Archive for the ‘Carta Maior’ Category

Cinema e realidade em casa

Julho 8, 2017

Arte Carta Maior

A partir desta semana, Carta Maior trará a você o projeto Cinema e realidade em casa, com sugestões de filmes que nos levam a refletir sobre a realidade que vivemos no Brasil e no mundo. Uma contribuição ao rico repertório cultural de nossos leitores.

Na estreia deste projeto, focamos na questão da mídia, da justiça e da política. No Brasil, enquanto a mídia golpista esbanja recursos em seu noticiário, renovando seu aparato em defesa da agenda da austeridade, nós da Mídia Alternativa tentamos sobreviver.

Pesquisas como a da Reuters-Oxford demonstram o papel decisivo que a Internet terá nas eleições de 2018. Uma Internet, aliás, que vem se tornando cada vez mais controlada pelas corporações.

Como você sabe, há mais de um ano, nossa permanência no ar só é possível graças à parceria com os nossos leitores. Sua ajuda é de fundamental importância neste momento. Precisamos que você se torne um parceiro da Carta Maior (saiba como aqui).

Fazem parte deste primeiro cardápio cinematográfico: o chileno O Botão de Pérola, do cineasta/poeta Patrício Guzmán, sobre massacres de indígenas e, mais adiante, de dissidentes da ditadura do seu país; A Conexão Francesa, sobre a máfia de Marselha, relatando a trajetória de um juiz que ultrapassa os limites das leis; e a produção italiana, com um ator histórico, Gian Maria Volonté, Sbatti il mostro della prima pagina (O monstro na primeira página) onde é esmiuçada a manipulação da informação e da opinião pública.

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Em O botão de pérola, Guzmán levanta o véu de silêncio que caiu, durante mais de século, sobre o massacre dos índios kawéskar e faz um paralelo sobre outro massacre, o dos dissidentes do regime de Pinochet, atirados de helicópteros e de aviões no fundo do Pacífico. O filme é de extraordinária beleza.

Confira a resenha aqui: http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/O-Botao-de-Perola-A-memoria-necessaria-e-o-silencio-dos-midiotas/6/36505

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Em O monstro na primeira página, o cineasta Marco Bellochio dá uma aula cinematográfica sobre o conluio criminoso das forças econômicas com a mídia corporativa, a magistratura e a política. Gian Maria Volonté interpreta o editor-chefe de um poderoso jornal de Milão. O filme denuncia a manipulação da informação e as indefectíveis suítes jornalísticas produzidas para induzir leitores e eleitores a determinadas reações e conduzi-los a posições políticas convenientes a interesses obscuros.

Confira a resenha aqui: http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Cultura/O-verdadeiro-monstro-da-primeira-pagina-dos-jornais/39/35127

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Conexão Francesa mostra como a mídia pode fabricar um herói de ocasião vendendo a imagem do juiz que ‘’procura a vitória da Justiça contra o crime’’. É  inspirado na história verídica do juiz Pierre Michel que, deslumbrado com a  notoriedade construída pela mídia, cede à sedução da fama e adota o lema:  “Nada é  impossível.’’ A sua caçada ao mafioso Gaëtan Zampa, no estilo bandido e mocinho, não teve vencedores. Zampa, na vida real, foi encontrado enforcado, anos depois, na sua cela, numa prisão.

Confira a resenha aqui: http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Cultura/O-show-dos-juizes-obcecados/39/37893

Bons filmes e um excelente fim de semana.
Carta Maior
 
*Estes filmes estão disponíveis em DVD, no Now, Netflix ou Youtube.

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João Saldanha completa 100 anos

Julho 4, 2017

Por Raul Milliet Filho

Afinal, estamos falando do maior jornalista da história do futebol brasileiro, tanto em rádio, jornal e TV, e do homem que tinha como frase basilar de sua autobiografia “Minhas ideias valem mais do que minha conta bancária”.

“A vida de João Saldanha só pode ser entendida quando pautada por contrapontos constantes, presentes em sua trajetória, da fronteira do Uruguai ao Posto 6, em Copacabana.

Da família Jobim Saldanha à sua formação de adolescente e adulto no Rio de Janeiro. Do futebol à política, paixão em tom maior (seu maior orgulho foram os trabalhos que teve oportunidade de executar no Partido Comunista).

Do Botafogo ao Partido Comunista.

Da Portela à Banda de Ipanema.

De sua admiração por Noel Rosa e Luiz Carlos Prestes.

Da altivez, bem ao estilo gaúcho ao enfrentar as derrotas mais contundentes de amarguras intermitentes.

Da busca obsessiva pela simplicidade em todos os quadrantes do retângulo de um campo de futebol, para ele metáfora maior do mundo em que vivemos.

Do gosto pelo craque, pelo grande estrategista político, pelo compositor genial, pelo escritor de pena privilegiada, pelo turfe, pelo bate-papo com os amigos, pela esquina da Miguel Lemos, em Copacabana, pela praia, em etapas entrelaçadas que, sem sofrerem rupturas, mudaram de perfil, na medida em que a vida seguia”. (Vida que segue, João Saldanha e as Copas de 1966 e 1970, Nova Fronteira, 2006. Raul Milliet Filho – Org.).

Nestas seis edições até o dia 3 de julho, debateremos o perfil de João Saldanha, o “João sem medo, magro de tanto que as paixões o ralam”, como dizia Nelson Rodrigues, não deixando de criticar com firmeza algumas de suas biografias e documentário que, folclorizando seu perfil, deturpam sua trajetória no futebol e na política.

Um dia após o falecimento de João Saldanha, Villas-Bôas Corrêa, com seu talento de grande cronista, publica no Jornal do Brasil aquele que talvez seja o maior tributo jornalístico a Saldanha.

O futebol brasileiro fica devendo a João Saldanha a paixão de toda uma vida consumida no fogo de alma indomável, iluminada por uma das mais lúcidas e prontas inteligências que conheci, a bravura do exemplo e de um tipo de coragem que não media diferenças e invadia os espaços da temeridade. O futebol e o esporte, como o jornalismo especializado, nele tiveram um inovador a revolucionar o estilo de comunicação e crítica de jogo.

No ramo, era bom como cronista de linguagem despojada e a fantástica capacidade de escrever no mais puro coloquial. Segredo do João: falava a língua do povo para tratar de temas populares.

Ótimo na televisão, saltando do comentário do futebol para a crônica do cotidiano. Brilhou nas mesas redondas, com o jeito de topar brigas e dizer as coisas sem papas na língua. Enfrentou sempre duras paradas com o mesmo ímpeto desabusado de quem não media adversários.

Sempre sustentei, entretanto, que João Saldanha foi inigualável no rádio. Esse o seu espaço, onde realmente se espraiava num à vontade de quem está em casa. Durante anos, saltando de emissora, sustentou a posição indisputada de maior comentarista do rádio brasileiro em todos os tempos. O seu ibope podia ser aferido, nos tempos de Maracanã superlotado nas tardes de domingos e nas noites de qualquer dia, por constatação de ouvido: era só prestar atenção que era possível acompanhar, emendando o som dos rádios de pilha, o comentário do João seguindo o rastro de sua voz por todo o estádio, das cadeiras à geral.

Ninguém como ele empunhando microfone. Enxergava além do óbvio, antevia o desenvolvimento do jogo, descia à análise de táticas. O torcedor ouvia o João para entender o que estava vendo. E para concordar, sempre, até nos desencontros da paixão clubística.

Mas, como técnico da seleção de 1970, em trajetória tumultuada pelos impulsos do temperamento, João Saldanha deixou lições eternas e nunca aprendidas. Convidado, aceitou de pronto e no mesmo embalo anunciou a convocação dos 22. Com o gesto audacioso e exemplar de escalar a seleção titular e a reserva.

