Archive for Julho, 2017

DOCUMENTÁRIO NA ALEMANHA: EVIDÊNCIAS DE CUMPLICIDADE DA VOLKS COM A REPRESSÃO

Julho 27, 2017
Por Vitor Nuzzi, da Rede Brasil Atual.

    Volks criou divisão de segurança industrial na fábrica de São Bernardo do Campo cinco anos antes do golpe de 1964

São Paulo – Um documentário exibido no início da semana na TV pública alemã expõe, mais que a proximidade, a colaboração da Volkswagen do Brasil com a ditadura instalada a partir de 1964. O caso já é objeto de investigação, desde 2015, por parte do Ministério Público.O filme, de 44 minutos, traz mais detalhes sobre a participação da montadora, centrando sua narrativa no caso de um operário preso em 1972 dentro da fábrica de São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Um diretor chega a negar a existência da própria ditadura, que só existiria para “esquerdistas”. Outras empresas podem passar por investigações, segundo pesquisadores que se dedicam a analisar o período sob esse viés.

Komplizen? (Cúmplices?– A Volkswagen e a ditadura militar brasileira, filme de 44 minutos dirigido pelos jornalistas Stefanie Dodt e Thomas Aders, conta a história de Lúcio Bellentani, militante do PCB, preso e torturado na própria fábrica por policiais, com a anuência da empresa, conforme os relatos, e posteriormente encarcerado no Dops paulista durante oito meses.

Esse e outros episódios teriam chegado ao conhecimento da matriz, na Alemanha. A empresa afirma estar interessada esclarecer os fatos, mas o documentário aponta sinais de de resistência por parte da Volks. O caso também foi apresentado em programas de rádio e no jornal Süddeutsche Zeitung, sediado em Munique e um dos principais do país, com tiragem em torno de 400 mil exemplares diários.

Manfred Grieger, um historiador ligado à empresa, chegou a vir ao Brasil em 2015 para conversar com ex-funcionários e com o Ministério Público. Chegou a dar declarações no sentido de que a montadora deveria buscar uma reparação, desculpando-se pelo episódio e documentando sua colaboração com a ditadura. Mas o filme conta um desfecho surpreendente: Grieger saiu do grupo em outubro do ano passado. Segundo os jornalistas, a outra opção era fazer somente uma pesquisa autorizada.

Eles tentaram entrevistá-lo para o documentário, mas havia termos de confidencialidade na rescisão contratual. Segundo Hans-Gerd Bode, porta-voz da companhia, as circunstâncias da saída do historiador não são “relevantes para o público”.

RBADocumentário
Documentário exibido pela TV alemã fala em ‘subserviência’ de operários brasileiros

Cooperação regular

A Volks contratou, então, outro historiador, Christopher Kopper, da Universidade de Bielefeld, na Alemanha, para a finalidade específica de pesquisar a relação entre Volks e ditadura. “Aparentemente inofensivo” a princípio, como afirmam os documentaristas, Kopper também veio ao Brasil, no início deste ano, e em depoimento para o filme afirmou que “certamente” aconselharia a empresa a pedir desculpas públicas. 

“Existia uma cooperação regular entre a segurança industrial da Volkswagen e as forças policiais do regime”, afirma Kopper. A divisão de segurança industrial, vinculada à área de recursos humanos, foi criada pela empresa assim que se instalou no país. De 1969 a 1991, esse setor foi comandado pelo coronel do Exército Adhemar Rudge, que já prestou depoimento ao Ministério Público.

O documentário resgata imagens publicitárias e dos primeiros tempos da Volks no Brasil – a fábrica do ABC, a primeira fora da Alemanha, é de 1959. Traz uma cena rara, com o primeiro presidente da empresa aqui, Friedrich-Wilhelm Schultz Wenk, que, à mesa com outra pessoa, comenta: “É espantoso como os brasileiros são tão subservientes”.

Os jornalistas entrevistam Carl Hahn, ex-presidente do grupo Volkswagen. “A principal questão é: será que não há coisas mais importantes com que nos preocuparmos do que o passado no Brasil?”, questiona. Mais adiante, afirma, sobre o golpe: “Não me lembro de chorarmos pelo desaparecimento da democracia (…) Teríamos mudado alguma coisa?”.

“Nunca tivemos ditadura”

Segundo ele, “nós fabricamos carros, independentemente do governo”. Questões políticas ficariam restritas as pessoas do próprio país. “Mas não éramos comunistas, tenho de confessar”, acrescenta o executivo, hoje com 91 anos. “Acho que no Brasil podem olhar para essas coisas. Na Alemanha temos de olhar para o futuro.” Na parte final do documentário, diante de documentos levados pelos jornalistas, ele parece fazer uma ressalva: “Nunca nos passou pela cabeça que em nossas fábricas, direta ou indiretamente, os direitos humanos fossem prejudicados ou desrespeitados”.

Outro depoimento importante é o do Jacy Mendonça, ex-diretor de Recursos Humanos da Volks, onde entrou em 1969, na área jurídica. Conforme dizem os jornalistas responsáveis pelo documentário, ele tem sua própria narrativa histórica. “Nós nunca tivemos ditadura no Brasil”, afirma Jacy. “Quem se queixa de ditadura é quem sofreu as consequências. Eram os esquerdistas que queriam bagunçar o país.” 

Assim, o executivo, também ex-presidente da Anfavea, a associaçõ das montadoras, garante que mente quem fala sobre prisão dentro da fábrica. “De jeito nenhum”, reage. “Nunca entraram (policiais).”

Preso no chão da fábrica

O ferramenteiro Lúcio Antonio Bellentani, à época com 27 anos, conta que foi preso às 23h30, na linha de produção. Um agente encostou uma metralhadora em suas costas. Havia outros policiais, observados por seguranças da Volks. Começou a apanhar na fábrica mesmo: “Soco, tapa…” Foi levado em uma Veraneio azul até o Dops, que hoje abriga o Memorial da Resistência, onde passou pelo pau de arara e levou choques, entre outras torturas. O filme traz relatos de outros ex-funcionários, que afirmam também terem apanhado e permanecido em cárcere privado.

Fichado com o número 5.171, Bellentani acusa a empresa de ser, ainda que indiretamente, responsável por prisões e torturas.  “Não adianta ficar jogando debaixo do tapete (…) Não estou atrás de indenização financeira. O que eu quero é um posicionamento de reconhecimento da verdade.”

O porta-voz diz que se trata de um assunto considerado importante pela empresa. “Faz parte da nossa história e temos que saber tudo o que estiver ligado a nós, sobre o que e onde aconteceu”, afirma Hans-Gerd Bode, para quem “há percepções diferentes sobre o que aconteceu” e isso precisa ser comprovado por meio de fatos. Advogado da companhia no Brasil, Rogério Varga informa que a Volks já esteve no Ministério Público e “de forma proativa ofertou uma quantidade enorme de documentos para que os procuradores possam analisar”. 

