Archive for Abril, 2018

DOCUMENTÁRIO RESGATA OBRA E PENSAMENTO DO TROPICALISTA ROGÉRIO DUARTE

Abril 30, 2018

RogérioFilme de José Walter Lima homenageia um dos maiores nomes da contracultura brasileira, o multi-artista que foi designer gráfico, tipógrafo, músico, poeta e um dos criadores da Tropicália.

por Xandra Stefanel, especial para RBA

Há exatos 50 anos, nascia o disco-manifesto Tropicália, o marco fundador de um dos mais importantes movimentos musicais brasileiros. Para celebrar a efeméride e render uma justa homenagem, o cineasta, produtor e artista plástico José Walter Lima lançou esta semana nos cinemas o documentário Rogério Duarte, o Tropikaoslista, que dá voz ao ao multi-artista que é considerado mentor e um dos idealizadores do movimento tropicalista. 

A arte, as lembranças, as crenças, os hobbies e as reflexões sobre a Tropicália são apresentados por meio de um longo depoimento de Rogério Duarte. Não há entrevistas com outros artistas, amigos nem familiares. Na tela, fala apenas Duarte e imagens de arquivo dão conta do rico e conturbado universo do baiano nascido em Ubaíra.

“Esse trabalho é uma tentativa de uma retomada da vanguarda artística do cinema brasileiro. Trata-se de um documentário sem as mesmices pachorrentas, cheio de entrevistas. Só quem fala é o protagonista. Nesse caso, Rogério Duarte. Ao longo desses anos, o que vemos é um deserto total no que se refere ao cinema de linguagem. Dentro desse conceito foi realizado esse filme, contando a magnitude tropical desse maravilhoso pensador, ator de muitas ações nos bastidores que contribuíram para mudar os paradigmas da cultura”, afirma o diretor José Walter Lima.

Duarte é o criador das capas dos principais discos tropicalistas, entre eles de álbuns de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Jorge Mautner, além de cartazes de filmes, como Deus e O Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe Idade da Terra, de Glauber Rocha, o anárquico grito contra a ditadura Meteorango Kid, Herói Intergaláctico, de André Luiz Oliveira, O Desafio, de Paulo Cezar Saraceni, e Cara a Cara, de Julio Bressane.

Tropikaoslista

Gênio marginal

Ao sair da missa de sétimo dia do estudante Edson Luís, no Rio de Janeiro, Rogério e seu irmão foram sequestrados por agentes da ditadura. A brutalidade que sofreu durante os dez dias de tortura e o período que passou na prisão transformaram para sempre a vida do artista que, depois, teve de se esconder em sua cidade natal durante muitos anos em um processo que ele chama de “inxílio”.

“Eu fui uma pessoa muito próspera e auspiciosa até uma determinada época. Depois da prisão, eu fui para o hospício, eu fui arrasado, digamos assim. Quando eu saí da prisão, eu vi a diferença: ninguém queria mais conversa comigo porque os ‘homens’ estavam atrás de mim, entende? Todos fecharam a porta. Todos. Primeiro, eu fui preso em abril e torturado, mas escapei e fiquei meio louco. Durante esse período, até o fim do ano, eu vivi uma vida de zumbi. Foi aí que ninguém queria mais me receber em lugar nenhum. Aí, eu pirei legal, né? Até que minha família me pegou e internou em São Paulo. No fim do exílio de Caetano, encontrei com ele na Bahia e disse: ‘Agora, nunca mais vou dar sopa’. Aquele charme discreto da burguesia nunca mais vai me pegar de novo”, declara Rogério no longa.

Não faltam, aliás, alfinetadas na turma que compunha o movimento tropicalista. “Há um componente político na Tropicália que foi um pouco esquecido. Se vamos falar do nosso tropicalismo, da Tropicália do Hélio [Oiticica], também do Caetano, sem dúvida nenhuma… Mas não dessa coisa que dizem da música popular que virou grife, meio colonizada e que também muito importa, mas [que] não tem a mesma contundência de protesto, de manifestação, de revolução, de transformação no nível político”, diz.

E continua: “Havia ideias tropicalistas que foram abandonadas. As próprias roupas que a gente usou na época do movimento, que o Guilherme [Araújo, então empresário de Caetano e Gil] comprava de Carnaby Street [em Londres]… A ideia inicial era figurinos feitos por Lina Bardi. Então, o Guilherme dá um jeito de ‘beatinizar‘ o tropicalismo. Na medida em que o establishment reencorporou o tropicalismo e o colocou a seu serviço, eu disse ‘Estou fora’.”

Em uma das metáforas mais bonitas do filme, Rogério Duarte explica sua postura marginal. “Como a gente era, assim digamos, à gauche [do francês, à esquerda] da Tropicália, eu fiz um trecho que se chama Marginália. Sou marginal porque descobri que a margem fica dentro do rio. Isso era muito mais importante porque era um paradoxo. A margem fica dentro do rio e não na margem. Mas o rio era o Rio de Janeiro.”

