemáticas e rígidas do determinismo marxista, predominantes no movimento socialista, na passagem do século 19 para o 20.

P: Uma de suas obras tratou do pensamento de Gramsci. Em que medida esta desconstrução de Lenin afeta também o pensamento político desse comunista italiano?

GF: Nas diferentes leituras sobre o intelectual da Sardenha se firmou uma tendência favorável à teoria da descontinuidade entre as reflexões de um primeiro Gramsci dirigente comunista, e de um outro, do período do cárcere. Uma ruptura entre a produção anterior e posterior a 1926: a primeira pertenceria ao Gramsci político, homem de partido, ou seja, um fanático comunista; a segunda ao Gramsci filósofo, maduro homem de cultura, e representaria a sua chegada à socialdemocracia. Assim, o conceito de hegemonia seria a prova de uma ruptura com Lenin. Esta tendência, originada de exigências mais políticas que científicas, se revelou sem rigor filológico, mostrando em pouco tempo todos os seus limites. Pelo contrário, a teoria de Lenin é uma premissa fundamental à definição da hegemonia. Assim, para ele, nos países capitalistas avançados é mais difícil fazer a revolução socialista, porque a sociedade burguesa tem instrumentos de controle e repressão sempre mais sofisticados, proporcionalmente ao próprio nível de desenvolvimento. Portanto, as massas se acham enquadradas nos esquemas da direção política, econômica e cultural da sociabilidade burguesa. Aqui está o eixo fundamental para Gramsci: nos países ocidentais o trabalho de preparação da revolução tinha que ser muito mais cuidadoso do que aquele no contexto russo. Diferentemente do que aconteceu na Rússia, no Ocidente o assalto ao poder estatal é inútil sem uma conquista hegemônica da sociedade civil. Este é o sentido das famosas notas sobre a “guerra de manobra” e “guerra de posição”. Segundo Gramsci, Lenin foi o primeiro a entender o problema, mas não teve como aprofundá-lo. Estas reflexões têm um valor muito importante para a ciência política porque abrem um campo de análise totalmente novo sobre as formas do poder político. No Caderno sete Gramsci escreveu: “No Oriente o Estado é tudo, a sociedade civil é primitiva e gelatinosa; no Ocidente, entre Estado e sociedade civil, havia uma justa relação, e em qualquer abalo do Estado se percebia logo uma robusta estrutura da sociedade civil. O Estado era só uma trincheira avançada atrás do qual se situava uma robusta cadeia de fortalezas e casamatas; em medida diversa de Estado a Estado, sem dúvida, mas exatamente assim, isto pedia uma cuidadosa investigação de caráter nacional” (1).

E estas são as palavras de Lenin: “Começar, sem preparação,uma revolução num país onde o capitalismo é desenvolvido, que tem dado, até o último homem, uma cultura e um método de organização democrático, é errado, é um absurdo” (2).

P: Essa mesma desconstrução afeta hoje a figura política de Palmiro Togliatti, o grande dirigente do Partido Comunista Italiano, depois da morte de Gramsci?

GF: Togliatti foi o grande responsável pela unidade das forças democráticas contra o fascismo no movimento comunista, seja no famoso 7º Congresso do Comintern, em 1935, seja no trabalho de construção unitária do Comitê de Libertação Nacional na Itália. Mas já o tinha sido antes, quando, em 1928, foi o único a valorizar a relação com Bukharin (já contrário à linha que igualava o fascismo à socialdemocracia); tanto assim que lhe foi tolhida a palavra. Ele transformou um pequeno partido de vanguarda no maior partido comunista do Ocidente, dando aos comunistas um papel central não só naquele sentido messiânico do “sol do amanhã”, mas na construção diária de uma democracia com as ambições de resolver as necessidades da igualdade tanto formal quanto substancial, isto é, não só a velha democracia liberal pré-fascista, mas um novo tipo de democracia social. Um quadro constitucional em que os trabalhadores teriam a tarefa de conseguir um papel de liderança no país através de um progressivo alargamento dos espaços da democracia social, política e econômica.

Se a Itália – apesar da “guerra fria” então em curso, e ao contrário dos outros dois países do Pacto Tripartite (Japão e Alemanha) – tinha uma Constituição nascida de um processo popular, e não emanada dos exércitos aliados, isso também se deve a ele. Togliatti foi o mais decisivo defensor da estreita união entre a perspectiva da futura democracia a construir e a imediata luta popular pela libertação nacional do fascismo, em um tempo em que muitas forças nacionais preferiam a imobilidade, esperando que os exércitos aliados libertassem a Itália. Por todas estas razões, 50 anos após sua morte, em um período de constante rebaixamento da Constituição de 1948, onde se busca voltar aos equilíbrios das antigas formas de representação nobiliárquicas, Palmiro Togliatti – tratado como “um cachorro morto” –, na realidade, ainda provoca muito medo. E por isso continua a ser objeto das mais absurdas e idiotas campanhas da imprensa, destinadas a representá-lo como o demônio do século 20 italiano. Ao contrário, quanto mais estamos diante do desastre da pulverizada esquerda italiana – não só desprovida de uma visão orgânica do mundo, como também mais prosaicamente de um projeto político mínimo – tanto mais a sua figura deveria ser estudada com um pouco de mais atenção, pois em seu legado político e teórico podemos encontrar muito de tudo aquilo que está hoje faltando.