O pesquisador Guaracy Mingardi, trabalhando para o MP, obteve documentos como boletins da Volks que foram parar no Dops, com nomes de pessoas que participaram de greves. Essas listas também eram compartilhadas com outras empresas, fazendo com que aquele trabalhador ficasse marcado e com dificuldade para arranjar outro emprego.

“Os documentos apresentados no filme e o texto da representação (no MP) são frutos dos trabalhos iniciados na Comissão Nacional da Verdade e continuados pelo IIEP (Intercâmbio, Informações, Estudos e Pesquisas) para o Fórum dos Trabalhadores e Trabalhadoras por Verdade, Justiça e Reparação”, lembra o responsável pelo projeto IIEP, Sebastião Neto. O inquérito no MP foi aberto a pedido de 10 centrais sindicais, juristas e ativistas. O caso Volks não é único, destaca. “Outras representações virão.” 

:: Clique aqui e assista ao documentário, com legendas em português

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ANGELA DAVIS NA BAHIA: “MULHERES NEGRAS SÃO A ESPERANÇA DA LIBERDADE”

Julho 26, 2017

Redação da Rede Brasil Atual.

São Paulo – A filósofa e ativista norte-americana Angela Davis, símbolo da luta pelos direitos civis da população negra, esteve ontem (25) em Salvador, na Universidade Federal da Bahia (UFBA), para falar da luta das mulheres negras, em um momento “difícil” no qual o mundo assiste a uma guinada à direita, com a ascensão de Donald Trump nos Estados Unidos e o “golpe antidemocrático” ocorrido no Brasil. Para um auditório lotado, a professora do Departamento de Estudos Feministas da Universidade da Califórnia afirmou que, após a derrubada de Dilma Rousseff, o movimento das mulheres negras criou “a melhor esperança para o futuro do Brasil”.

A vinda de Angela Davis ao Brasil faz parte das celebrações do Dia da Mulher Negra Latino-Caribenha, comemorado nessa terça-feira, com atos em diversas partes do país, e também do Julho da Pretas, que marca o mês com discussões e palestras sobre a identidade negra. Ela destacou a longa história de luta pela liberdade e a herança cultural e religiosa das mulheres negras na Bahia, citando, como exemplo, a Irmandade da Boa Morte, uma confraria de mulheres negras que existe desde o século 19. 

Em palestra intitulada “Atravessando o tempo e construindo o futuro da luta contra o racismo”, ela afirmou ser “indescritível” a sensação de viver num país liderado por Trump. “Nós resistiremos. Em todos os dias da administração Trump, resistiremos. Resistiremos ao racismo, à exploração capitalista, ao hetero-patriarcado, à islamofobia e ao preconceito contra pessoas com deficiência. Defenderemos o meio ambiente dos ataques insistentes e predatórios do capital.”

Angela também fez menção ao movimento Black Lives Matter (As Vidas dos Negros Importam), que, nos Estados Unidos, vem ganhando destaque nos últimos anos pela luta contra a violência policial que atinge mais incisiva e cotidianamente a população negra.

JUH ALMEIDAdavis na ufba
Auditório lotado na UFBA

“Nós sabemos que as transformações históricas sempre começam pelas pessoas. Essa é a mensagem do movimento Black Lives Matter. Quando as vidas negras começarem a realmente importar, significara que todas a vidas têm importância. Quando a vida das mulheres negras importar, o mundo será transformado e saberemos, com certeza, que todas as vidas importam”, destacou a ativista.

Angela Davis também denunciou a política de encarceramento em massa, que também se desdobra em racismo institucional, já que afeta desmedidamente a população negra, e destacou a necessidade de se combater as formas institucionais e individuais de violência e cerceamento de liberdades dessas populações, mas sem esbarrar em uma perspectiva de vingança.

“Esta é a chamada feminista negra por formas de justiça que não sejam vingativas. Mulheres negras representam o futuro. Mulheres negras são a esperança de liberdade. Não reivindicamos inclusão numa sociedade racista, misógina, patriarcal e capitalista. Afirmamos o feminismo abolicionista”, afirmou. 

Após a palestra, ela respondeu a perguntas de estudantes e jornalistas, e destacou a importância das manifestações culturais nos movimentos de resistência, como foi a música para o movimento abolicionista nos Estados Unidos, e ressaltou a importância de integração entre os jovens, que preservam a vitalidade da luta, e os mais velhos, que conservam o conhecimento acumulado. “Qualquer movimento que tenha expectativa de provocar uma mudança duradoura, deveria reconhecer a importância da comunicação entre diferentes gerações.”

Ela também manifestou solidariedade a Rafael Braga, jovem negro preso nas manifestações de 2013, por portar uma garrafa de desinfetante, considerado como material explosivo pelas forças de segurança e pela Justiça, e frisou a necessidade de cooperação internacional para a libertação de presos políticos. 

Assista à palestra na íntegra, transmitida pela TVE Bahia:

 

MAIS DE 100 FILMES DE 18 PAÍSES INTEGRAM O 12° FESTIVAL DE CINEMA LATINO-AMERICANO

Julho 26, 2017

Camila Pitanga

Redação da Rede Brasil Atual.

São Paulo – O Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo chega este ano à 12ª edição. A cerimônia de abertura está marcada para esta quarta-feira (26), na Praça Cívica do Memorial da América Latina, Barra Funda, zona oeste da capital. Será exibido ao ar livre o primeiro longa-metragem do diretor mineiro Marcelo Caetano, Corpo Elétrico (2014). A mostra, que homenageia o cineasta Beto Brant, traz filmes de 18 países.

O festival foi criado em 2006 a partir de iniciativa do então secretário estadual de Cultura, o cineasta João Batista de Andrade, com objetivo de reunir a produção cinematográfica dispersa dos países latino-americanos. “Funcionaria como uma arena continental para discutir sua singularidade estética, seus diferenciais e tendências temáticas, além de descobrir sua riqueza de criatividade”, afirma em nota o diretor-presidente da Fundação Memorial, Irineu Ferraz.

Além do Memorial, recebem o festival o CineSesc, na Rua Augusta, a rede de cinemas Circuito Spcine e o Instituto CPFL em Campinas, interior do estado. “Como tem se tornado rotina, a Praça Cívica do Memorial é o local de exibições ao ar livre. A Galeria Marta Traba se transforma em espaço de encontro do evento, ao passo que no Auditório da Biblioteca são promovidas, de forma inédita, projeções de longas com temática infantil e familiar”, diz Ferraz. O festival ainda recebe cineastas para um ciclo de debates ao longo do evento, que vai até 2 de agosto.