Foi o que se viu, apesar dos muitos pesares. A seleção de 1970 nasceu pronta, necessitou de retoques para os ajustamentos finais. Quer dizer que uma vez definida pôde começar treinando, buscando entrosamento, acertando táticas. Nunca esqueci o ensinamento: time só existe depois de escalado. O tempo que se gasta antes de definir a escalação é puro desperdício. E quantos títulos atiramos pela janela da indecisão e do tempo perdido nas famosas experiências que não levam a nada?

Há muitos anos que carregava o privilégio da amizade de João Saldanha, cultivada em convivência intercalada pelos compromissos profissionais, sempre preservada pela cordialidade das conversas e até no choque eventual de opiniões. João tinha suas arestas. Mas, o gosto da conversa, do papo saboroso, ponteado de casos recontados com a graça do pitoresco e em jorro inestancável da memória prodigiosa, detalhista, deixa em cada um dos que com ele privaram a saudade que mergulha na dura conformação com o irreparável.

A melhor homenagem que posso prestar ao amigo que morreu como sempre quis, cobrindo a Copa da sua despedida, se resume a esta singela constatação: desde que ficou doente, driblando a morte, surpreendi-me com a estima e o carinho dos humildes. Aqui no JB, na TV Manchete, todos se somavam no mutirão das angústias. Sem distinção. Porque eis um traço do João: não estabelecia diferença. Tratava igualmente a todos que para ele eram realmente iguais.

E isso não se finge nem mistifica. Era, talvez, o melhor do João.

Fonte: Carta Maior

E agora José, de que lado você samba?

Outubro 3, 2016

De tempos em tempos, o mundo acadêmico das Letras é questionado a respeito das relações entre Literatura e ideologia.

Estamos no século 21… em Literatura, como lidar com isto: “Tia Nastácia era uma negra de estimação”, comentário de Monteiro Lobato; “Abolir a escravidão não é bom nem para o Brasil nem para os escravos, pois os escravos brasileiros vivem melhor que os operários da Inglaterra”, personagens de José de Alencar se justificam com argumentos assim; mulheres banais ou letais, como são as mulheres de Machado de Assis; homossexuais perversos, como aparecem em Aluísio de Azevedo e Adolfo Caminha; … como resolver essas polêmicas sem condenar a Literatura? Não se trata mais de ser politicamente correto ou não – racismo, misoginia e machismo, homofobia, antissemitismo… os nazismos nunca se justificam – trata-se, antes de tudo, de definir o que é Literatura.

Há muitas concepções do termo “Literatura”; em um deles, Literatura é resistência às massificações do capitalismo e às opressões fascistas. Essa identificação entre literatura e ideologia política é bem antiga: sua formulação filosófica mais citada, o famoso ensaio “Lírica e sociedade”, de Teodoro Adorno, é de 1957; para nós, os brasileiros, Carlos Marighella (1911-1969), enquanto político e poeta, talvez tenha sido sua melhor epifania. Nessa concepção política de literatura – mais ética do que estética –, há ênfase nos conteúdos literários – os significados da obra –, uma vez que, desse ponto de vista, apenas esse aspecto das obras torna-se pertinente para a militância.

Isso faz do escritor arma de luta ideológica; espera-se dele que, para lutar, ele seja “bom” – “bom” enquanto pessoa, mas não “bom” necessariamente enquanto escritor –. Parece ingenuidade, mas essa ideologia literária é mais resistente do que parece. Ninguém perde tempo com poetas como Baldur von Schirach, um dos líderes da juventude hitlerista, todavia, não é raro encontrar explicações para o fascismo de Ezra Pound. Schirach é poeta medíocre, ninguém perde tempo com ele. Pound, porém, é um dos grandes nomes da poesia do século passado; parece que poucos se conformam com a ideia de que um grande poeta pode ser, eventualmente, um fascista. Nessa concepção de literatura, “Parque industrial”, de Patrícia Galvão, deveria ser o melhor romance feito no Brasil; o melhor poema brasileiro deveria ser “O operário em construção”, de Vinícius de Moraes.

Desse ponto de vista, parece difícil aceitar que um dos grandes escritores da nossa literatura infantil – quem inventou o Sítio do Pica-Pau Amarelo – tenha sido racista. Acusar José de Alencar de racismo também procede – na época de Alencar já havia a poesia negra de Luiz Gama, nunca houve desculpas para escravocratas –; além disso, para muitos, deve ser prazeroso vingar-se das leituras obrigatórias de “O Guarani” e “Senhora”, feitas na adolescência. Entretanto, Alencar não é misógino, as mulheres alencarianas são mais interessantes que a Capitu; Guimarães Rosa é bem mais racista do que José de Alencar, basta conferir contos como “Lélio e Lina”, “Lão-dalalão (dão-lalalão)”, “São Marcos” – neles há posturas mais ofensivas que os comentários escravocratas de “O tronco do ipê” –. Em meio aos patrulhamentos, muitas autoras brasileiras laureadas por feministas foram donas de casa; muitos poetas brasileiros, tão sensíveis, são machistas – “que me perdoem as feias, mas beleza é fundamental” –; … a lista dessas “impropriedades” pode não terminar nunca…

Em busca de soluções, a menção a Pound vem a calhar novamente. Octavio Paz, Augusto e Haroldo de Campos, José Lino Grünewald e todos os que se interessam por Pound, interessam-se por sua poesia, não por seu fascismo; Augusto de Campos, quando fala de Dante Alighieri, fala do autor da “Vida Nova” e da “Divina Comédia”, não do monarquista; se Nero tivesse sido bom poeta, certamente seria matéria nos cursos de Estudos Clássicos. Ao que tudo indica, na Literatura, os fazeres literários vêm antes dos fazeres políticos.

Todavia, cabe indagar: separar poetas e prosadores de suas ideologias faria do estudo da Literatura uma disciplina alienada e alienante das condições sociais da produção dessa mesma Literatura? Em palavras mais diretas, esse ponto de vista faria, da Literatura, uma matéria burguesa? Estudar o fazer literário apenas enquanto forma literária seria uma concepção crítica de direita?

Se as formas literárias forem identificadas aos embelezamentos da palavra – o beletrismo –, acompanhados de esvaziamento do conteúdo, certamente que se trata de estudo bastante estéril. Todavia, as formas literárias podem ser utilizadas para desenvolver a inteligência e a criatividade; os estudos literários podem, sem se afastarem da História da Literatura, ser aproximados da Educação Artística. Em outras palavras, trata-se de ensinar, nas escolas, a fazer poesia e outras formas literárias em prosa, além de dissertações.

O soneto, por exemplo, pode ser definido formalmente, em linhas gerais, como poema de quatorze versos de dez sílabas, com acentuações tônicas e rimas predeterminadas, dispostos em dois quartetos e dois tercetos. Em meio a tantas coerções, o soneto pode parecer difícil de ser feito, entretanto, ninguém faz sonetos contando sílabas. Cada verso metrificado tem uma prosódia própria – uma certa “música” particular – por meio da qual o poeta se põe a compor. Os músicos conhecem esses procedimentos muito bem; percussionistas costumam memorizar divisões complicadas por meio de solfejos rítmicos – as talas indianas são aprendidas assim –. Basta memorizar essas fórmulas prosódicas para começar a compor sonetos, madrigais, versos livres, etc.

Além do mais, o soneto tem suas histórias temáticas, dos sonetos renascentistas e barrocos aos sonetos experimentais da pós-modernidade. Na história temática do soneto, há muitos poetas célebres, entre eles: há os sonetos racistas de Gregório de Matos e os sonetos contra racistas de Luiz Gama; há os sonetos machistas de Vinícius de Moraes e os sonetos gays de Glauco Mattoso.
Por tudo isso, aprender a fazer sonetos – ou outras formas literárias –, implica em aprender a metrificar, mas também implica em desenvolver visões críticas a propósito dos temas abordados pela Literatura. Desse modo, longe de transformar os estudos literários em matéria reacionária, o ensino das formas literárias como educação artística pode compensar, sem se desviar das questões temáticas, a ênfase dada na ética dos autores, que tanto os compromete como seres humanos.