Os ataques a Togliatti em geral são imputáveis a certas releituras revisionistas da obra de Gramsci, sobre cujas cinzas se realiza o enésimo processo contra a história do Partido Comunista Italiano. Há uma categoria de estudiosos especializados em pesquisas sobre a suposta conversão política, quando não também religiosa, de Antonio Gramsci aos paradigmas do liberalismo. A bibliografia tendente a apresentar um Gramsci atormentado e levado a um pouso liberal no final da vida, no limite um socialdemocrata, é ampla – e, embora de valor científico sensacionalista, muito apreciada. A isso se acrescentam outras teses extravagantes, sempre de corte sensacionalista e nunca minimamente fundadas em fontes confiáveis, particularmente estimuladas pelos “grandes” jornais italianos e programas de televisão de divulgação histórica. Resumidamente, elas dizem: 1) Togliatti foi o carcereiro cruel de Gramsci; 2) as irmãs de Schucht e Piero Sraffa (ou seja, esposa e irmã e um íntimo amigo de Gramsci) eram agentes da KGB contratadas por Stalin para vigiá-lo; 3) Mussolini e as prisões fascistas defenderam, e de fato salvaram, Gramsci de seu próprio partido. Se fosse fidedigno o quadro destas interpretações, teríamos um Gramsci não só permanentemente perdido e atormentado, mas um homem tendencialmente ingênuo, vítima inconsciente de agentes duplos, da pérfida maldade traiçoeira de todas as pessoas que lhe estavam mais próximas. Ora, todos esses argumentos giram em torno da releitura forçada (obviamente nunca provada) de correspondências necessariamente cifradas; de meras suposições subjetivas não apoiadasem qualquer documento; de leituras banais e parciais dos escritos de Gramsci; e sobre a manifesta falsificação de documentos de arquivos.

P: E Eugênio Curiel, intelectual que você estudou no livro Eugenio Curiel: a longa viagem contra o fascismo, que valores ele deixou na cultura comunista italiana?

GF: Embora seja a base da nossa Constituição republicana, poucas experiências históricas têm sido objeto de tamanha disputa como a luta partigiana ocorrida entre 1943 e 1945. Já no dia seguinte à redescoberta da democracia, multiplicaram-se as tentativas para redimensionar o papel da Resistência na história da libertação nacional e, em particular, o peso específico do seu componente principal. Nos interstícios das remoções forçadas, ou das necessidades ligeiras de reescrever a história, permaneceram experiências coletivas e personalidades individuais de certo relevo, mas destinadas ao esquecimento. Entre elas está o jovem intelectual Eugenio Curiel, uma figura multifacetada, por seus interesses e inclinações intelectuais, que sacrificou sua própria vida à causa da libertação, como muitos de sua geração. Um homem, morto sem ter completado 33 anos de idade, que, apesar de sua curta passagem, deixou um legado de reflexão, análise, propostas e experiências de política concreta, digno da maior atenção. Por exemplo, ele foi um dos primeiros a desenvolver com continuidade e profundidade a categoria de “democracia progressiva”, tão importante na política de Palmiro Togliatti. Curiel foi formado e amadureceu nos anos da máxima expansão do regime de Mussolini, uma fase ainda atravessada por um clima de inquietação em um número crescente de jovens, educados na doutrina do fascismo, mas profundamente insatisfeitos com suas realizações concretas.

Foi um intérprete e inspirador da “geração dos anos difíceis”, cumprindo um papel fundamental de ligação entre as necessidades dos jovens com aquelas dos antigos protagonistas da luta antifascista, em uma relação marcada pela solidariedade ativa e não pelo confronto de gerações. Não faltam exemplos na história de fraturas geracionais. No entanto, os resultados mais profundos em termos de renovação ocorreram quando entre as gerações antigas e novas se criou uma soldagem em torno das escolhas em jogo. A luta pela libertação do nazi-fascismo é um exemplo disso, até pelo irromper difuso de jovens crescidos no regime que, na clandestinidade, encontram um ponto de contato com os antigos protagonistas do antifascismo derrotados por Mussolini. Ele morreu na véspera da vitória final, num gélido fevereiro em Milão, sem ter podido ver as cores de uma primavera muita aguardada e para a qual tanto lutou: a libertação. Tendo visto e ajudado a acelerar o declínio da ditadura, ele não pôde apreciar o amanhecer de uma nova democracia, e talvez até mesmo neste particular esteja o fascínio de seu trágico destino, dramaticamente marcado pela violência do fascismo. Embora hoje quase completamente esquecido, Eugenio Curiel, em sua curta vida, deixou um sulco importante, tornando-se um ponto de referência para muitos jovens que entraram para o PCI a partir da Resistência e nas décadas após a libertação. Entre eles, Enrico Berlinguer, secretário da Federação da Juventude Comunista depois da Guerra, particularmente ativo na valorização e no estudo da obra de Curiel.

P: Como você vê as perspectivas do movimento comunista europeu na atualidade, depois da socialdemocratização por que passaram tantos partidos históricos, entre eles o antigo PCI?