Segundo a Associação do Audiovisual, parceira da mostra, a maioria dos mais de 100 títulos é inédita. A entidade destaca a promoção de eventos paralelos, entre os quais o debate O Jovem no Cinema Latino-Americano Atual, na próxima terça (1º), no Cinesesc, às 19h30, com a presença de nomes jovens que despontam no audiovisual de Argentina, Chile, Colômbia e Brasil.

Haverá também uma oficina de direção ministrada pelo cineasta Marcelo Caetano, terça e quarta-feira (2), dois últimos dias do evento – no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc. Filmando Corpos Queer: Os gestos da direção, os gatilhos da criação” tem como objetivo mostrar ao público interessado “estratégias para filmar corpos que não buscam visibilidade”, por meio de curtas do diretor, além do documentário Bailão (2009), que trata de um grupo de homossexuais na terceira idade. A participação requer inscrição pela página do Sesc ou presencialmente em alguma de suas unidades.

 

O Memorial da América Latina será, mais uma vez, principal palco da mostra, com encontros e exibições ao ar livre

Homenageado

Toda edição do festival homenageia algum cineasta importante do cenário audiovisual local. No ano passado, foi a cineasta paulistana Anna Muylaert. Neste ano, será o diretor de premiados longas, curtas, videoclipes e séries de televisão Beto Brant.

A mostra exibirá 11 filmes do diretor e promoverá um encontro com sua presença no sábado (29), no Espaço Petrobras do Memorial da América Latina. Entre os filmes a serem exibidos, estão Os Matadores (1997), O Invasor (2002), Cão sem Dono (2007) e Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios (2011).

A programação completa pode ser conferida na página oficial da mostra.

SORORIDADE E EMPODERAMENTO DAS MULHERES EMBALAM CLIPE DE MULAMBA

Julho 25, 2017
Música que leva o mesmo nome da banda curitibana passa mensagem: é preciso que as mulheres transformem a dor em força para se verem como protagonistas de suas histórias e vidas
por Xandra Stefanel, especial para RBA 
 
DIVULGAÇÃO
Mulamba

O clipe é um manifesto pela união das mulheres contra a opressão de gênero, e pela quebra dos estereótipos


Agora o meu papo vai ser só com a mulherada
‘Nós não é’ saco de bosta pra levar tanta porrada
Todo dia, umas dez morrem, umas 15 são estupradas
Fora as que ficaram em casa e por nada são espancadas
Qual que é o teu problema?É fé pequena ou mente ruim? 
Quem foi que te ensinou a tratar ‘as’ mulher assim? 
Agora fica esperto porque a coisa vai mudar
Se for tirar farinha com ‘as’ mulher, pode apanhar!

Tão forte quanto a letra da música Mulamba é o clipe que a banda homônima acaba de lançar. O vídeo traz uma mescla de documentário e videodança em uma uma espécie de manifesto pela sororidade e pelo empoderamento das mulheres. Com roteiro e direção da cineasta Virginia de Ferrante e montagem de Ana Carolina Vedovato, o vídeo realizado de forma independente contou com uma rede de parcerias entre mulheres que dividiram suas histórias de agonia e sofrimento em uma dinâmica de grupo conduzida pela psicóloga Lari Tomass.

Os relatos foram preservados e apenas as imagens são apresentadas ao público, mas a força das expressões corporais e a conexão criada entre as mulheres estão presentes durante todo o clipe. “A ideia veio para potencializar uma canção que, além de dar nome à banda e ser nossa primeira criação em conjunto, traz um tema que precisa ser olhado com atenção por toda a sociedade: o massacre contra o feminino e tudo que ele representa. Enxergamos na banda e também na música Mulamba um poder de voz que fala sobre, por e em prol de uma parte da sociedade que é desacreditada e renegada cotidianamente”, afirma a vocalista Cacau de Sá, uma das seis integrantes de Mulamba e autora da letra, em parceria com Amanda Pacífico.

Segundo a vocalista, letra e clipe são um ato político. “A primeira mensagem é de que é possível fazer uma arte de resistência tendo um produto final que dialoga, comunica e transgride. Entendemos os corpos como políticos, logo, temos o clipe como um ato político. Estamos falando de pessoas com situações reais, muitas vezes não vistas e silenciadas. Mas também estamos transmitindo a ideia de que juntas somos mais fortes e de transformação.”

As imagens apresentam retratos e a interação das mulheres entre si e com a banda, intercaladas com uma dança protagonizada pela atriz Nayara Santos. Ela “interpreta uma personagem fictícia, uma espécie de entidade que representa a própria figura da ‘mulamba’. Com o rosto coberto por uma máscara em formato de útero, a protagonista destrói objetos simbólicos num processo de libertação. A escolha dos elementos também é fruto de uma pesquisa feita com mulheres que relataram situações de opressão ao longo de suas vidas’, detalha a banda no material de divulgação do videoclipe.

“A personagem é a encenação de uma força interior que todas nós temos para suportar momentos difíceis. Nesse contexto, a máscara é uma proteção para aguentar esses momentos e, ao final, ela deixa o escudo para mostrar que não precisa mais usar uma defesa. Ao mesmo tempo em que ela se liberta, as mulheres que contaram suas histórias também estão dançando e libertadas, culminando em uma simbiose”, explica a diretora do vídeo.

Protagonismo feminino

Virginia de Ferrante afirma que o processo de filmagem foi bastante intenso. “Queríamos retratar mulheres reais com sentimentos reais, e isso fica bem estampado no clipe. As imagens com as mulheres participantes resultam da dinâmica conduzida pela psicóloga Lari Tomass. Foi num estilo documental, a gente não tinha cenas específicas”, diz Virgínia. “Com relação às mulheres, queríamos uma gama de pessoas diferentes entre si, levando em conta onde estamos e os limites da própria cidade. Mas queríamos diferentes idades, etnias, corpos, cores de cabelo e vivências. Como exemplo, tivemos duas mulheres trans, o que deixou o processo mais rico e as trocas de experiência mais interessantes.”

O papel da psicóloga foi conduzir uma dinâmica de grupo. “Quando entramos em contato, explicamos o projeto e o que precisávamos de imagem: mulheres andando, se olhando, trocando informações, contatos, abraços, verdades… Ela propôs uma dinâmica que foi feita antes com a banda para um entendimento prévio, pois não sabíamos como seria a reação das mulheres participantes”, afirma a diretora.

O resultado desse processo é um dos videoclipes brasileiros mais fortes dos últimos tempos, com uma música igualmente potente. É um manifesto que incentiva a união das mulheres contra a opressão de gênero, pela quebra dos estereótipos e pela transformação das dores em liberdade.