Fonte: Carta Maior

A loucura do coração

Abril 30, 2016

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‘Nise – o coração da loucura’ é um filme que deve fazer parte do ensino e pesquisa das universidades brasileiras tanto na área artística quanto médica.

José Carlos Peliano*

Um sinal do coração basta para que se abra um paraíso ou um inferno. Um limbo talvez se a batida paradisíaca ou infernal, irrompendo-se de repente e ao mesmo tempo, for do mesmo tom e intensidade, quando uma se contrapõe à outra. Esta é a sintonia-espera-distonia, a loucura, de cada coração no decurso de sua sinfonia quotidiana.

Nise: o coração da loucura, filme dirigido por Roberto Berliner, leva o coração a descompassar nos três estados evocados. As sequências de cenas transportam sentimentos de um lado a outro da tríade. Um rio de três margens ao se abrir um vértice de terra no meio do leito principal.

Enquanto o coração navega por esse rio, às vezes sombrio, outras ensolarado, muitas vezes caleidoscópico, quase nunca apaziguado, a tela se faz coração e pulsa pelos personagens que se encontram e desencontram entre si através de seus conflitos internos. Densamente povoados.

De fato, o filme se intromete no interior dos espectadores, em cada coração, e cada espectador ao revés vê seus sentimentos reverberados na tela. Uma conjugação de sentimentos visuais e sanguíneos na sequência de um roteiro limpo, exato, doce e seco, tateando como convém na busca da expressão da loucura.

Nise era bem assim. Limpa, exata, doce e seca, mas da textura do outono aprazível, não a do inverno cortante. Não era de poses melodramáticas, superficiais, contidas ou abundantes. Dizia muito em pouco. Seus olhos eram o mapa de seu coração, além de seus gestos largos ao se estenderem no trato do outro para compreender e enlaça-lo.

Uma folha seca saída do galho de uma frondosa árvore. Desce lenta, suave, tranquila, ave sem asas. Até se deitar mansamente no solo. Na verdade, o solo a espera desde seu desprendimento para acolhe-la de corpo inteiro. Admirado. Ninguém passou por Nise sem ser aguilhoado no doce ou no seco.

A face doce e a face seca disputavam lugar em Nise. O filme consegue mostrar esse enigma, rico enigma, humana composição, que a fez de uma pequena e frágil mulher ser imensa, inigualável, grandiosa, ainda que simples, amiga, companheira, ouvinte.

Glória Pires incorporou Nise no que ela tinha de mais substancial: a intuição da certeza nas coisas que acreditava e fazia acontecer. Uma glória de atriz, também simples, direta, econômica de gestos, mas transbordante de expressões. Uma interpretação marcante.

A batalha de Nise com o corpo psiquiátrico do Hospital do Engenho de Dentro foi um dos grandes marcos de sua vida. Uma flor agreste em meio a uma manada de búfalos. A humanidade viva, cristalina, em ebulição, contra a desumanidade dos choques elétricos, as lobotomias, o descarte da vida.

Berliner consegue transpor à tela a viral e descabida prepotência da classe médica diante de qualquer novidade clínica, fora dos padrões imperiosos estabelecidos, mesmo que singela, pura, criativa. Que se torna exuberante ao fim ao trazer dos recônditos da alma humana, ou de onde sabe-se lá de onde, a linguagem esquecida, atordoada, imersa, da dignidade humana, do amor nas pontas dos pinceis e dos dedos dançarinos.

Os atores que interpretaram os pacientes, ou clientes, ou internos, conseguiram transmitir as subjetividades de cada um. Realidades díspares, fragmentadas, sofridas, com o liame comum da vivência sem relógio, intervalo, sequência. Mas de um turbilhão no cruzamento conflituoso de ontem, agora e quando?

Todos acompanham o espírito da estória. A rebeldia, a tenacidade e a força de Nise perpassa por todos os atores. Uma bandeira de luta, persistência e emponderamento vai tomando corpo ao longo do filme, levando junto os espectadores. Uma união ao final.

Algumas salas de projeção presenciaram palmas quando terminou o filme. Outras muitos comentários e expressões ao longo da projeção. Na que eu estive, em São Paulo, uma plateia inquieta. Muitos ficaram para ver por fim os créditos do filme na tela. Até escurece-la por completo.

No mínimo, um filme que remexe com as pessoas, seus sentimentos, nossas fragilidades e fortalezas humanas. No máximo, um soco no estômago por nos mostrar o papel fulminante que Doutora Nise da Silveira desempenhou em sua vida em prol da vida dos internos. Teve o mérito de ter seu trabalho reverenciado por Carl Gustav Jung.

Considerados pela visão psiquiátrica convencional irrecuperáveis, escória da sociedade, tornam-se os internos verdadeiros artistas da pintura, reconhecidos, nada mais, nada menos, pela abalizada opinião do grande crítico de arte e literatura da época, Mário Pedrosa.

A vida médica de Nise, trazida ao conhecimento do grande público brasileiro pelo filme de Berliner, ressuscita com brilhantismo a atuação profissional de uma profissional responsável e de fibra. E do mesmo modo de humanismo e compaixão.

Além de servir o filme de libelo contra tendências conservadoras que ressurgem na sociedade médica brasileira, pretendendo trazer de volta os instrumentos de incapacitação total de internos sob o manto falso e hipócrita de avanços técnicos e científicos no tratamento de esquizofrênicos crônicos.

Nise lutou sozinha contra o sistema estabelecido na psiquiatria dos meados do século passado. Como a folha seca do outono. Dura quando preciso entre os pares, mas afetuosa quando sempre no convívio com os internos. O afeto que se encerra em nosso peito juvenil, levou Nise a compor o hino nacional dos brasileiros do Hospital de Engenho de Dentro. Hino de liberação, descobrimento, vida e comunhão.

Coube a Berliner e sua equipe tão bem resgatar a vida dessa brasileira inesquecível. Eu, como amigo dela, socialistamorena.com.br/nise-o-gato-e-… %u22C, senti-me presenteado com o filme. O rigor do roteiro e a sobriedade da direção não deixaram de me emocionar ao recordar todo o tempo que com ela convivi.

Um filme que deve fazer parte do ensino, pesquisa e didática das universidades brasileiras tanto na área artística quanto médica. No conhecimento científico brasileiro cabe um lugar exponencial o trabalho de Nise. Cujo maior mérito foi o de resgatar o princípio segundo o qual para se tornar igual ao seu semelhante,  sem querer ser mais, nem menos, cada um deve respeitar as diferenças e com elas conviver.

*colaborador da Carta Maior

A produção fabril e Manoel de Barros

Abril 5, 2016

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Manoel de Barros descobriu que a riqueza está presente nas coisas simples, e que essa riqueza libera o homem para usufruir o que a vida tem de desconhecido.

José Carlos Peliano*

A invenção da semana foi uma maneira inteligente de nos fazermos lembrar que a vida deve ser levada por etapas, dia a dia. De segunda a domingo e assim sucessivamente. Se bem que há diferenças: a sexta feira é o melhor dia da semana, porque traz logo em seguida o descanso de sábado e domingo, e domingo à noite o período do limbo, porque abre no dia seguinte, segunda feira, a semana de trabalho.

Assim, a repetição das semanas nos faz instruir que cada dia é um novo dia, quando se abrem possibilidades de não só encerrar ações e atividades anteriores assumidas, quanto nos favorece com chances de novas ações e possibilidades para melhorar de vida. E segue o barco dias afora.