O engajamento na programação visual da União Nacional dos Estudantes, a UNE, as agitações tropicalistas com o grupo baiano e Hélio Oiticica, seus contatos com a Bossa Nova, a profunda amizade que nutria por Glauber Rocha, a descoberta do xadrez aos 50 anos, a vida de sitiante no interior da Bahia, sua dedicação ao movimento Hare Krishna e a descoberta do câncer também são abordados no filme.

Outro destaque é a participação de dois de seus companheiros tropicalistas na homenagem feita porJosé Walter Lima: Caetano Veloso canta Gayana, de autoria de Rogério, e Gilberto Gil interpreta Não Tenho Medo da Vida, que compôs depois de uma conversa com o Rogério.

Apesar da linearidade que não combina muito com a obra do protagonista, Rogério Duarte, o Tropikaoslista apresenta ao público a obra e o pensamento de um gênio provocador que nem sempre teve os créditos e a atenção que mereceu. Uma pena que esta celebração tenha chegado aos cinemas só dois anos depois de sua morte, em 2016.

CartazRogério Duarte, o Tropikaoslista
Direção: José Walter Lima
Elenco: Rogério Duarte, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Paquito, Carlos Rennó, Luis Caldas, Armandinho, Diogo Duarte
Distribuição: O2 Play
Ano: 2016
País: Brasil
Gênero: Documentário
Duração: 88 minutos

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‘O PROCESSO’ ABRE DA PROGRAMAÇÃO DE CINEMA PELA DEMOCRACIA

Abril 29, 2018

Sucesso de crítica e de público, documentário será exibido na praça Santos Andrade, no centro de Curitiba, nesta segunda (30). A partir do dia 4, a Mostra passa a ser exibida na vigília Lula Livre.

por Redação RBA

Vencedor da competição internacional de documentários Visions du Réel, em Nyon, na Suíça, e escolhido pelo público como o terceiro melhor da mostra Panorama, do Festival de Berlim, “O Processo”, de Maria Augusta Ramos, vai abrir a programação da Mostra de Cinema pela Democracia em Curitiba que começa nesta segunda-feira (30), às 19 horas, na praça Santos Andrade, no centro.

Na praça Santos Andrade haverá sessões nos dias 2 e 3, sempre às 19 horas. E nos dias 4, 5 e 6, no mesmo horário, os filmes serão exibidos no acampamento Marisa Letícia, perto da Polícia Federal, onde o ex-presidente Lula está preso desde 7 de abril.

Mostra Cinema pela Democracia é uma iniciativa de produtores, cineastas, técnicos e artistas em uma organização coletiva e suprapartidária, unidos na luta pela democracia em todos os âmbitos, e contra os retrocessos que vêm sendo incessantemente impostos.

Segundo a organização, exibir o documentário no âmbito da vigília Lula Livre é uma maneira de somar forças à resistência pela democracia incessantemente golpeada neste país. “Iremos resistir com arte, lutar nas ruas e nas telas! Agir na disputa de narrativas que se trava no Brasil sob golpe legislativo, jurídico e midiático”, diz a mensagem na página da mostra.

As apresentações são gratuitas, ao ar livre. Mas toda e qualquer contribuição até o fim da ação é bem vinda para ajudar a cobrir compromisso assumidos durante a produção.

REPRODUÇÃOO processo documentário
Cartaz oficial do documentário O Processo, de Maria Augusta Ramos

Alguns dos títulos já confirmados na programação são: Linha de Montagem, de Renato Tapajós; Martírio, de Vincent Carelli: Joaquim, de Marcelo Gomes; Peripatético, de Jéssica Queiroz e Nóis por Nóis, de Jandir Santin e Aly Muritiba.

450 horas

Para realizar o documentário, Maria Augusta acompanhou durante meses o processo que levou ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff mesmo sem a existência de crime de responsabilidade.

No total reuniu 450 horas de filmagens feitas por ela e sua equipe nos corredores do Congresso Nacional, em entrevistas coletivas, sessões de votação na Câmara dos Deputados e no Senado – um testemunho nunca mostrado dos bastidores do golpe de estado de 2016.

Depois de Berlim e da Suíça, o documentário estará no Canadá, em Portugal, na Espanha, Inglaterra e volta para a Alemanha, desta vez para Munique.

JOHNNY HOOKER MANIFESTA APOIO A LULA DURANTE SHOW EM CURITIBA

Abril 28, 2018
Redação

Brasil de Fato | Curitiba (PR)

Johnny Hooker chamou Lula de "ícone da história do Brasil - Créditos: Divulgação
Johnny Hooker chamou Lula de “ícone da história do Brasil / Divulgação

Na noite desta sexta-feira (28), durante show em Curitiba, Johnny Hooker manifestou apoio ao ex-presidente Lula, a quem chamou de “ícone da história do Brasil”.