Formado em 2015, o sexteto é composto apenas por mulheres: Amanda Pacífico e Cacau de Sá nos vocais, Caro Pisco na bateria, Fer Koppe no violoncelo, Naíra Debértolis no baixo e Nat Fragoso na guitarra). A banda, que deve lançar o primeiro álbum ainda este ano, ganhou notoriedade com o lançamento do vídeo da música P.U.T.A, no final de 2016.

Segundo Cacau de Sá, o nome do grupo tem a intenção de ressignificar a palavra: “Sobre o nome Mulamba, entendemos que somos esse estereótipo do ponto de vista da sociedade patriarcal na qual estamos inseridas. Mas, na nossa própria visão, nos enxergamos como protagonistas de nossas histórias e vidas. Por isso a escolha do termo, porque entendemos que a nossa visão quebra esse entendimento pejorativo e ressignifica a palavra, demonstrando força e protagonismo”.

 

ALDEIA MULTIÉTNICA PROMOVE INTEGRAÇÃO E FORTALECIMENTO DE INDÍGENAS

Julho 24, 2017
Cada dia, o ritmo da aldeia segue as tradições e costumes de uma das etnias. - Créditos: Marcelo Santos Braga/ Brasil de Fato
Eduardo Sá

Chapada dos Veadeiros (GO), para o Brasil de Fato.

Cada dia, o ritmo da aldeia segue as tradições e costumes de uma das etnias. / Marcelo Santos Braga/ Brasil de Fato

Intercâmbio de culturas, fortalecimento das tradições, fonte de renda através da venda de artesanatos e pinturas, apresentações das suas histórias e costumes. Esses são alguns dos propósitos da XI Aldeia Multiétnica, realizada de 15 a 21 de julho, na Chapada dos Veadeiros (GO). 

Cerca de 280 índios de oito etnias receberam aproximadamente quinhentos visitantes por dia, além de trinta viventes, como são chamados aqueles que se alojam na aldeia com os indígenas e acompanham todas as atividades. Na festa de encerramento mais de mil pessoas presenciaram as apresentações. 

Foto: Marcelo Santos Braga/Brasil de Fato

Encontro de Culturas

Tudo começou em 2007, no ano Internacional dos Povos Indígenas, quando alguns integrantes do Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros ampliaram a participação dos índios nas atividades. Seis anos depois, a Aldeia Multiétnica passou a ter local próprio numa pousada desativada no Vale da Lua, na Chapada dos Veadeiros, onde sete etnias tiveram chalés para se alojar. 

Mais de dez anos depois foi realizado o sonho dos idealizadores do projeto: a construção de um território permanente, com estruturas pensadas e realizadas pelos indígenas num local próximo a entrada de Alto Paraíso e São Jorge, também na Chapada. 

As nove famílias das etnias fundadoras têm direito hereditário de participação, tudo coordenado por suas lideranças. A programação dos eventos é auto-gestionada com ampla participação dos indígenas junto aos organizadores. 

A ideia é reproduzir, neste território, a rotina de um período de festas numa aldeia. Foram convidados mestres, pajés, cantores, caciques, dentre outros integrantes das tribos, além de antropólogos, pesquisadores, gestores públicos e outros setores.

De acordo com Fernando Schiavini, um dos idealizadores do projeto e indigenista aposentado pela Funai, órgão onde trabalhou durante 40 anos, o ritmo da aldeia segue as tradições e costumes de uma das etnias, que fica responsável pelas atividades da aldeia, de modo a apresentar suas histórias, danças, vestimentas, alimentos, artesanatos e culturas em geral, explicou. 

“As rodas de prosas são extremamente importantes, porque retratam as realidades indígenas. Além das festas, tratam de discussões sérias e dos seus problemas. Educação e saúde indígena, avanço do agronegócio sobre seus territórios e construções de hidrelétricas são alguns deles. Agora com esse novo espaço poderemos realizar também cursos de indigenismo, saúde, e temas dos quilombolas e dos povos e comunidades tradicionais como um todo”, afirmou. 

Cacique Raoni: “Quero todos os caciques de todas as etnias unidos”. Foto: Marcelo Santos Braga/Brasil de Fato

União entre os povos

O Cacique Raoni, uma das lideranças mais respeitadas dentro do movimento indígena e ancião da etnia Kaiapó, participou do início do evento e ressaltou a importância da união entre os povos e a busca pelo conhecimento para lutar pelas suas necessidades. Ele criticou as construções de hidrelétricas e o avanço do agronegócio sobre suas terras, alem de pedir maior participação dos jovens na luta pelos seus povos.

“Vamos esperar esse tipo de bagunça entre as autoridades e a politicagem deles acalmar. Aí vamos levar nosso documento para entregar ao governo que vai assumir depois. Quero todos os caciques de todas as etnias unidos para falar com o governo e entregar o documento para eles escutarem nossa fala”, ressaltou.

Também foram realizadas exibições de cinema indígena, troca de sementes, venda de artesanatos e pinturas corporais, que são importantes fontes de renda aos povos participantes, dentre outras atividades. 

De acordo com Anuiá Yawalapiti, importante liderança da Aldeia Amarü, do Parque Nacional Indígena no Xingu, no Mato Grosso, uma das conquistas do evento é fazer com que os índios da sua etnia verem seus “parentes” como irmãos. Para ele, muitos brancos não têm interesse nos seus projetos e querem acabar com a cultura indígena.

“O Encontro faz a gente se aproximar mais porque muitos brancos não respeitam nossas famílias, animais e florestas. A televisão e a novela não contam nossas histórias, e as crianças vão perdendo nossa cultura, costumes, etc. Essa é uma preocupação nossa, e falam que estamos invadindo a terra deles mas eles que invadiram nossas terras”, criticou o cacique.

Os Rikbaktsa, do noroeste do Mato Grosso, participam pela primeira vez da Aldeia. Segundo Domingas Apatso Rikbaktsa, todos estão muito felizes pela oportunidade de conhecer a cultura de cada povo e mostrar a deles também, além de tentar vender o artesanato da sua aldeia. 

“É importante falar sobre nossa terra, nossa história, a cultura que cada etnia tem, cada dança, música, que nossos antigos nos passam para não acabar. Esperamos sempre participar para fortalecer nosso conhecimento e cultura trazendo mais jovens para ensiná-los”, disse.

Foto: Marcelo Santos Braga/Brasil de Fato

Aprendizado

Atento a todos os debates e discussões, Paulinho Paiakan, da etnia Kaiapó e presidente da Federação dos Povos Indígenas do Estado do Pará (Fepipa), destacou a importância de se apropriar das informações e conhecimentos durante os diálogos. Para ele, o formato fora de auditórios e salas de reunião também favorece para que todos se sintam mais à vontade. 