GF: A situação da esquerda de classe na Europa é muito difícil, mas o é seguramente ainda mais na Itália. O país que ostentava o maior e mais enraizado partido comunista do Ocidente, agora tem a pior e mais fraca esquerda de alternativa do continente. A ofensiva reacionária que definitivamente está destruindo o que resta da civilização do trabalho na Itália impõe à esquerda um esforço para reconstruir em novas bases um campo político como o nosso, de tal modo devastado que faz lembrar uma praga de gafanhotos.

Na esquerda, pelo menos há dois anos, estão em curso reuniões e conferências a partir da qual surgiram documentos e propostas de reconstrução. Agora seria o caso de se deslocar da etapa das propostas para a organização, evitando deixá-las definhar em um debate que sempre ameaça a si mesmo. Pessoalmente, acredito que devemos agir em dois níveis: 1) colocar sob novas bases, em termos positivos e finalmente unitários, a questão comunista em nosso país, superando os problemas políticos de ineficiência causada pela diáspora e a pulverização da iniciativa ao longo das últimas duas décadas; 2) construir uma frente mais ampla de luta da esquerda contra as políticas sociais da União Europeia, no âmbito da qual os comunistas devem ter um papel pró-ativo e não de retaguarda. Os dois termos são essenciais e devem andar juntos, pois cada um deles tomado individualmente não seria suficiente: só a reconstrução da primeira, em si, não serviria, em uma fase em que se precisa primeiro aumentar as lutas sociais e, portanto, reconstruir uma teia de relações mesmo fora de seu campo estritamente ideológico; menos ainda serviria dissolver os comunistas em um novo sujeito de esquerda, genérico e sem adjetivos, transformando a sua presença em uma “tendência cultural”, porque inevitavelmente ainda se encontraria fraco e disperso, sofrendo a direção de outros, em vez de exercer a hegemonia.

Embora cada contexto seja o resultado de sua peculiaridade nacional e continental, na América Latina houve uma situação semelhante, se não pior, depois de décadas de derrotas, retrocessos e ditaduras sangrentas para os quais os comunistas pagaram um preço muito alto. Bem, na América Latina foi possível inverter a tendência e reconstruir um campo de classe em nível continental, capaz de pôr novamente na ordem do dia o tema do socialismo, colocando em sérios apuros a intromissão do imperialismo norte-americano na região, justamente porque se buscou manter intimamente unidos esses dois termos de uma mesma equação. Basta pensar no Foro de São Paulo nos últimos anos e nas muitas experiências na Bolívia, Venezuela, Chile e Argentina, onde as forças comunistas não se dissiparam, e ao mesmo tempo não se fecharam em suas fortalezas de certezas ideológicas. Mas esta é a mesma história dos comunistas na Itália, capaz de nos dar ideias de onde tirar inspiração. Diante do fascismo triunfante da década de 1930, os comunistas não escolheram nem dissolver-se em uma ampla frente unitária, nem seguir separadamente das outras forças antifascistas, mas trabalharam tenazmente para manter unidas as duas exigências: a autonomia dos comunistas; e a unidade com as outras forças antifascistas. Só assim os comunistas conseguiram exercer uma hegemonia mais ampla e assumir um papel positivo e pró-ativo, que permitiu um salto à frente, tanto no que diz respeito à força dos comunistas, quanto diante da luta antifascista. Por todas estas razões é que fui um dos signatários do apelo da “Associação para a reconstrução do Partido Comunista no quadro mais amplo da esquerda de classe.”

Notas

(1) GRAMSCI, A. Quaderni del carcere (Cardernos do Cárcere). Op. cit., p. 866.
(2) LENIN, V. I. Rapporto sulla guerra e sulla pace (Relatório sobre a guerra e sobre a paz),7 de março de 1918. III Congresso do PC(B)R. In: Opere complete, vol. XXVII. Op. cit., p. 85.

Entrevista publicada originalmente na revista Princípios – n° 134, março de 2015. Marcos Aurélio da Silva é professor dos cursos de graduação e pós-graduação em geografia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Rita Coitinho é mestra em sociologia e doutoranda em geografia humana na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Agenda cultural da periferia chega a sua centésima edição

Maio 28, 2016

Neste mês, a agenda comemora 9 anos de existência; 50 mil artistas tiveram seu trabalhos divulgados.

por Redação RBA

São Paulo – De olho no caldeirão de cultura sem visibilidade e divulgação, a ONG Ação Educativa organiza a Agenda Cultural da Periferia. Em sua centésima edição, o guia é parte da valorização da cultura popular urbana fora do centro expandido de São Paulo.

Em entrevista à repórter Michelle Gomes, da TVT,  o coordenador da Ação Educativa, Eleilson Leite, explica que o guia, criado em 2007, foi influenciado pelo hip-hop.”Sempre existiu cultura na periferia, mas com o hip-hop isso ficou mais evidente, porque ele afirmou o orgulho periférico, algo que era pejorativo antes. Isso animou muitos grupos como de teatro e sarau.”

Em maio, a agenda comemora nove anos de existência. Nesse período, um milhão de exemplares foram distribuídos e a programação da periferia chegou a 5 milhões de pessoas. Além disso, quase 10 mil eventos foram promovidos e 50 mil artistas tiveram seu trabalhos divulgados.