O resultado final é o de nos entronizar na tessitura da vida social e econômica, incluindo na primeira as dimensões política e cultural. Repetir cada dia de cada semana como nova janela de admissão à vida que nos sobrou da noite passada. Nessa repetição, entretanto, há duas maneiras de vê-la.

Na vida ocidental, industrial e urbana, aos poucos sendo incorporada também a área rural, a tradição trazida desde o advento da máquina na produção de bens e serviços, combinada com a religião reiterada pelos arautos do progresso material, martela a convicção assumida pelos cidadãos de toda a parte desse planeta de que se deve repetir, repetir, repetir, cada dia de toda semana, para que se faça o mesmo de modo mais eficiente, eficaz e produtivo. Lucrativo ao final das contas.

Na percepção fina, arguta e sábia de Manoel de Barros, o grande poeta mato-grossense, hoje ordenhando nuvens e borboleteando estrelas, todos nós, ao contrário do peso imposto pelo trabalho secundado e minutado pelo relógio, devemos repetir, repetir, repetir, cada dia de toda semana, para que se faça o mesmo de modo diferente, mais criativo, prazeroso e suficiente.

Entre esses limites deve estar a melhor maneira de levar a vida, embora o peso do espirito capitalista supere o espírito Manoelista, claro! Dirão os engravatados e as customizadas, que Manoel era avoado, desparafusado, um “poeta” entre aspas mesmo. Para esses, Manoel era moldado em barros, diversificado, imponderável, daí não entender o primado e o propósito da produção fabril repetitiva e sequenciada.

Não é verdade, porém, que ele desconhecia a repetição e o sequenciamento. Tanto conhecia que vislumbrou e utilizou em sua vida a repetição para sequenciar outras formas diferentes de ver, entender e refazer o mundo. E não é a isso que o sistema japonês de produção industrial chegou perto ao rever a sequência fordista? Reorganizou a linha de montagem em ilhotas produtivas no chão da fábrica para produzir o mesmo de forma diferente?

Só que, por suposto, prevaleceu o espírito capitalista: produzir o mesmo de forma diferente mais eficiente, eficaz e produtivo porém. E ao final, escusado outra vez dizer, mais lucrativa.

O espírito Manoelista foi achado na natureza, diretamente dos bichos, das árvores, das águas dos regatos, das sombras das lagartixas, enfim, foi formado pela observação da simplicidade, da temporalidade e da “economicidade” da harmonia reinante no meio ambiente.

Manoel de Barros foi um ambientalista autodidata, além de humanista e fazendeiro do ar, como diria Drummond. Aprendeu, em suas palavras, “renovar o homem usando borboletas”, que “a maior riqueza do homem é a sua incompletude”,  e que não aguenta “ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis …”.

Manoel contrapõe viver com simplicidade ao viver pelo consumismo extremado. Descobriu a sua maneira, como tantos outros, que a riqueza está presente nas coisas simples, sejam elas quais forem. Essa riqueza libera o homem para descobrir a vida e dela usufruir o que ela tem de desconhecido, bom e melhor. Especialmente a relação social com todos os outros seres vivos da natureza.

Subjugou o tempo ao seus interesses, desejos e maquinações. Não ficou prisioneiro do relógio que não lhe dava tempo para ter tempo para fazer o que queria, mesmo sendo coisa alguma. O dia a dia lhe valia mais que as imposições da cultura, tradições e costumes. Um rebelde com causa.

Sua economia de tempo lhe rendeu uma das obras mais ricas, intrigantes e brilhantes da poesia brasileira. Nossa literatura não seria a mesma sem ele. Aprendeu a brincar com as palavras que lhe vinham da observação aguçada e engenhosa dos mundos: ao seu redor e ao seu interior.

Um poeta que mostrou como a vida econômica poderia ser mais salutar e justa e menos desigual. Era um dos 99% pelo pouco que lhe fazia viver, mas um do grupo do 1% pelo muito que retirava do pouco que tinha. Não lhe interessava consumir coisas padronizadas, mas apenas coisas sem vitrines. Não lhe interessava acumular notas e valores financeiros, mas tão somente notas e valores pantaneiros.

Seu programa pessoal de austeridade incluía não ter mais que o necessário para andar, vestir, alimentar, manter a casa, trabalhar e passear. Viver era sua maior recuperação social e econômica, com os amigos, com os seus bichos, com a natureza. Especialmente com o amigo que pouco falava, mas encantava pássaros.

Ao contrário da austeridade da Sra. Lagarde, da turma do FMI, dos senhores do BCE e da União Europeia, além do recém eleito Macri. Todos eles não leram Manoel de Barros, mas se enlamearam no barreiro que fizeram nos países aos quais recomendaram ou aplicaram a austeridade financeira.

Estudo da Universidade Católica da Argentina mostrou que, com a chegada de Macri ao poder, a pobreza no país deu um salto de 29% de dezembro do ano passado para 34,5% agora em março. Cerca de 1,4 milhão de argentinos foram responsáveis pelo aumento dos pontos percentuais da pobreza.

O aumento da pobreza veio pela desvalorização da moeda argentina em 30%, além da inflação resultante do corte de subsídios e do aumento do gás em torno de 300% e da tarifa de água perto de 375%. Nesse pacote de austeridade entra também o aumento da tarifa de ônibus e do preço final da gasolina.

A austeridade de Manoel de Barros era para si próprio, mas no sentido de viver bem e melhor com pouco, já a austeridade de Macri e demais integrantes do 1% é a de retirar dos outros, dando-lhes inflação e desemprego.

Há que se ensinar o poder do remediado, mas afluente de vida, Manoel de Barros, desde o jardim da infância para derrubar a visão hegemônica do austericídio dos endinheirados, mas miseráveis de vida.

White God – A vingança dos oprimidos

Março 30, 2016

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Filme húngaro foi filmado com cerca de 200 cães treinados e conta a história de uma gangue de cachorros que saem às ruas para se vingar dos maus tratos.

Léa Maria Aarão Reis*

Foi numa visita por acaso a um abrigo público de cães que o húngaro Kornel Mundruczó – uma das vozes mais originais do cinema húngaro contemporâneo – encontrou inspiração para fazer o contundente filme White God  (Feher Isten ou seja, deus branco), em cartaz nas principais cidades brasileiras neste fim de verão. Filmado com cerca de 200 cães treinados por uma equipe de dez profissionais e com a americana Teresa Ann Miller, tida como uma das mais conhecidas adestradoras de animais do mundo, a produção deste jovem diretor é dedicada ao célebre colega, cineasta Miklós Janksó, morto aos 92 anos de idade.

A visita deixou-o em estado de choque. Ele descreve. “Eu me senti tão envergonhado vendo aqueles cães atrás das cercas apenas esperando pela sua morte que escrevi o roteiro sobre eles em apenas um mês; eu estava muito comovido.”

White God deixou o Festival de Cannes de 2014 de queixo caído pela sua força e originalidade. Arrebatou o prestigioso prêmio do certame paralelo Un Certain Regard e ganhou uma divertida “Palma Dog” para o melhor cão ator, naquele ano.


Misto de hiper realismo e de realidade, mas com traços de distopia, o filme de Mundruczó abre com uma cena impressionante que prenuncia a violência que virá. Nada que lembre filmes bem comportados e edulcorados sobre cães e suas relações afetivas com os humanos como Marley e eu, Beethoven, Hachiko ou 1001 Dalmatas. Sua narrativa é seca, objetiva e não concede a sentimetos e sentimentalismos mesmo bem intencionados.

Na abertura, uma menina, Lili, anda de bicicleta pelas ruas de uma cidade de Budapeste deserta, quando, de repente, mais de cem cães dobram uma esquina e começam a correr atrás dela. A partir dali a história é narrada em flashback. Hagen, o líder da matilha, meses atrás vivia com sua dona, a menina da bicicleta. Para não pagar a taxa cobrada pela prefeitura a quem é proprietário de cachorros vira-latas, o pai da garota, que detesta Hagen, o joga fora.