“As falas, os assuntos, levantaram várias ideias que são compartilhadas por nós. Esse encontro é muito produtivo, estou aprendendo muito. Também estou compartilhando meus pensamentos. É muito importante nos unirmos, e esse é um ponto de intercâmbio para fazer essa unificação”, afirmou.

De acordo com o último Censo Demográfico realizado pelo IBGE em 2010, existem hoje cerca de 818 mil indígenas de 305 etnias em todos os Estados do Brasil. São aproximadamente 274 línguas faladas, e quase 18% da população indígena não fala português. A Funai estima que quase 70  grupos de índios ainda não foram contatados, enquanto outros estão requerendo o reconhecimento de sua condição indígena junto ao órgão.

Edição: Daniela Stefano

MAS UM LEGADO DE ROBERT CAPA, POR THE OBSERVER, NA CARTA CAPITAL

Julho 23, 2017
Por Sam Jones, de Madri — publicado 22/07/2017 00h30.
Campanha pede a restauração de casa retratada pelo fotógrafo em 1936, um símbolo dos horrores da Guerra Civil
 
Robert Capa International Center of Photography

Edifício

No passado, a foto encorajou voluntários estrangeiros a aderir à luta contra Franco. Agora, pode ajudar os atuais morado

O número 10 da rua Peironcely já viveu tempos melhores. A tinta branca fresca que cobre um labirinto de longos quintais estreitos não esconde o fato de que suas paredes estão ruindo, nem que a tampa do poço e os bueiros enferrujados mantêm a distância ratos e moscas. Da mesma forma, já viu dias piores.

No inverno de 1936, o bairro de Vallecas, em Madri, habitado por trabalhadores, foi bombardeado pelos aviões que Hitler mandou para ajudar Francisco Franco a derrubar o governo republicano da Espanha, e ensaiar a tática de blitzkrieg usada mais tarde na Segunda Guerra Mundial.

Também ali, de Leica em punho, estava Robert Capa. Em uma das mais famosas imagens da guerra com que forjou sua reputação, o fotojornalista húngaro capturou as consequências civis do bombardeio. Na rua diante da casa térrea, em meio a detritos e na frente de uma fachada perfurada por estilhaços, estão três crianças sentadas, enquanto uma mulher olha do vão de uma porta.

A foto, tirada por Capa em novembro ou dezembro de 1936, saiu na imprensa americana, suíça e francesa. Não apenas ela revelou o ataque deliberado a civis, como também encorajou voluntários internacionais a viajar à Espanha para entrar na guerra civil contra as forças de Franco.

Destruída por bombardeios de forças nazistas há 80 anos, a precária edificação agora abriga 14 famílias, divididas em minúsculos apartamentos de até 28 metros quadrados (Foto: Reprodução Google Street View)

Hoje, mais de oito décadas depois, corre uma campanha para que o prédio deteriorado seja protegido e declarado parte do patrimônio cultural da capital espanhola. Segundo José María Uría, do sindicato Fundación Anastasio de Gracia, que está coordenando o esforço de conservação, a imagem de Capa adquiriu uma posição quase legendária, sobretudo porque foi proibida na Espanha durante a ditadura.

“É a primeira imagem na história que mostra os efeitos de um bombardeio sobre a parte mais frágil da sociedade: as crianças”, diz ele. “Não faz parte apenas da memória deste país. Embora tenha levado 40 anos para que as fotos fossem vistas aqui, faz parte da memória da Europa. Foi o impacto dessa foto que levou muitas pessoas a se envolverem (na guerra).”
Com apoio de uma coalizão de organizações internacionais que incluem o Instituto Goetheda Alemanha e o Centro Internacional Americano de Fotografia, criado pelo irmão mais novo de Capa, Cornell, em 1974, a fundação espera preservar o prédio. Mas, igualmente importante, ela também quer ajudar os que vivem hoje atrás das paredes do nº 10, ainda marcadas pelos fragmentos.

Exatamente como quando a foto foi feita, Vallecas continua sendo uma das áreas mais pobres, e ferozmente de esquerda, de Madri. Os 15 pequenos apartamentos do quarteirão, que variam de 17 a 28 metros quadrados, hoje abrigam 14 famílias. A maioria tem apenas dois quartos pequenos, obrigando os pais a dormir em sofás para que seus filhos possam descansar melhor à noite.

Sonia Suárez, que mora na casa com seu marido e dois filhos pequenos há cinco anos, paga mais de 300 euros por mês (cerca de 1.125 reais) para morar em uma construção cujas paredes desintegradas 

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Pelas redes sociais, difunde-se a campanha #SalvaPeironcely10

são úmidas no inverno e ferventes no verão. O encanamento está furado e a porta da frente, de madeira fina, estala com as mudanças de temperatura. 

“As coisas vão mal”, diz ela, apontando a fiação elétrica exposta e descascando tiras de plástico para revelar a alvenaria apodrecida por baixo. “Não há janelas nos quartos, é impossível respirar. Queremos sair daqui e encontrar um lugar decente para morar.”

Suárez só soube da história do prédio depois que se mudou. Uma ex-inquilina, que morreu há dois anos, aos 90, era filha de um casal que vivia ali quando ele foi bombardeado.

É estranho, diz Suárez, pensar em seus filhos brincando no mesmo lugar que Capa fotografou. “Não tínhamos ideia de que todos esses buracos eram de bombas. Olhar as fotos hoje provoca calafrios.”

Como a família entende, e Uría salienta, algumas coisas em Vallecas não mudaram desde o dia de inverno em que Capa espiou pelo visor da câmera. “A situação da família de Sonia e de todos os moradores da Peironcely 10 é algo que nossa sociedade não pode permitir. Manter essas pessoas nesse estado de negligência nos arrasta de volta à Espanha de 90 anos atrás, quando o prédio foi construído e não havia proteção social do governo.”

 

O POVO POBRE NO CANTO DA GRALHA AZUL

Julho 22, 2017
Matéria de Ricardo Prestes Prazello*, para o Brasil de Fato.
Para muito além do regionalismo, sob suas asas estão acolhidas canções de protesto e experimentalismo artístico - Créditos: Arquivo
Para muito além do regionalismo, sob suas asas estão acolhidas canções de protesto e experimentalismo artístico / Arquivo

Já faz 40 anos do primeiro voo. Em 1977, aparecia em Paranavaí um grupo de jovens músicos preocupados em alimentar a linguagem da música popular brasileira com a cultura do interior paranaense. Assim surge o grupo Gralha Azul. 

Tendo por ninho o teatro estudantil, o Gralha Azul logo contribuiria para enriquecer o cenário musical do Paraná com trilhas para peças, composições próprias e mostras culturais. Entre seus componentes, vários músicos, que se revezaram dos anos 1970, quando contou com coral feminino, até hoje. 