“Eu quero falar de um ícone da história do Brasil que está preso aqui. É um ícone da história do Brasil, quem não concordar, desculpa, só respira”, brincou. 

“Ele falou uma coisa que tem reverberado na minha cabeça. Eles podem matar uma ou duas rosas, mas não podem deter a chegada da primavera”, disse o artista pernambucano sobre o ex-presidente. “Eles são a Matrix, nós somos a resistência. […] A gente sabe que quando chegar o carnaval, a gente vai pular na cabeça dos fascistas”, completou. 

A plateia acompanhou em coro com “Lula Livre”. A intervenção durou cerca de um minuto. O show aconteceu no Teatro Marista, no bairro São Lourenço.

Hooker apresentou seu novo disco Coração, que tem parceria com Liniker na faixa “Flutua” e Gaby Amarantos, na música “Corpo Fechado”. O pernambucano desponta como um dos maiores nomes da atual música brasileira, com o sucesso do álbum “Eu Vou Fazer uma Macumba pra Te Amarrar, Maldito!“, seu primeiro solo. 

(vídeo: Franciele Petry Schramm/Brasil de Fato Paraná) 

Edição: Ednubia Ghisi

EXPOSIÇÃO DE ARTE CONTEMPORÂNEA AFRICANA REVELA ÁFRICA DIVERSA E ABUNDANTE

Abril 28, 2018

ÁFRICA

Fotos, instalações, pinturas e vídeos de 20 artistas oriundos de 18 países africanos e dois brasileiros

Juliana Gonçalves

Brasil de Fato| São Paulo (SP)

Obra "Genesis" –  do artista e ativista do Zimbábue Kudzanai Chiurai  - Créditos:  Kudzanai Chiurai/ Goodman Gallery
Obra “Genesis” – do artista e ativista do Zimbábue Kudzanai Chiurai / Kudzanai Chiurai/ Goodman Gallery

Do passado colonial às grandes metrópoles, das ferramentas utilizadas para a escravização de africanos às influências musicais de hoje, a exposição Ex Africa revela um continente efervescente e talvez ainda pouco conhecido.

Depois de passar por Belo Horizonte (MG) e pela cidade do Rio de Janeiro (RJ), onde foi visitada por mais de 200 mil pessoas, a exposição chega a São Paulo, onde fica até 16 de julho, com entrada gratuita.

O Centro Cultural Banco do Brasil foi o local escolhido para abrigar as cerca de 90 obras de artistas vindos de Gana, Senegal, Zimbábue, Angola, entre outros países do continente.

O curador da exposição, o alemão Alfons Hug, que foi diretor do Instituto Goethe em Lagos, na Nigéria, conta como o acervo pode surpreender quem ainda tem uma visão única com relação à produção africana.

“Tradicionalmente a arte africana era considerada muito próxima ao artesanato ou de peças etnográficas, um preconceito, o que temos hoje é uma linguagem de arte contemporânea mesmo. E ela é para mim uma das melhores que se encontra hoje no mundo”, diz.

O nome da exposição parte do frase “Ex Africa semper aliquid novi” que significa “de África sempre há novidades a reportar”, cunhada há mais de 2 mil anos pelo historiador romano Caio Plínio.

Dividida em quatro eixos temáticos –Ecos da História, Corpos e Retratos, O Drama Urbano e Explosões Musicais–, a mostra acentua os laços ancestrais com a história do Brasil e desnuda um continente que se reconstruiu após a colonização de maneira diversa e desigual.

Série de auto-retratos do senegalês, Omar Victor Diop | Crédito: Divulgação

Hug aponta que algumas obras trazem inclusive retratos de uma África próspera, muito antes do continente ser sistematicamente saqueado e destruído.

“A África do século 16, 17 e 18, na Europa, era associada a riqueza e prestígio e vários reis alemães, duques e barões se vestiam como africanos. Então essa noção da miséria africana vem muito mais tarde, provavelmente do século 19. Historicamente, a África era um lugar de luxo e prestígio”, pondera.

Ao lado do senegalês Omar Victor Diop, conhecido pelos retratos fotográficos posados, o sul-africano Mohau Modisakeng, que discute por meio de uma video-instalação as marcas deixadas pelo apartheid, e o nigeriano Jelili Atiku, estão dois brasileiros. Arjan Martins e Dalton Paula exibem obras produzidas ao longo de uma pesquisa realizada em um bairro brasileiro em Abuja, capital da Nigéria.