“Os guias da mídia comercial abrangem apenas o centro expandido e o mapa cultural de São Paulo vai além dele. Muitos artistas nunca foram divulgados, tanto que rapper Criolo apareceu pela primeira vez em 2007, na Agenda Cultural da Periferia”, afirma Leite.

Além da versão impressa, o guia também é divulgado na internet.

HUMORISTA GREGÓRIO DUVIVIER MAIS ARTISTAS, INTELECTUAIS E JURISTAS DE PORTUGAL REALIZAM ATO “PORTUGAL PELA DEMOCRACIA”

Maio 27, 2016

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A classe artística do Brasil, tirando a parte apelidada de artista, mas é totalmente alienada, tem mostrado que o artista é artista no momento da criação, porém quando sua obra encontra-se expressada em público, tornada objeto de vivência estética, ele é um cidadão. Um ser político. Não um representante de um partido, e sim um ser que atua em sociedade junto com seus demais semelhantes. Posto que o atuar é práxis e poiesis do existir originalmente.

Com essa vocação, os artistas-políticos do Brasil, muito antes da configuração do golpe perpetrado e executado pela maioria das aberrações do Congresso Nacional, parte do judiciário e as mídias sequeladas pró-capital internacional, já se encontravam produzindo shows com objetivo de defender a democracia. Todos os dias ocorriam shows em várias partes do Brasil, porque os artistas necessitam da liberdade que é o corpo maior da democracia, para realização e expressão de suas criações.  

Agora, com a consumação do golpe, por enquanto, os artistas multiplicaram seus shows em defesa da democracia. São encenações de peças teatrais, exposições de fotografias, cantorias, hip-hop, hap, rock, samba, cinema, poesia, dança, conferências, debates, etc. Mas, não se reduz apenas aos palcos, praças e ruas do Brasil. Estão ocorrendo também manifestações artistas fora do país, como a que vem ocorrendo em Portugal no Palácio do Bolhão.

c7bcb299-1b06-4b3a-8fe9-686ef19f530fÉ lá, no Palácio do Bolhão, que o humorista e jornalista Gregório Duvivier está se apresentando no ato Portugal pela Democracia. Juntamente com o humorista também se apresentam portugueses, como José Soeiro, sociólogo político, António Capelo, ator, Capicua, cantora, Miguel Guedes, músico e ator, Catarina Martins, atriz e política, Rui David, cantor, Jorge Louraço, dramaturgo, Gonçalves Amorim, ator, Mário Moutinho, ator e produtor e Pedro Barcelar Vasconcelos, constitucionalista.

A confirmação que a arte é política. Como todo ato humano em sociedade.

“A MINHA LIBERDADE CUSTOU SANGUE”, DE GERMANO, RIBEIRO, TIRONE E SZEGERI SAMBA CONTRA O GOLPE TEM LECI, NELSON SARGENTO, MOACYR LUZ, NEI LOPES, CARLINHOS VEGUEIROS E OUTROS

Maio 26, 2016

image_largeO Brasil é composto por um povo de inesgotável capacidade criativa, assim como uma inesgotável capacidade de participação quando é provocado por atos irracionais e violentos. Sua capacidade criativa mais sua capacidade de participação se transforma, quando provocada, em um imbatível corpo de luta democrático. Uma disposição contagiante em que envolve todos os quadrantes expressivos de luta pela liberdade.

O golpe provocado pelas forças mais irracionais e brutas sintetizadas pela maioria do Congresso Nacional, as mídias capitalistas e entreguistas e parte do judiciário, serviu de excitação a essas capacidades de luta pela liberdade do povo brasileiro. São centenas – e por que não milhares? – de produções criativas que afloraram no país depois que foi arquitetado o golpe que afastou, por um breve momento, a presidenta Dilma Vana Rousseff, eleita com mais de 54 milhões de votos.

Todos os conteúdos, formas e expressões dessas produções criativas apresentam dois fatores contagiantes: a repulsa pelo golpista-maior: Temer, e a rejeição ao ato antidemocrático que exibe as partes mais sujas de seus executores. Por isso, total repulsa a um desgoverno ilegítimo formado por crápulas com pendências nas Justiças e na recente história do Brasil como grandes e soberbos canalhas.

Foi observando esse quadro pútrido e sua consequência no dia 17 de abril, quando os sórdidos parlamentares vomitaram suas entranhas pútridas na cara dos telespectadores que acreditavam neles e nos que não acreditavam, que os músicos Douglas Germano, Bruno Ribeiro, Fernando Szegeri e Arthur Tirone compuseram o samba A Minha Liberdade Custou Sangue que foi interpretado por um grupo de cantores e cantoras e divulgado pela página Roda Mundo, e ainda conta com as participações dos artistas Nelson Sargento, no auge de seus 92 anos, como Leci Brandão, Moacyr Luz, Carlinhos vergueiros, Hermínio Belo de Carvalho, Wilson Moreira, Wanderley Monteiro, Luiz Antonio Simas, Nei Lopes, Eduardo Galloti, Trajano, Didu Nogueira e Seu Dadinho.

Ouça e veja o vídeo e leia a entrevista com Bruno Ribeiro realizada por Gabriel Valery da Rede Brasil Atual. 