Inicia-se então a dolorosa jornada do cão. Ele vai parar nas mãos de um mendigo e é vendido para um treinador de cães de briga que o transforma em uma máquina de matar. Quando consegue escapar, Hagen monta uma gangue gigantesca de furiosos cachorros que saem às ruas para se vingar de todos os que o maltrataram e promovem um incrível arrastão pelas ruas de Buda e de Pest.


Lili, estudante de música, será a única que poderá deter os cães, com a melodia que toca no seu trompete. O último plano do final do filme, que permanece aberto, com ela deitada na rua na frente dos 200 cães também sentados, depois de acalmá-los com sua música, é uma das mais fortes imagens em tela de cinema, em tempos recentes. Arrebatador. 


Dois cachorros labradores gêmeos, Luke e Body, fazem o papel de Hagen. “Foi uma experiência terapêutica,” disse o autor do filme, em entrevista na época do lançamento na Europa. ”Os cães usados vieram da Sociedade Protetora dos Animais de Budapest, e no final dos trabalhos todos eles foram adotados,” garante.

White Goddeus branco – remete a um clássico do americano Samuel Fuller, Cão Branco (White Dog, de 1982), que também narra a história de um cão treinado para matar e é uma alegoria das relações racistas e da luta de classes. Ao mesmo tempo homenageia o romance de ficção científica dos irmãos russos Arcady e Boris Strugatsky, É difícil ser um Deus.

A produção de Mundruczó não é uma simples diversão. Carrega forte crítica social, cultural e política a uma Europa que vergonhosamente fecha as portas aos imigrantes refugiados das guerras que ela própria estimula, no seu alinhamento subserviente aos interesses econômicos e geopolíticos americanos. É uma crítica em particular ao próprio governo atual do seu país, de direita radical, que a eles fecha suas fronteiras de modo criminoso. “Para ser um artista independente na Hungria não é fácil,” anota Mundruczó.


O diretor diz que a história de White God foi inspirada nas relações sociais cada vez mais hostis dos dias de hoje “quando o senso de superioridade parece ser um privilégio da civilização ocidental. Ao invés das minorias, escolhi os animais como símbolo para a ultra violência sofrida pelos mais frágeis e pelas minorias sem defesas,” ele explicou.


“Desviamos muitas vezes nossos olhos dos recantos mais sombrios da sociedade – é o caso do tráfico de pessoas – como se fossemos Deus que vê a sua criação à distância. Mas quando Hagen é abandonado porque sua raça misturada faz dele um animal de estimação indesejável, sua dramática jornada acaba incitando uma revolução.”


A poderosa metáfora política e cultural criada por Kornel, que descende, em parte, de romenos, foi co-produzida  com dinheiro da Alemanha e da Suécia. E a sua principal inspiração, quando adolescente, veio do cinema de Rainer Werner Fassbinder, e, mais tarde, de Robert Bresson e de Akira Kurosawa, excelentes companhias, mas também dos brilhantes filmes de ficção científica pós apocalípticos criados pela Hollywood dos anos 90 – Terminator e Blade Runner.


Ainda vamos ouvir falar bastante – e bem – do autor de White God. E a leitura desse seu projeto cinematográfico radical e, por que não? pré-apocalíptico, vindo agora da distante Hungria vale para o nosso tempo e para o nosso momento de enorme tensão política, aqui, no Brasil: os oprimidos, injustiçados,  os caluniados e humilhados, os perseguidos de todas as formas voltarão sempre, em multidão e organizados, para a sua revanche.

*Jornalista e autora de Novos Velhos, Maturidade e Cada um Envelhece como Quer (e como pode)

Como ganhar dinheiro à custa de oito milhões de empregos

Fevereiro 10, 2016

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O filme ‘A Grande Aposta’ mostra que a ganância é a mola que impulsiona a ansiedade sem limites e reforça a insensibilidade diante do sofrimento humano.

Léa Maria Aarão Reis – http://www.umacoisaeoutra.com.br

A rigor, a história do filme A Grande Aposta (The Big Short), que está na corrida para ganhar um Oscar este ano, não deveria ser uma comédia dramática; deveria ser um drama. Ou melhor: deveria ser uma tragédia. Mas para se tornar palatável às grandes plateias, a linguagem escolhida para tratar de assunto tão específico (Economia) foi a do quase deboche.

No bojo do roteiro escrito pelo seu diretor, Adam McKay, e baseado no livro homônimo de Michael Lewis sobre a avassaladora crise financeira de 2007/2008, cuja origem ocorreu nos Estados Unidos, os dados conclusivos são sombrios.

Cinco trilhões de dólares de aposentadorias de idosos americanos viraram pó. Oito milhões de indivíduos perderam os empregos e seis milhões de pessoas viram suas casas – seu único bem – se transformar em dívida impagável.

Contabilizada no filme de Mckay, esta é a conta obscena de uma monumental crise capitalista iniciada lá atrás e ainda agora longe de acabar. Embora a mídia e jornalistas econômicos hoje silenciem sobre o assunto (mais uma vez, aliás), a bolha do desastre americano estourou, mas voltou a inchar e se perpetua até aqui como mostra The Big Short, com um elenco de estrelas, magníficos atores de Hollywood da nova geração: Christian BaleSteve CarellRyan Gosling e Brad Pitt. Trunfos para chamar e prender a atenção.

Outro achado inteligente é o tratamento dinâmico, com pequenas legendas esporádicas que de vez em quando surgem na tela e explicam ao espectador as referências da engrenagem que move o universo de Wall Street; bancos, agências reguladoras (que não regulam coisa alguma exceto seus interesses), dealers, corretores, investidores, todos caçando dinheiro grosso diante de monitores e  nos bares de downtown,  movidos a Zoloft e a Xanax (como é sublinhado no filme) e nos esnobes restaurantes japoneses da moda.
“Os termos complexos que os economistas usam, ”diz um personagem,” são propositais, para confundir as pessoas.”

A história começa alguns anos antes do estouro. Os personagens são reais. Mostra Michael Burry (Christian Bale), dono de uma empresa de porte médio, no interior do país, um nerd alucinado que decide investir uma fortuna do fundo que coordena ao apostar que o sistema imobiliário nos Estados Unidos quebraria dentro de alguns poucos anos. Sacrilégio. Nunca antes alguém apostara contra o sistema e levado vantagem. Mas algumas poucas pessoas foram capazes de enxergar isso e Burry foi uma delas. No final do boom, ficou ainda mais bilionário do que já era apostando contra os bancos e, portanto, contra o mercado imobiliário americano.

Ao saber do investimento de Burry, um corretor, Jared Vennett (Ryan Gosling), percebe que ali está uma oportunidade e passa a oferecê-la a seus clientes. Um deles é Mark Baum (Steve Carell),  outro alucinado, um atormentado pelo suicídio do irmão e alimentado com tranquilizantes.

Em narrativa paralela, dois iniciantes na Bolsa de Valores percebem que também podem ganhar muito dinheiro ao apostar na crise imobiliária que se avizinha; procuram e pedem conselhos e orientação a um ex-guru de Wall Street, Ben Rickert (Brad Pitt), então aposentado, que vive recluso com a mulher, numa fazenda na Europa entre plantas e sementes (da Monsanto).

O dinheiro e a ganância que manipula as expectativas são as molas que impulsionam a ansiedade sem limites e reforçam a insensibilidade diante do sofrimento humano. “ Para os bancos,” diz o experiente Rickert/Brad Pitt,” os seres humanos são meros números.”