Os vôos mais altos, sem dúvida, estão refletidos na discografia composta por cerca de sete álbuns. O primeiro, chamado “Ciranda paranaense”, foi gravado em 1980 e carrega na capa o compromisso do grupo: a pintura de Roberto Pereira da Silva, retratando o povo pobre do campo. No encarte do disco, sua preocupação social se expressa, quando se lê que o grupo canta “onde estiver o povo reunido”, nas praças, nas ruas e nos bairros da cidade, “sem ter compromisso com consumo, sem ter a preocupação em vender e ganhar”. 

É curioso notar que o Gralha Azul não ficou conhecido do grande público. Sua “música de registro cultural”, porém, merece ser revisitada pelas novas gerações de músicos e compositores. Para muito além do regionalismo, sob suas asas estão acolhidas canções de protesto e experimentalismo artístico. 

Se fosse possível destacar apenas algumas de suas composições, não poderia deixar de ser ressaltada a preocupação com a cultura do povo pobre. Por exemplo, a canção “Moema”, de disco homônimo do ano de 1993, canta a história da resistência guarani, ao tempo das 13 reduções jesuíticas que marcaram o território paranaense em pleno século XVI. A lenda da fuga de mais de cem mil indígenas, e dos padres jesuítas, contra a invasão bandeirante, explica a aparição de três morrinhos, na região, que “cresceram do sangue daquela gente”. 

Mas é a música “Procissão dos navegantes”, do disco “Pitanga madura” de 1983, que pode ser tida como a obra-prima do conjunto. Nela, o rio Paraná faz navegar o povo trabalhador, em busca de seu pescado, alimento que sustenta o corpo, mas também a alma, ao evocar a religiosidade popular. Um povo em procissão, na esperança de “que a miséria parta e o rio sempre a lhes doar”. Eis o canto forte do Gralha Azul. 

Para ficar por dentro: 

– Livro “Grupo Gralha Azul: a história e a trajetória de um autêntico grupo de música regional do Paraná” (2004), organizado por Roberto Simões; 

– Caixa “Grupo Gralha Azul: história e trajetória”, com 5 discos remasterizados e um DVD ao vivo. 

*Ricardo Prestes Pazello é professor do curso de direito da UFPR, secretário-geral do IPDMS e militante da Consulta Popular do Paraná.

Edição: Ednubia Ghisi.

DOCUMENTÁRIO APRESENTA COTIDIANO DE ACAMPAMENTO AGROECOLÓGICO NO PARANÁ

Julho 22, 2017
Redação Brasil de Fato Ponta-Grossa (PR).
Ao longo de 46 minutos, o filme apresenta relato de camponeses e camponesas sobre o dia da ocupação Maria Rosa - Créditos: Divulgação
Ao longo de 46 minutos, o filme apresenta relato de camponeses e camponesas sobre o dia da ocupação Maria Rosa / Divulgação

O primeiro ano do Acampamento Maria Rosa do Contestado virou filme. “Doze meses de resistência: a terra como horizonte de vida” retrata o cotidiano das 150 famílias camponesas que vivem na ocupação, localizada em Castro, a 160 km de Curitiba.

O documentário é resultado do trabalho da Agência de Jornalismo, Programa de Extensão do Curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), que mantém a parceria com várias entidades, grupos e movimentos sociais populares. Outras ações de comunicação e jornalismo são realizadas em parceria entre a Agência e comunidades do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na região.

Ao longo de 46 minutos, o filme apresenta relato de camponeses e camponesas sobre o dia da ocupação Maria Rosa, o cotidiano, a luta pela terra, as conquistas, como a geração de trabalho e renda e o cultivo de alimentos a partir da agroecologia. As famílias sem-terra vieram dos municípios de Castro, Lapa, Teixeira Soares, Ipiranga e Ponta Grossa, todos com o desejo em comum de conquistar um pedaço de terra para morar e produzir.

“Tentamos registrar, a partir do depoimento dos acampados, o sentido e importância da luta pela terra e as mudanças em suas vidas em um ano de ocupação através do MST”, disse a professora da UEPG e orientadora do projeto Hebe Gonçalves, que também coordena a Agência de Jornalismo.

A Festa Junina da comunidade Maria Rosa, realizada no dia 8 de julho, formou a plateia para o lançamento do documentário. “Produzir o documentário foi uma experiência muito rica, um aprendizado. Um trabalho que fiz com muito amor”, disse Gabriel Ferreira Clarindo Neto, estudante produtor e editor do filme, durante o lançamento.

O filme está disponível no youtube, no facebook, e será veiculado na TV Comunitária de Ponta Grossa (TVCom, canal 17, no cabo). A dificuldade de acesso à internet não impedirá a divulgação do material: a comunidade recebeu 20 cópias físicas no formato DVD do documentário.

Para uso da música “Canção da Terra” como trilha sonora do documentário, Agência de Jornalismo obteve autorização gratuita do próprio cantor e compositor gaúcho Pedro Munhoz e da Som Livre 100% Edições Musicais.

Terra para morar e produzir

Para o integrante do MST Joabe Mendes de Oliveira, o videodocumentário possibilita mostrar o projeto do movimento voltado à agricultura orgânica no país: “O vídeo é um meio de expor o projeto que, de fato, a gente está construindo. Através do Acampamento Maria Rosa, a gente quer que todos os acampamentos do Estado do Paraná se transformem numa grande matriz tecnológica agroecológica, de produção orgânica, para fazermos o contraponto a esse modelo colocado aí”.

Na avaliação do agricultor, a produção baseada em monocultivo inviabiliza a pequena propriedade, não gera renda e empregos, além de destruir a biodiversidade e expulsar camponeses, indígenas e comunidades tradicionais. “Estamos fazendo o contraponto, dizendo que queremos usar essas terras para produzir comida saudável e barata, direto para mesa do consumidor. Através desse vídeo, podemos mostrar a importância da agricultura orgânica no nosso país hoje”.

Integrante do Acampamento Maria Rosa, Rosane Mainardes também frisou a relevância do vídeo para o registro histórico da comunidade: “Foi muito gratificante ver e ouvir um pouco das histórias das famílias e as formas que elas chegaram ao acampamento. Ver os olhares delas de felicidade e de grandes conquistas. Ver a importância que elas falavam do alimento sem agrotóxico e a diferença que o Movimento Sem Terra teve em suas vidas. Esse filme resgata a importância da reforma agrária”.