Como foi o processo de composição do samba?

O Douglas Germano, compositor reconhecido, teve a ideia de fazer essa ação entre amigos. Fez a primeira parte e passou para nós. Na ocasião eu estava em São Paulo. Foi na véspera da votação do processo do impeachment na Câmara dos Deputados. Naquela mesma noite ele já tinha pensado na melodia e, assim que acabou a votação, o Douglas pediu para continuarmos. Fomos compondo, cada um um trecho e no dia seguinte estava pronto.

A música foi feita no 17 de abril, e acabou tendo tom profético. A letra é extremamente atual.

Sim, tivemos essa preocupação. Quando ficou pronta a música, fizemos pensando que o golpe viria, já que não seria fácil reverter. Não divulgamos antes, inclusive por isso, para que ele não perdesse essa característica atemporal. Não queríamos limitar o samba como se ele tivesse sido feito como protesto em relação à votação dos deputados, mas que ele se tornasse um hino da luta que viria, após o golpe consumado.

Como surgiu a ideia de reunir tantos nomes para fazer um clipe?

A ideia surgiu no dia seguinte. Quando ficou pronta a música, no dia seguinte começamos a mostrar para os amigos. Na ocasião, estávamos com a produtora Ana Petta, que fez junto com o Paulo Celestino. Eles foram produtores e diretores. Já tinham experiência em outros vídeos de bastante sucesso e eles sugeriram, dizendo que a música conseguia traduzir o sentimento da população em relação ao golpe. Então veio a ideia do esforço coletivo e todos adoramos. Começamos a correr contra o tempo.

Temos contatos com alguns sambistas, eu fui jornalista, escrevia sobre música durante dez anos e também componho. Então tenho contato com gente como o Moacir Luz, também viabilizamos o Douglas Moreira, o Nelson Sargento, a Leci Brandão, enfim, conseguimos explicar a proposta e eles também pensam como nós. Então, compraram a ideia, gostaram da mensagem.

Achamos simbólico, inclusive, começar com o Nelson Sargento, que está com 91 anos. Ele tem uma trajetória no samba que sempre teve uma posição de esquerda, democrática. E por ele ser o mais velho, pensamos que ele deveria estar. Então fizemos este esforço e ainda bem que deu certo.

Qual a força e a importância do samba para amplificar a voz da resistência?

O samba é a grande voz da população brasileira. Foi ao longo da história um meio para que a população pudesse se expressar. Acho fundamental que o samba entre nesta luta pela democracia, justamente pelo peso simbólico que ele tem dentro da cultura. Também porque ele tem um alcance muito grande. Ele comunica com muita gente. Da mesma forma como ele sempre esteve presente. Na ditadura militar, por exemplo, ele foi um centro de resistência. Cartola, Dona Zica, Paulinho da Viola, o próprio Nei Lopes, que aparece no nosso vídeo. Eram todos sambistas engajados com posicionamento crítico. O samba não poderia ficar de fora desta vez. A adesão destes sambistas representativos, que estão no vídeo, da uma legitimidade que queríamos. Eles assinaram embaixo, então, o samba também está engajado na luta a partir destes mestres.

Em tempos difíceis de nossa história, a música teve expoentes, como na ditadura. Agora, o golpe pode se tornar tema e motivar uma linhagem de composições?

Se essa situação se prolongar, a tendência, não só no samba, é que no meio artístico e cultural, tenhamos uma produção de canções, poesia, teatro e cinema que denunciem essa situação. Isso não é algo programado mas acontece naturalmente, porque o artista tem esta inquietação, esse posicionamento crítico nos momentos decisivos, principalmente na política. Essas situações aguçam o desejo de dizer alguma coisa. Tenho sentido já que os artistas estão começando a produzir e a tendência é que apareçam mais composições que façam esta denuncia.

Como foi o processo de composição do samba?

O Douglas Germano, compositor reconhecido, teve a ideia de fazer essa ação entre amigos. Fez a primeira parte e passou para nós. Na ocasião eu estava em São Paulo. Foi na véspera da votação do processo do impeachment na Câmara dos Deputados. Naquela mesma noite ele já tinha pensado na melodia e, assim que acabou a votação, o Douglas pediu para continuarmos. Fomos compondo, cada um um trecho e no dia seguinte estava pronto.

A música foi feita no 17 de abril, e acabou tendo tom profético. A letra é extremamente atual.

Sim, tivemos essa preocupação. Quando ficou pronta a música, fizemos pensando que o golpe viria, já que não seria fácil reverter. Não divulgamos antes, inclusive por isso, para que ele não perdesse essa característica atemporal. Não queríamos limitar o samba como se ele tivesse sido feito como protesto em relação à votação dos deputados, mas que ele se tornasse um hino da luta que viria, após o golpe consumado.

Como surgiu a ideia de reunir tantos nomes para fazer um clipe?

A ideia surgiu no dia seguinte. Quando ficou pronta a música, no dia seguinte começamos a mostrar para os amigos. Na ocasião, estávamos com a produtora Ana Petta, que fez junto com o Paulo Celestino. Eles foram produtores e diretores. Já tinham experiência em outros vídeos de bastante sucesso e eles sugeriram, dizendo que a música conseguia traduzir o sentimento da população em relação ao golpe. Então veio a ideia do esforço coletivo e todos adoramos. Começamos a correr contra o tempo.