O filme acompanha o ritmo sem fôlego dos personagens tanto nas reuniões brutais com analistas experientes do Goldman Sachs, às gargalhadas, assegurando que o mercado nunca quebraria porque o sistema “é extremamente sólido”, assim como na cena em que o cínico redator de economia do Wall Street Journal se recusa a produzir e publicar uma matéria de advertência, mesmo acreditando que ocorrerá o boom, para “não perder minhas fontes” – e o emprego dele, naturalmente.

E ilustra bem como, durante o período anterior à crise, apesar de perceberem o que acontecia, as agências de risco e outros agentes do mercado financeiro ajudaram, como normalmente fazem, a esconder o desastre anunciado. “As mesmas agências de risco que avaliam hoje o Brasil de maneira pior do que avaliam economias bem menos estáveis, como a russa,” ressalta o advogado Marcos Villas – Bôas, depois de ver o filme.

“Isto se chama fraude! É dinheiro que deveria ir para a saúde, alimentação, para a educação, e está indo para o ralo,” exclama um agente financeiro, quando começa a quebradeira, antes da visita de Benjamin Bernanke e Alan Greenspan à Casa Branca – e mencionada no filme de passagem -, para pedir o resgate do governo… aos bancos. “As pessoas comuns são as que vão pagar por isto!” diz o corretor.

“Até hoje a grande maioria das pessoas não entende o que ocorreu,” diz outro. “As pessoas tendem a não pensar em coisas ruins e acham que coisas ruins nunca vão acontecer.”

Num dos bares de Washington onde se reúne a nata do pessoal do mercado,  o cartaz na parede sobre o balcão relembra: ”Em geral, as pessoas odeiam a verdade; e a verdade é como a poesia.” Já a legenda com assinatura do poeta japonês Murakami é clara: ”No fundo do coração, todos nós esperamos o fim do mundo.”

O fim do mundo ocorreu – ou está ocorrendo aos poucos?

No final de A grande Aposta algumas cifras corroboram essa sensação para além do desastre financeiro; a de fracasso humano.

Depois da explosão do mercado, em 2007/2008, apenas um banqueiro foi preso. Entre 2009 e 2012 a renda de 1% da população americana aumentou 32%. Os restantes 99% de indivíduos do país mal viram seus salários subirem 1%. Sessenta mil pessoas são homeless – sem teto. Dormem em abrigos públicos e vivem de dia pelas ruas de Nova Iorque. Dessas, quase a metade são crianças.

Para um dos mais sérios economistas brasileiros, Marcio Pochmann, da Unicamp, “quase oito anos após o seu começo, a crise capitalista de dimensão global segue sem saída à vista. Ao que parece, avizinha-se uma quarta onda de sua manifestação.”

E o pior, se é que pode haver um dado ainda pior apresentado no final de A Grande Aposta: no ano passado, os bancos começaram a vender bilhões de dólares em investimentos chamados Bespoke Tranche Opportunities (BTOs), que, segundo os especialistas dizem, é  um outro nome para CDOs, aqueles mesmos causadores do apocalipse de oito anos atrás.

*Jornalista. Autora do livro Novos Velhos.

Sangue e molho de tomate em Hollywood

Janeiro 29, 2016

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Enquanto Iñarritu preconiza, mesmo que de viés, a cartilha do neoliberalismo, Tarantino critica essa ferocidade e estiliza a violência radical.

Léa Maria Aarão Reis

Por uma dessas confluências que por vezes acontece – talvez seja o acaso, tão caro a Woody Allen – e determinam mudanças inesperadas na vida humana, dois filmes de produção americana remetem ao gênero reciclado do faroeste e ocupam, quase ao mesmo tempo, as telas de cinemas das principais cidades do país.

Um deles é o festejado e grande favorito do Oscar deste ano, O Regresso, obra de um diretor mexicano, Alejandro Iñarritu, de 53 anos, educado nos Estados Unidos, co-autor de famosas produções realizadas no seu país de origem – como Babel21 gramas e Amores brutos –  e cooptado, depois, pela indústria de Hollywood.

O outro é Os oito Odiados, de Quentin Tarantino, cineasta nascido no Tennessee, filho de índia cherokee e criado em Los Angeles, onde foi balconista de famosa locadora de vídeos em Manhattan Beach. Tarantino estudou arte dramática, é um cinéfilo apaixonado por filmes desde criancinha, e o seu filme The Hateful Eight está cotado na disputa pelo prêmio máximo do cinema americano, apenas pela sua trilha musical original – por sinal excelente, do mestre Ennio Morricone, que aos 87 anos, já aposentado, convidado pelo diretor, seu fã ardoroso, aceitou fazer este trabalho.

Qual a diferença entre o reconhecimento e o entusiasmo da grande maioria dos seis mil membros da Academia de Artes e Ciências de Hollywood – diga-se de passagem: dos quais 94% são brancos, 77% são homens e 86% têm mais de 50 anos – pelo filme protagonizado por Leonardo di Caprio, e a frieza com que é recebido o filme do californiano premiado, no passado, em Cannes, autor do festejado Cães de Aluguel e de Jackie Brown, seus primeiros filmes, reconhecidos clássicos do cinema americano – assim como Pulp Fiction (Palma de Ouro) e Kill Bill?

“A maioria dos filmes de Quentin Tarantino pós-Jackie Brown podem ser resumidos a um grande tema: vingança. Cada um deles se concentra em um personagem oprimido se vingando de um personagem opressor, conectando o pessoal ao social de forma habilidosa,” observa o crítico Caio Coletti, do Observatório do Cinema.

Em Os oito Odiados a ação se passa logo após o término da Guerra Civil americana, cuja questão central foi a abolição da escravatura. O filme discursa sobre racismo e a forma como o preconceito permeia relações sociais. No final, um segredo revelado é um recado mais poderoso que apenas uma vingança moral simplista.

São 187 minutos de filme (três horas e dez minutos) de tal modo absorvente que o espectador não sente o passar do tempo, tal a agilidade, o dinamismo e a inteligência cinematográfica da câmera e o talento de brilhantes atores, vários deles assíduos na  filmografia de Tarantino: Samuel L. Jackson, Kurt Russel, Tim Roth, Michael Madsen, Bruce Dern e uma magnífica Jennifer Jason Leigh. Ela faz uma assustadora vilã, Dayse Domergue, a super odiada da história.

Confinados numa sala fechada de uma estalagem durante uma grande nevasca, o grupo passa as horas seguintes, juntos. Dois caçadores de recompensas tentam levar suas vítimas para a prisão, onde receberão dinheiro. Uma delas, a louca e agressiva Daisy Domergue, ainda está viva. No caminho, os três  encontram um homem que diz ser xerife e pega carona com eles. A sala soa como uma panela de pressão. Tensão e violência seguem num crescendo cuja música acompanha a atmosfera com mestria. Sangue estilizado afoga espectadores e inunda a tela.

No caso de O Regresso, Iñarritu se detém na trajetória de Hugh Glass (Leonardo Di Caprio) que parte para o oeste americano disposto a ganhar dinheiro caçando. Atacado por um urso, é seriamente ferido por ele e abandonado à própria sorte pelo parceiro John Fitzgerald (Tom Hardy), que rouba seus pertences.  Glass consegue sobreviver apesar do destino ingrato e inicia  árdua jornada em busca de vingança.

Diretor de Birdman, Iñarritu tinha visto a carreira dar uma esfriada após o filme Babel. Sua briga com o companheiro de roteiro, o escritor também mexicano Guillermo Arriaga, determinou o ostracismo do diretor. Arriaga, que sempre declarou que “sem roteiro não existe filme”, não aceitava mais o protagonismo único do companheiro que não reconhecia nele a co-autoria dos filmes realizados em parceria.