Homenagem a uma líder cabocla 

Cerca de 150 famílias, entre homens, mulheres e crianças, ocuparam a Fazenda Capão Cipó às 5h da manhã de uma segunda-feira, em 24 de agosto de 2015. A área de 300 hectares está situada a sete quilômetros de Castro e servia como sede da Fundação ABC, voltada às pesquisas agropecuárias para as Cooperativas Capal (Arapoti), Batavo e Castrolanda, na região dos Campos Gerais, no Paraná.

As terras onde estava instalada a Fundação são de propriedade da União, que, desde 30 de abril de 2014, aguardava a reintegração de posse. Isto é, através de medida liminar, a União reivindicou que a Fundação deixasse as terras, por ter encerrado período de comodato, segundo o MST.

O nome do acampamento é uma homenagem à jovem camponesa que chegou a liderar 10 mil caboclos durante a Guerra do Contestado (1912-1916). Maria Rosa e foi morta aos 16 anos, uma das milhares de pessoas a perder a vida na maior guerra civil camponesa da história do Brasil.

*Com informações da Agência de Jornalismo UEPG

Edição: Ednubia Ghisi

A dramaturga negra que representa a periferia

Julho 21, 2017

Por Jéssica Moreira

Eu conversava sobre teatro com uma amiga, quando aquela moça de sorriso doce e olhar e voz firmes se aproximou com seus livros nas mãos. Naquela época, ela estava no primeiro semestre do curso de dramaturgia da SP Escola de Teatro e, mesmo sem saber, reacendeu em mim a esperança de um dia também ser dramaturga, já que eu não havia passado no processo seletivo.

Hoje, após sete anos desse encontro, tenho o prazer de divulgar que, daqui a alguns dias, a obra “Epifania”, escrita por Shu em 2016, irá também criar voo e pousar no país africano de Cabo Verde, no 3º Festival Nacional de Teatro do Mindelo, que acontece de 23 a 29 de julho.

O texto, inspirado no romance “A Hora da Estrela”, faz um diálogo entre a personagem principal, Macabéa, e a autora Clarice Lispector, trazendo como pano de fundo diversas questões do universo feminino. A dramaturgia irá ganhar vida na interpretação da atriz Lilian Prado, do Grupo de Teatro Onironautas.

Essa, porém, não é a primeira vez que um texto de Shu, hoje com 40 anos, é encenado fora do país. Com este, a dramaturga já soma quatro trabalhos. Giz (2011/2013) foi o primeiro, que ganhou leitura dramática de Lavinía Pannuzio e, mais tarde, foi dirigida por Marcelo Valle. “Giz me possibilitou perceber que eu havia encontrado a minha singularidade, meu estilo dramatúrgico de escrever: uma verve poética, metafórica, híbrida de linguagens e referências”.

A partir de um processo colaborativo com a Cia Os Satyros, Shu colocou na rua Cabaret Stravaganza (2011), espetáculo que ficou quase dois anos em cartaz em São Paulo e, depois, foi levado para a Suécia. Ainda em 2017, a peça Epifania ficará em cartaz no Viga Espaço Cênico e, em setembro, a peça Ar rarefeito (2013) – 1º lugar no Prêmio Heleny Guariba de dramaturgia em 2014 – irá ganhar uma leitura dramática em Portugal.

“A minha filha Heloísa é minha maior inspiração”

A dramaturga conta que a filha, Heloísa, de dez anos, é sua maior inspiração. “Quero ser uma mulher forte para ela. Ela sonha como eu, com uma carreira artística. Ela desenha todos os dias, desde que eu lhe apresentei ao giz de cera, antes dos dois de idade. Quero que a minha filha saiba que ela pode ser o que quiser e que resistiremos e existiremos por meio da nossa arte: a minha, cênica; a dela, provavelmente, a plástica”.

Dentre as referências literárias, Shu destaca a admiração que possui pelo trabalho da mineira Grace Passô, uma mulher negra, que vem ganhando destaque com as letras. ” Por eu me identificar com o tipo de dramaturgia que ela cria, que espanca;por ela ser uma artista negra da palavra, premiada e com grande reconhecimento, por Grace se permitir permear dentro de projetos artísticos coletivos”. Além dela, alguns autores nacionais e também internacionais atravessaram a trajetória literária de Shu, como Silvia Gomez, Luciano Mazza, Newton Moreno e entre os estrangeiros Sarah Kane, Koltès, Visniec edetsaca-se Grace Passô.

A dramaturgia como cura

A chegada até aqui, porém, não foi um percurso simples. Foi aos 30 anos que a então professora de Português decidiu deixar a sala de aula para se arriscar nos palcos. Matriculou-se em um escola de artes cênicas, mas no decorrer das aulas não conseguia se enxergar atuando. “Eu não me enxergava talentosa, não me encaixava mais como professora. Entrei em depressão”. Foi quando o companheiro de Shu viu uma chamada na tevê sobre a inauguração da SP Escola de Teatro e a incentivou a se inscrever no processo seletivo.

“Agarrei a dramaturgia como uma tábua de salvação. Eu escrevia contos, crônicas, haicais, mas a dramaturgia foi a soma das minhas paixões. É minha maneira de estar no palco, de me sacudir, de me questionar o tempo todo junto com o espectador. É como se eu atravessasse de novo aquela avenida perigosa , saísse ilesa e, de quebra, renovasse completamente meu olhar cada vez que uma peça minha entra em cartaz, recebe uma leitura dramática.

“Eu gostava de brincar com palavras”

Chegar até aqui e ver seu trabalho ganhando o mundo faz Shu remontar aos sonhos que nutre desde a infância vivida nas proximidades da Rodovia Anhanguera, local onde foi acolhida por sua família adotiva, ainda bebê recém-chegada da Bahia. Das coisas que mais gostava naquele tempo, brincar com as palavras era uma de suas preferidas.

O movimento local, no entanto, impedia que a meninada saísse pelas ruas. “Lembro-me de uma vez em que eu e um dos afilhados da minha mãe atravessamos a rua. Ganhamos do outro lado da calçada, onde só havia uma faixa de grama antes da rodovia, mas chegar a outra margem ampliou nossa perspectiva; era como se olhássemos o mundo por outro viés e fôssemos os donos dos nossos horizontes, porque a partir daquele momento, nosso olhar não era mais dirigido por nenhum adulto. Decidimos voltar. Assim que Jean pôs o pé na rua foi atropelado. Inacreditavelmente, ele só quebrou um braço. Eu recuei a tempo e me salvei. Tínhamos uns seis anos”. Na maioria das vezes, a fantasia se dava dentro dos limites do pequeno quintal, onde as crianças da vizinhança se encontravam para inventar de tudo um pouco. Um dia, os adultos tiveram uma briga tão feia, que a casa cheia de felicidade de repente se esvaziou, fazendo a menina se refugiar no universo das palavras.