Temos contatos com alguns sambistas, eu fui jornalista, escrevia sobre música durante dez anos e também componho. Então tenho contato com gente como o Moacir Luz, também viabilizamos o Douglas Moreira, o Nelson Sargento, a Leci Brandão, enfim, conseguimos explicar a proposta e eles também pensam como nós. Então, compraram a ideia, gostaram da mensagem.

Achamos simbólico, inclusive, começar com o Nelson Sargento, que está com 91 anos. Ele tem uma trajetória no samba que sempre teve uma posição de esquerda, democrática. E por ele ser o mais velho, pensamos que ele deveria estar. Então fizemos este esforço e ainda bem que deu certo.

Qual a força e a importância do samba para amplificar a voz da resistência?

O samba é a grande voz da população brasileira. Foi ao longo da história um meio para que a população pudesse se expressar. Acho fundamental que o samba entre nesta luta pela democracia, justamente pelo peso simbólico que ele tem dentro da cultura. Também porque ele tem um alcance muito grande. Ele comunica com muita gente. Da mesma forma como ele sempre esteve presente. Na ditadura militar, por exemplo, ele foi um centro de resistência. Cartola, Dona Zica, Paulinho da Viola, o próprio Nei Lopes, que aparece no nosso vídeo. Eram todos sambistas engajados com posicionamento crítico. O samba não poderia ficar de fora desta vez. A adesão destes sambistas representativos, que estão no vídeo, da uma legitimidade que queríamos. Eles assinaram embaixo, então, o samba também está engajado na luta a partir destes mestres.

Em tempos difíceis de nossa história, a música teve expoentes, como na ditadura. Agora, o golpe pode se tornar tema e motivar uma linhagem de composições?

Se essa situação se prolongar, a tendência, não só no samba, é que no meio artístico e cultural, tenhamos uma produção de canções, poesia, teatro e cinema que denunciem essa situação. Isso não é algo programado mas acontece naturalmente, porque o artista tem esta inquietação, esse posicionamento crítico nos momentos decisivos, principalmente na política. Essas situações aguçam o desejo de dizer alguma coisa. Tenho sentido já que os artistas estão começando a produzir e a tendência é que apareçam mais composições que façam esta denuncia.

A LITERATURA VARIANTE DO POETA E ESCRITOR JOE MAIA QUE DESLOCA APOLÍNEAS LINHAS PELAS RUAS DE MANAUS

Maio 25, 2016

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Tudo que escapa do estabelecido, determinado, modelado, serializado e registrado, escapa em si mesmo como variante desses estados de coisas que se querem proprietários e dirigentes de tudo para controlá-lo. Toda variante, ao escapar desse estado de coisa, segrega novos devires-signos, que além de abalar o que se encontra estabelecido como valor-verdade, deixa rastros estéticos-inquietantes.

P1010768 P1010766 P1010765 P1010769Essa literatura variante, como outras artes-variantes, é classificada, erradamente, pelo sistema de captura do capitalismo duplamente como marginal. Uma como uma literatura que não pode circular no centro da literatura capitalizada dominada pelas editoras da ‘literatura’ comercial. A ‘literatura’ do escritor de encomenda que impede, como afirma o filósofo Deleuze, de emergir um Kafka, um D. Laurence, visto ser uma ‘literatura’ cuja estrutura linguística encontra-se capturada pela semiótica capitalística sobrecodificadora. Outra como literatura marginal, porque é uma literatura que reflete a classe social do escritor: um marginal. Alguém que não nada tem a oferecer ao sistema dominante. Aí sua marginalidade. Ou: o que se encontra na margem aí se encontra porque foi expurgado. Não serve para ‘enriquecer’ a sociedade da abundância como pede a sociedade de consumo capitalístico.

A literatura do escritor e poeta Joe Maia, se movimenta nesse segundo enunciado excludente do consumo capitalístico. O que é muito bom, já que se trata de uma literatura variante. A literatura que cria variável no muro da literatura cristalizada como mercadoria para uso de deleite-imóvel. Enquanto a literatura variante deleita, mas produz trepidação.

Esse Esquizofia apresenta duas criações de Joe Maia. Relatos de Um Poeta – Crônica e outros Poemas, publicado esse ano, e um zine, Tarrafeando Palavras – Alegoria de Cotidiano…, publicado em 2014. Além de apresentarmos o próprio escrito se auto-apresentando, também mostramos um de seus poemas. O trabalho é uma produção independente editado pela Coleção de Rua com direção de Jeovane Pereira com a revisão do próprio autor e o professor Márcio Santana. E ainda conta com as ilustrações de Klaryson Gurgel e Davidson Mourad.

P1010770 P1010771 P1010772 (2) Em Manaus, a literatura variante é bem expressiva. Pode-se encontrar obras de autores como Márcio Santana, Jeovane, Pereira, Marcos Nei, entre tantos. Ela, em função de sua singularidade, circula através de seus próprios autores que oferecem suas criações em bares, feiras, mercados, em portas de funerárias, supermercados, escolas, universidades, fábricas, todos os lugares onde se encontram o leitor. Agora, como os movimentos ecléticos-políticos, “Fora Temer”, os escritores participam das manifestações e aproveitam para oferecerem sua obras. Uma grande sacada, posto que a literatura é política.      