Mas o cineasta se radicou em Los Angeles e voltou com força para disputar, este ano, um segundo Oscar consecutivo. A bela trilha musical do seu filme é de outro mestre, Ryuichi Sakamoto.  E os efeitos sonoros, o som e a mixagem são irretocáveis, um cartão de visitas de grandiosa produção. O espectador se sente em meio a um extraordinário cenário. Para muitos, é mais uma obra do homem contra a natureza. Mas há quem ache que é mais que isso. A luta pela sobrevivência é parte importante da história salpicada de cenas e sequências brutais, de ultra violência. Sua poesia visual, no entanto, a segue.

Quais as semelhanças e as diferenças, então, desses dois neo-faroestes desta temporada de começo de ano, de dois diretores da mesma geração de uma indústria cinematográfica que pretende a renovação?

Enquanto Iñarritu preconiza, mesmo que de viés, a cartilha do neoliberalismo, da exaltação dos valores individuais, dos valores eminentes, americanos, e da meritocracia, que inclui a luta contra a natureza (!) e, mais abrangente, a batalha brutal diária, contemporânea, pela sobrevivência – e sai dela vencedor, é claro -, Tarantino, por outro lado, critica essa ferocidade, estiliza a violência radical, ousa rir dela pretendendo assim desmistificá-la e desconstruí-la, e transforma o sangue usado pelo seu colega em molho de tomate.
Eu ri muito durante o filme de Tarantino. Tanto que, sem perceber, acabei incomodando a platéia que o recebia à sério. Fui repreendida pelos psíus dos companheiros de sessão e precisei continuar rindo baixinho para não perturbar a ordem conservadora vigente.

*Jornalista. Autora do livro Novos velhos e co-autora de Nada muito.

Chico, da Mangueira, cidadão brasileiro

Dezembro 31, 2015

Rennan Teixeira

Mais ainda que artista, Chico é cidadão brasileiro. Um dos cidadãos mais estimados do país, e o documentário sobre sua vida prova isso.

Léa Maria Aarão Reis*

Entre as histórias, vinhetas, músicas, e deliciosas lembranças que ele proporciona, no filme documentário de cerca de duas horas sobre sua vida e trajetória, um presente maior e “soberano” de fim de ano aos cinéfilos e não cinéfilos, uma observação de Chico Buarque resume sua maneira de ser. “Se eu precisasse me identificar, eu falaria ‘eu sou Chico, da Mangueira’, ele diz, em uma das oito entrevistas registradas no filme do seu amigo, o cineasta Miguel Faria Jr., com o título de Chico– Artista brasileiro. Mais ainda que artista, Chico é cidadão brasileiro. Um dos cidadãos mais estimados do país, dentro e fora do bairro do Leblon, no Rio de Janeiro, onde foi abordado e insultado, na calçada, há dez dias, por meia dúzia de pilantras desocupados.

A bilheteria do filme que estreou um mês atrás e já vinha com um desempenho de sucesso embora concorrendo com um campeão de público, Guerra nas Estrelas, ganhou uma dimensão ampliada com a imediata, imensa e indignada repercussão nacional sobre o lamentável episódio em que Chico foi agredido por suas posições políticas.

Está sendo exibido em circuito nacional: Brasília, Rio, São Paulo, Curitiba, Porto Alegre, Goiânia e Belo Horizonte. Ao final das sessões, que já vinham superlotadas, o documentário continua sendo aplaudido, e a sala se emociona. Como numa espécie de desagravo simbólico a um dos seus maiores ídolos da MPB; a um dos nossos escritores vivos mais interessantes, (em especial pelo seu livro O Irmão Alemão), mas, sobretudo ao cidadão exemplar que ele sempre foi e é.

Miguelzinho, (autor de mais dois outros lindos docs musicais; Vinícius e Lamartine Babo), como Faria Jr. é conhecido desde os anos 60, assíduo do mitológico restaurante Antonio’s, no Leblon, é amigo de longa data de Chico. Daqueles de andar no calçadão em sua companhia, em paz, sem que ninguém incomode ou perturbe o mito. “São cinco décadas de amizade; e agora, para o filme, 20 horas de gravações de entrevistas sem nada de recomendações particulares ou restrições por parte dele,” diz.

Sobre uma contradição sugerida por Chico, que se diz mais da ala literária, apesar de se ver de preferência como da “turma da música”, o diretor esclarece: “Acho que ele se refere a isso, de haver muita panelinha entre os autores. O pessoal da música é mais descontraído. Não tem aquela coisa, entre aspas, de ser escritor”.

Outro lance, no filme, revelador da sua elegância – no sentido total: educação, reserva, discrição e respeito pelos outros – características que faltam aos fascistas – é a história contada por um dos seus músicos. Chico gosta, antes dos shows, de sair do seu próprio camarim para bater um papo no espaço reservado aos músicos veteranos que o acompanham de longa data. “Quando bate na porta a gente já sabe. É ele. Só o Chico faria isso: bater na porta do camarim antes de entrar.”

Um entrevistador sempre invisível conduz a estrutura narrativa do doc intercalando falas do protagonista com preciosas imagens. Sequências de fotos de álbum de família – Maria Amélia, sua mãe, com o bebê Chico no colo, na Copacabana dos anos 40. Filmetes caseiros, trechos de shows históricos, arranjos emocionantes de autoria de Luiz Claudio Ramos. Interpretações antológicas: as de Ney Matogrosso e da portuguesa Carminho são de arrebatar;  e tem Betânia ontem e hoje; Péricles, Laila Garin, Monica Salmaso,  Calcanhoto, Mart’nália, e pequenas entrevistas/flashes com amigos de toda vida.

Chico e Bob Marley numa pelada, no Rio, jogando futebol. “Sabe”, conta Chico, rindo, “que num museu que reúne tudo sobre Marley perguntaram a ele quem era aquela figura ao seu lado, aqui”, e aponta uma foto dos dois, com a bola, emoldurada, na parede do seu estúdio, entre outras tantas. “O guia disse: bem, este é um cantor alemão…”

O saudoso Hugo Carvana lembra o olhar do amigo dirigido a Marieta Severo quando a viu pela primeira vez, andando, na porta do teatro. “Perguntou: ‘quem é?’ Não era o olhar do homem para uma mulher que achava gostosa; era o olhar de quem está querendo saber o motivo do atraso da moça;  ‘mas onde ela estava que só apareceu agora?’ o seu olhar indagava.”

Há imagens dele com o grupo de escritores e intelectuais frequentadores da célebre cobertura de Rubem Braga, em Ipanema. Paulinho Mendes Campos, Tom, Sabino, Millor, Otto, o fotógrafo Paulo Garcez (são de Paulinho diversas fotos usadas no filme) e Chico, bem mais moço que todos, conversando com um Manuel Bandeira idoso, numa de suas raras e últimas aparições.

E há discrição nos assuntos da vida privada, do casamento e da família. Miúcha é entrevistada e três dos seus sete netos fazem música acompanhada por ele, no seu apartamento; antes da sessão, na cozinha, o avô serve bolachas guardadas dentro do pote. Comenta-se no filme a renovação do seu público.

O casal Chico e Marieta no exílio, em Roma, ele sendo entrevistado, responde em fluente italiano. O retorno ao país e a raiva pela censura sistemática às suas composições, e sua surpresa vendo a ditadura apoiada por grande maioria da sociedade civil. “Fiquei impressionado com a quantidade de carros com os adesivos de ‘Brasil ame-o ou deixe-o’.

Outro tema sobre o qual conversa, é o da memória e das lembranças. Também da “memória falsa”, irmã da “fantasia e da imaginação.” “Por exemplo, eu lembro que vi o Zepelin passando, do colo da minha avó; tenho certeza! É uma memória falsa. Naquela época não exista mais Zepelin voando para o Rio…”

Imagens para a passagem entre sequências, são da mata e da imensidão de um mar esparramado sob o janelão da sala de Chico, ao pé do emblemático Morro dos Dois Irmãos. Outras, dele em Berlim  onde foi parar buscando rastros deixados pelo irmão, Sergio Günther, que realmente existiu, foi cantor e compositor. Chico cantarola A Banda numa versão alemã.