“Foi quando eu me entreguei à leitura e à escrita de diários, poemas, passei a frequentar assiduamente a biblioteca da escola, que promovia encontros com escritores. Lembro-me perfeitamente do Marcos Rey e do Pedro Bandeira cercado pelo olhar curioso das crianças num piso de assoalho lustroso, se desdobrando para responder perguntas ingênuas e elaboradas. Foi aí, mais ou menos com oito anos de idade que comecei a sonhar com uma carreira literária”.

Na escola, não havia dúvida, sua disciplina favorita era Português, prelúdio da primeira formação, que alguns anos mais tarde seria em Letras. Durante as aulas, era a professora Roseli, que a acompanhou do 5º ao 8º ano, que dava o incentivo para a então futura escritora ler para toda a turma as longas redações que costumava escrever. Foi em uma dessas leituras que a menina viu, pela primeira vez, um estilo diferente no livro didático.

Era uma conversa entre uma avó e sua neta, que Shu rapidamente decorou e, na aula seguinte, se caracterizou a partir do que imaginava ser a personagem idosa. Nesse dia, encenou o texto com a ajuda de uma colega. “Sempre que possível, eu encenava um texto do livro didático em sala de aula. Assim, sem saber, nasceu minha paixão pelo teatro. Em datas comemorativas na escola, eu apresentava peças que eu escrevia, dirigia, criava o cenário: devo ter sido a primeira menina negra a interpretar o herói grego Hércules“.

Mesmo apaixonada pelo teatro, foi na Pedagogia que Shu buscou curar algumas das feridas que ressoavam ainda do período escolar. Uma das poucas negras em uma escola de brancos na região oeste, Shu saiu do ensino fundamental e foi direto para uma escola de ensino médio técnica (na época, chamada de magistério), para fugir do racismo e do bullying que sofria por conta do tamanho de suas mamas.

“Beirava o insuportável e eu imaginei que eu só teria um pouco de paz se fosse pra uma escola majoritariamente de meninas: a saída foi o magistério e me apaixonei pelo ofício. Concluí os quatro anos e migrei para o curso de Letras, para amalgamar o magistério e minha paixão pelas palavras”.

Agora, já faz mais de sete anos que Shu tem na dramaturgia sua profissão. Seus últimos textos, ainda inéditos, tratam essencialmente da questão racial, já que a escritora sentiu a necessidade de entender suas subjetividades e o contexto de preconceitos que viveu e ainda enxerga também no meio artístico. “Tem artista branco lidando com o racismo como uma simples questão comercial”.

Lâmia Brito transforma cicatrizes em poesia em livro de estreia

Julho 20, 2017

Obra autobiográfica ‘Todas as Funções de Uma Cicatriz’ refaz trajetória de autora conhecida na cena de saraus e slams. Fã da cultura hip hop, Lâmia também tem seus versos espalhados pelos muros da cidade.

por Xandra Stefanel

A literatura é uma espécie de antídoto para as dores de Lâmia Brito. A autora paulistana se debruçou sobre as marcas da própria vida e transformou suas cicatrizes em uma coletânea de poemas. Seu livro de estreia, Todas as Funções de Uma Cicatriz, é uma obra independente com 70 páginas que traz a história da autora reconstruída em forma de um mosaico poético.

Conhecida na cena de saraus e slams da cidade de São Paulo, Lâmia se debruçou durante cinco anos na matéria-prima do livro: seus machucados e cicatrizes preenchem as páginas com força e subjetividade. Esta foi a forma que ela encontrou para curar suas dores: “É uma das minhas formas de autocura. A dor morre à luz da exposição, e só tornando público o que virou cicatriz é que eu posso pensar nelas como uma lembrança, não mais como sofrimento. Eu segui o exemplo das mulheres artistas que vieram antes de mim, como Florbela Espanca, Frida Kahlo, Matilde Campilho. Cada uma tem um jeito diferente de expor sua dor e foi me inspirando nessas mulheres que eu encontrei meu jeito de escrever sobre cada marca. Minha escrita tem um pouco de morte em cada palavra, e é assim que renasço todos os dias. Dividir minhas cicatrizes também é um ato de não me sentir só, a partir do momento que eu vejo a identificação de outras mulheres com o que eu escrevo. Isso é o mais importante”, afirma.

Frases de Lâmia estão espalhadas pelos muros de São PauloAs inspirações de Lâmia passam pelas obras de Matilde Campilho, Rupi Kaur, Sin, Luiza Borba, Pedro Bomba, entre outros. Mas não apenas. Seus versos estão intrinsecamente ligados à influência da cultura do hip hop. “Eu conheci o rap com 12 anos e nunca mais parei de escutar. A paixão pelo hip hop veio mais tarde, quando comecei a estudar mais sobre os elementos que compõem essa cultura, e um deles é o conhecimento. Foi dentro da cultura hip hop que eu conheci os saraus e slams. Poetas se apresentavam nos shows de rap que eu ia e divulgavam os locais onde eles se reuniam e eu fui visitando e me identificando com aqueles espaços. Eu e MC Marechal trabalhamos juntos com o Projeto Livrar, que distribuía livros da literatura marginal durante os shows dele pelo Brasil e eu fui cada vez mais entrando em contato com as escritoras e os escritores ativos na cena periférica”, declara.

“A minha poesia não é a da militância explícita, como é a maioria dos textos falados e das músicas que eu escuto, mas foi uma escolha consciente trazer à tona dentro da cena os temas que giram em torno do amor: o romântico, o não-romântico, o platônico, o selvagem, o próprio, o destrutivo, o ideal etc., justamente pra quebrar a ideia de que a poesia marginal e rap só falam de desgraça em suas letras”, completa Lâmia.

Além de seus versos estamparem as páginas de Todas as Funções de Uma Cicatriz, eles também estão impregnados em muros, em forma de pixos, e na internet, em vídeo-poemas:

Capa“Eu não tinha intenção de lançar um livro tão cedo, tanto que demorei mais ou menos cinco anos pra publicar. Só que a minha escrita nunca quis ficar engavetada, então eu procurei espalhar meus poemas de outra forma, menos convencional, que não fosse em papel. Nas paredes estão trechos de poemas mais longos, como também estão no Facebook e um dia estiveram num blog pessoal. É um jeito de usar a estética do caos como moldura pra minha arte, de mudar um pouco como vemos e sentimos a cidade. Nenhuma das frases que escrevi pela cidade permanecem lá, algumas foram atropeladas, outras a prefeitura pintou de cinza por cima. Essa efemeridade é muito interessante porque provoca a minha criatividade. Eu nunca pixei a mesma frase em lugares diferentes. Eu escrevo e quero que as pessoas me leiam, não importa o formato.”

Todas as Funções de Uma Cicatriz pode ser comprado pelo site www.lamiabrito.com.br.