VIVA O VINIL! JORGE MAUTNER – BOMBA DE ESTRELAS

Maio 24, 2016

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Presta atenção, vinilesquizofílico, estamos no ano de 1981 entrando no Estúdio da WEA para vivenciar a gravação da bolacha-crioula muito desconcertante do violinista, ou rabequeiro, Jorge Mautner, verdadeira joia-rara, relíquia.

P1010759Olha ali! Tá vendo? Seus parceiros da bolacha-crioula Pepeu Gomes, Amelinha, Caetano, Zé Ramalho, Gil, Robertinho de Recife e Moraes Moreira. Morais? Pois é! Uma porrada musical -vinil. A foto de contracapa é de Paulo Vasconcellos, Capa de Glauco Rodrigues e coordenação de capa de Ruth Freihof, com a produção de Chico Neves e Liminha.

Uma observada na letra, Vida Cotidiana, de Nelson Jacobina e Mautner.

P1010760 P1010762“A uma você fuma,

As duas, vai pras ruas

E as três, telefona pra Ines

(ALO, benzinho, vem correndo que eu

 GUARDO uma surpresa PRA VOCÊ)

As quatro faz cena de teatro

As cinco, fecha a porta com o trinco

 E as seis, o problema é de vocês

(eu falei pra você não FALAR nada pra ELE

nem pra Ela, agora o problema

é todo seu, resolve, resolve, quero vê!)

As sete você vira travesti, vedete

As oito você fica um xuxu biscoito

As nove você ama e se comove

As dez, eu lhe faço cafunés com os pés

As onze você faz cara de pau, olhos de bronze

E as doze você faz aquela pode

VOCÊ QUER UMA ROSA OU UMA ROSE?

EU VOU IMITAR UM AVIÃO!

VOAM PARA O ORIENTE

Todas as sombras

VOAM E SE DEITAM NO POENTE

Todas as pombas.”

LADO – A

A Força Secreta Daquela Alegria/Namoro Astral/Cidadão-Cidadã/Namoro de Bicicleta/Samba Japonês.

P1010764LADO – B

Encantador de Serpentes/Tá Na Cara/Vida Cotidiana/Negros Blues/Bomba de Estrelas.

P1010763                                                    

VIVA O VINIL!

‘Joana Princesa’: literatura infantojuvenil contra a transfobia

Maio 20, 2016

Livro de Janaína Leslão é o primeiro conto de fadas brasileiro que narra a história de uma princesa transgênero. Obra será lançada neste sábado, no Museu da Diversidade, em São Paulo.

por Xandra Stefanel, especial para RBA

Quando nasceu, a pequena princesa de IlhaAnã foi chamada de João. Seus pais acharam que ela era um menino, já que trazia no alto da testa uma marca vermelha e não uma marrom nas palmas das mãos, como traziam todas as mulheres de lá. Acontece que o tempo foi passando e, conforme João crescia, mais pedia que fosse chamado de Joana. Em seu aniversário de sete anos, antes do tradicional passeio pelo reino, seus pais ouviram, atônitos, seu pedido de aniversário: “De presente de aniversário, quero que me chamem de Joana para sempre. Eu sou uma menina!” Esta é a história Joana Princesa(Metanoia Editora, R$ 35), livro infantojuvenil de Janaína Leitão, que será lançado neste sábado (28) a partir das 13h, no Museu da Diversidade, em São Paulo.

Janaína, que é psicóloga e trabalhou questões ligadas à sexualidade, gênero e prevenção de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) com adolescentes, também é autora de A Princesa e a Costureira, um conto de fadas sobre o amor que nasce entre duas mulheres de mundos diferentes. “O referencial de final feliz que eles (os adolescentes) tinham ainda era o dos contos de fadas. Quando conversávamos sobre questões de sexualidade e gênero de pessoas trans ou do amor entre dois homens ou duas mulheres, não tinham nenhum referencial na literatura, muito menos nos contos de fadas. Só pelo noticiário de jornal, que mostra uma lâmpada na cara, uma travesti esfaqueada. Isso me despertou a vontade de escrever. Fui pesquisar e não tinha nada nesse gênero de literatura, com essas temáticas trabalhadas em uma linguagem mais leve e acessível”, afirma a autora.

Com ilustrações de Marina Tranquilin, o livro conta toda a trajetória da pequena Joana, que sempre quis ser “uma garota como as outras” e, para realizar seu sonho, parte em uma grande aventura em busca do Arco-Íris Mágico que, segundo a lenda, pode transformar rapazes em garotas e vice e versa. A obra traz personagens inspirados em figuras históricas: o nome da protagonista faz referência à guerreira Joana d’Arc, que liderou um exército de soldados franceses durante a Guerra dos Cem Anos; seu amigo Julio foi inspirado no historiador Jules Michelet, que popularizou a história da heroína; o cruel professor de natação, Pedro, é uma referência ao bispo Pierre Cauchon, que presidiu o julgamento de Joana d’Arc pela Inquisição.