A impecável montagem de Diana Vasconcellos de todo este material e a bela fotografia de Lauro Escorel – todos são trabalhos das amizades de Chico. A colaboração do escritor Eric Nepomuceno e das amigas jornalistas Martha Alencar e Regina Zappa. Os figurinos de Marília Carneiro.

Poético, jornalístico e de uma delicadeza muito particular, este Chico – artista brasileiro onde o compositor fala de uma solidão que não sente: “Gosto de estar sozinho; trabalho, leio, escrevo, vejo futebol na TV.” Disfarça e desmente, para surpresa geral, a imagem de grande tímido: “Na família, quando eu era menino, me chamavam de showboy.”

O tempo que passa deixando pouco tempo para projetos. Shows, músicas novas, gravações, livros. Faz as contas de quanto tempo levará para fazer tudo isto, desiste e ri. Ele ri muito.

Chico pertence a uma espécie que,  ao contrário do que se pensou, neste ano, não se encontra em extinção. A prova são as quase 40 mil pessoas que, pela internet, estão saudando o ano novo tomando uma cervejinha com Chico. Nós nos juntamos ao brinde. Que 2016 dê passagem para Chico Buarque de Holanda, cidadão brasileiro.

*Jornalista

A Vida de Brian: Pelos direitos humanos, contra a realidade

Dezembro 28, 2015

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No filme, religião e política se misturam. A religião é vista de maneira política e a política tratada como religião com seu elenco de verdades absoluta.

Léa Maria Aarão Reis*

Brian Cohen nasceu no ano de 33, na província da Judéia, quando a Roma imperial ocupava a região através do seu preposto, o prefeito Pôncio Pilatos. Brian nasceu no canto de uma manjedoura, vizinho de outro bebê que também viera a este mundo na mesma hora: o menino chamado Jesus. Desde os primeiros momentos, a existência de Brian foi atribulada por sempre confundirem-no com o bebê do lado. Quando sua execrável mãe enxotou os três Reis Magos e deles tentou surrupiar o ouro que traziam destinado na verdade ao bebê vizinho, a cupidez humana se mostra entranhada na sua saga. Mais adiante, a ignorância, a alienação da massa histérica repetindo dogmas e mantras de forma cega e robotizada, e o cinismo do ambiente são a moldura da breve vida de Brian, morto crucificado aos 33 anos por ordem do juiz Pilatos sem qualquer culpa formada – exceto a de exalar carisma, motivar e mobilizar as massas, e entusiasmar os indivíduos humildes, aqueles que eram “o problema”, no dizer dos personagens dos burgueses ricos.

Uma sucessão inacreditável de mal entendidos e de lances do acaso, (o mesmo acaso do qual fala Woody Allen nos seus filmes), pontuam a vida de Brian. Esta sua trajetória é narrada no brilhante filme Life of Brian, de 1979, hoje um clássico do cinema  inglês, de autoria do cineasta Terry Jones, integrante do genial grupo Monty Python*. O mesmo grupo que sacudiu a forma de fazer humor, no mundo inteiro, nas décadas dos 70/80, inclusive no Brasil, inspirando o gênero batizado aqui de besteirol.

O filme de Jones, quando estreou, foi criticado ferozmente e dividiu opiniões apaixonadas. Houve e há ainda quem o veja como um filme antissemita. Os católicos viram nele uma blasfêmia. Mas outros o avaliam como uma genial e demolidora crítica à sociedade, até hoje atual; o que o filme na verdade é.

No ano 33, na Judéia, Brian vive uma vida paralela à de Jesus Cristo e sofre por ser confundido com ele. A confusão começa quando finge ser um pregador para fugir dos centuriões, mas tem suas pregações levadas a sério, arrastando atrás de si uma horda de seguidores. Para escapar da perseguição dos romanos, Brian se alia a uma coligação de grupo de oposição ao regime, a esquerda (ou a guerrilha) da época: a mais radical, a Frente do Povo Judeu; a Frente Judaica do Povo e a Frente Popular, esta representada por apenas um único homem velho, remanescente.

Por sua vez, pregam: “Jesus não percebe que abençoado é qualquer um bem vestido e à procura de status.”

As três organizações trabalham juntas “em defesa dos direitos humanos e contra a realidade”, em momentos específicos, por conveniência. Planejam sequestrar Pilatos. Na verdade, não se entendem e se detestam. Lutam por uma mesma causa, mas não conseguem conquistar uma vitória porque brigam e disputam todo o tempo entre si, nas intermináveis reuniões teóricas e até na violência física.

A farsa, para o Monty Python Terry Jones é permanente. Camelôs vendem pedras aos que se encaminham para assistir o espetáculo dos apedrejamentos. Algumas, pedras pontiagudas, outras achatadas, grandes ou pequenas, conforme o gosto do freguês. Alusão clara aos linchamentos da mídia e aos fetiches do consumo.

No filme, religião e política se misturam. A religião é vista de maneira política e a política tratada como religião com seu elenco de verdades absolutas. O Outro nunca conta, é claro.

Em uma das intermináveis reuniões dos grupos ‘guerrilheiros’ discutem-se quais os benefícios trazidos pelos romanos para os judeus. Para além dos aquedutos, das estradas, saneamento, irrigação, cultura vinícola, educação, casas de banho, medicina. “Mas e para nós? O que fizeram por nós?” eles se perguntam.

“Eu não sou o Messias,” berra Brian, tentando, desesperadamente, esclarecer a confusão de identidades. O povo insiste: “É, sim!” “Então vocês vão se f…”, responde Brian, desanimado e entregando os pontos. Mas a massa/zumbi insiste e pergunta: “E como devemos  nos f..?”

“Pensem pela sua cabeça porque vocês são independentes! Vocês devem cuidar de vocês mesmos! Não deixem que os outros mandem em vocês!” vocifera Brian, procurando se desvencilhar da horda.

O velho leproso, curado por um “maldito milagre”, se lamuria, num canto. Antes, como um leproso, era mais fácil para ele ganhar a vida pedindo esmolas.

Duas sequências de A Vida de Brian são particularmente empolgantes. Diálogos que manejam o virtuosismo da inteligência em alta voltagem. Uma, no palácio, com Pilatos, que sofre de um distúrbio da fala, a dislalia, e troca ‘rs’ pelos ‘ls’. O juiz que condenará Brian sem culpa formada – quanta atualidade aí para o espectador brasileiro, neste momento – interroga Brian e, ao mesmo tempo, submete seus guardas à tortura ao proibir os acessos de risos deles diante do ridículo das suas falas. Se os centuriões não conseguirem reprimir o riso, serão presos e executados.

Outra sequência magistral é a do grand finale com a crucificação. Dezenas de prisioneiros são encaminhados por um burocrata romano ao Gólgota. A fila e o controle social são bem organizados. Já pregados e amarrados nas cruzes, os castigados acabam cantando, em coro, como num musical de Hollywood, a bonita composição que se tornou célebre no mundo inteiro e se transformou na marca musical do Monty Python: ”Dê um sorriso e olhe sempre para o lado bom da vida. (Always look on the bright side of life).

O autor da canção é Eric Idle, ator, escritor, cantor, compositor e guitarrista, hoje com 72 anos. Foi um ativo membro do grupo britânico. Com essa sua célebre composição, Idle provoca no espectador, nesse final da vida de Brian, não gargalhadas, mas  sorrisos amarelos.

É que conviver com néscios é dureza. Só é suportável sorrindo.


*Jornalista


**Alusão ao general Bernard Montgomery, herói britânico da Segunda Guerra Mundial.