Assim como A Princesa e a Costureira, o novo livro de Janaína Leslão é uma marca importante para a literatura infantojuvenil brasileira, já que é o primeiro conto de fadas nacional que traz uma personagem transgênero. Joana Princesa também vem para provar que o famoso final “e viveram felizes para sempre” deve englobar toda a diversidade que existe na sociedade, independentemente de raça, situação social, orientação sexual ou identidade de gênero.

“Cada um no seu espaço e à sua maneira pode contribuir para uma sociedade menos intolerante. Acho que este livro é um tipo de contribuição. Eu espero que isso faça diferença na vida de algumas pessoas. É óbvio que eu não vou mudar o mundo com os livros que eu escrevo, mas espero que eles façam sentido na vida de algumas pessoas e que também acolham algumas pessoas”, declara a autora.

O lançamento no Museu da Diversidade será realizado poucas horas antes da Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais, que será realizada na tarde de 28 de maio, em São Paulo. Trata-se de uma espécie de “esquenta literário” para a Parada do Orgulho LGBT, que ocorre no domingo (29), na capital paulista. O evento chamado “Lançamentos em favor da diversidade sexual” apresenta outros dois livros: Entre Páginas, de Lis Selwyn, e Sam & Jessy: Uma Verdadeira História de Amor, de Priscila Cruz. O evento contará com sessão de autógrafos e bate-papo com as autoras.

Lançamentos em favor da diversidade sexual
Quando:
28 de maio, das 13h às 19h
Onde: Museu da Diversidade Sexual
Rua do Arouche, 24, República, São Paulo (SP)
Quanto: grátis
Mais informações: (11) 3882-8080

Joana Princesa
Autora:
Janaína Leslão
Editora: Metanoia
Páginas: 50
Ano: 2016
Preço: R$ 35

Mobilização na cultura continua mesmo que Temer volte atrás na extinção do MinC

Maio 19, 2016

funarte pará.jpg

Funarte tem 12 sedes ocupadas no país, mas o protesto se tornou uma trincheira contra o golpe. Mesmo assim, o presidente do Senado, Renan Calheiros, defende que governo Temer reveja a decisão.

por Redação RBA

São Paulo – O presidente interino, Michel Temer, pode voltar atrás na extinção do Ministério da Cultura (MinC), mas isso não deverá dissipar a mobilização em defesa da área, que hoje (18) conta com 12 sedes da Funarte no país ocupadas. Além do Rio e São Paulo, as sedes de Minas Gerais, Paraná, Mato Grosso, Bahia, Sergipe, Pará, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Distrito Federal e Ceará também foram ocupadas entre segunda-feira (16) e ontem.

De acordo com a cantora e compositora Ligiana Costa, integrante da mobilização Ocupa Funarte SP, o protesto já está voltado contra o golpe e vai prosseguir. “Eu sinto que os artistas resistirão ao golpe, com ou sem o Ministério da Cultura”, afirmou. “Mesmo que volte o MinC, até com o Juca (Juca Ferreira, ministro da Cultura até o afastamento de Dilma Rousseff), o golpe já aconteceu. Então, esse é o ponto central. Por isso não colocamos no nosso manifesto a palavra ‘MinC’. Não é uma ocupação pedindo a permanência do MinC, mas contra o governo golpista”, disse Ligiana.

A ideia da volta do MinC parece tomar corpo em Brasília. Hoje o presidente do Senado, Renan Calheiros, voltou a defender a recriação da pasta, cuja extinção considerou um erro. “O Ministério da Cultura não vai quebrar o Brasil, mas sua extinção quebrará a nação porque coloniza a sociedade”, afirmou. O senador disse que, em conversa com Temer, sugeriu que o assunto poderia ser resolvido por uma emenda na medida provisória da reforma administrativa (MP 726/16), enviada na última sexta-feira (13) pelo Planalto ao Congresso.

A informação de que Temer poderia rever a extinção também chegou ontem ao protesto realizado no Teatro Oficina. A atriz Camila Mota, ao afirmar que o governo Temer já está considerando a possibilidade de recriação do MinC, disse: “Não tem conversa, é fora, Temer”, afirmou.

“Vamos fazer da cultura uma trincheira para tirar esse governo”, disse também no ato no Oficina o secretário municipal de Cultura de São Paulo, Nabil Bonduki. “Vamos fazer cada vez mais mobilização para mostrar que ninguém aceita esse governo”, defendeu. No mesmo evento, o deputado estadual João Paulo Rillo (PT), que atuou na ocupação da Assembleia Legislativa, ao lado dos secundaristas, há duas semanas, considerou que a mobilização na cultura representa o ressurgimento das esquerda, o que torna a intenção do governo de Temer dissipar os protestos ainda mais complicada. “A nova esquerda surge da cultura – mobilização é aqui, neste terreiro, o terreiro da cultura”, afirmou.

“A gente sente que a primeira atitude deste governo foi acabar com o MinC, porque esse ministério tem um papel fundamental, de levar alento para quem não tem nada”, disse a líder do Movimento de Sem Teto do Centro e dirigente da Frente de Luta por Moradia (FLM) Carmen Silva, ao referir-se ao benefício oferecido pelas produções culturais para a sociedade.