“Ex Africa acontece em um momento em que o Brasil está reavaliando a herança africana em todos os eixos, político, econômico, social e cultural, e apesar de todos os problemas que possam existir, eu diria que existe um certo avanço nas artes visuais que tradicionalmente são um domínio da classe média branca, onde os artistas afrodescendentes conquistaram espaços nos últimos 10, 15 anos”, avalia. 

Outro domínio que não é apontado por Hug é o masculino nas artes. Se há um ponto negativo a se levantar é, sem dúvidas, a ausência de mulheres africanas ou brasileiras na exposição. Há apenas uma mulher entre os artistas; questionado pelo Brasil de Fato sobre a obra de Ndidi, o curador explicou que considera o trabalho “bastante masculino e até mesmo violento”.

A nigeriana Ndidi Dike, expõe feridas de um passado ainda recente ao trazer para o centro da sua obra objetos do tempo do comércio de escravos como algemas, moedas e anúncios onde pode-se ler: “vendem-se negros”. 

Obra da artista nigeriana Ndidi Dike| Crédito: Juliana Gonçalves

Além das cores e formas, a música africana de hoje é explorada na videoinstalação do artista angolano Nástio Mosquito e na reprodução em uma das galerias do que seria a música popular africana de hoje. Segundo o curador, poder, sexo, dinheiro e religião são temas habituais na produção musical.

Quem visita Ex Africa pode se surpreender ao ver que a conexão Brasil-África não está fincada necessariamente num passado distante, mas também em referências diaspóricas bem mais fluídas e presentes do que pode-se imaginar.

Serviço

Ex Africa

De 28 de abril a 16 de julho de 2018 | quarta a segunda-feira, 9h às 21h.

Entrada gratuita

Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo

Rua Álvares Penteado, 112 – Centro, São Paulo-SP

Edição: Diego Sartorato

‘PAGLIACCI’ CELEBRA A FIGURA DO PALHAÇO E HOMENAGEIA DOMINGOS MONTAGNER

Abril 27, 2018
CINEMA
Documentário acompanha a produção da versão teatróloga e circense da ópera homônima reinterpretada pela Lamínima, companhia criada em 1997 por Fernando Sampaio e Montagner, que morreu em 2016
por Xandra Stefanel, especial para RBA. 
DIVULGAÇÃOMontagner e Sampaio

‘Pagliacci’ é o primeiro espetáculo que Sampaio (esq.) faz sem Montagner, seu amigo e parceiro há mais de 20 anos

“Eu não estou aqui para dizer que as lágrimas que aqui choramos são falsas, embora o riso seja verdadeiro. Eu estou aqui para contar o que lembro e para lembrar que todo artistas é um ser humano e todo ser humano é um tolo. E talvez essa tolice seja a nossa salvação. A vida não é uma ópera, como queria Machado de Assis, mas um circo. E somos todos – todos! – palhaços: presidente, político, policial, por trás de uma aparência séria, tentam disfarçar suas ridículas misérias”, anuncia o personagem Tonio na abertura do documentário Pagliacci, que estreou nesta quinta-feira (26) nos cinemas.

Dirigido pelo quinteto Chico Gomes, Julio Hey, Luiza Villaça, Pedro Moscalcoff e Luiz Villaça, o longa-metragem é uma homenagem poética ao ofício do palhaço e ao ator Domingos Montagner, que morreu afogado no Rio São Francisco, em 2016, no intervalo entre as gravações da novela Velho Chico, da Rede Globo.

Além de reflexões filosóficas sobre o “ser palhaço” e a importância de rir de si mesmo, o filme acompanha a produção da peça circense-teatral Pagliacci, uma versão da ópera italiana homônima reinterpretada pela companhia LaMínima. Ele também conta a história desta trupe criada pelos atores e palhaços Montagner e Fernando Sampaio, ou Agenor e Padoca, que trabalharam juntos por mais de 20 anos.

DIVULGAÇÃOEncontro
Fernando Sampaio visita Roger Avanzi, o famoso Palhaço Picolino

Este é o primeiro espetáculo que Sampaio faz sem a presença física de seu parceiro e amigo de longa data e o documentário faz jus à memória de Montagner. A dupla que em 2008 ganhou o Prêmio Shell de Teatro SP de Melhor Ator com a peça A Noite dos Palhaços Mudos se conheceu no Circo Escola Picadeiro, em São Paulo. Foi lá que se tornaram “discípulos” de Roger Avanzi, o lendário Palhaço Picolino, e aprenderam esta profissão considerada uma das mais antigas da humanidade.

O encontro de Sampaio com Avanzi é um dos pontos altos do filme, quando a admiração e a amizade entre mestre e pupilo faz transbordar generosidade e emoção. Sampaio relembra o que sentiu ao ver Picolino pela primeira vez: “Quando eu conheci ele [sic] em cena, junto com a dupla, que era o Pinguim, um anãozinho deste tamanhinho, foi muito encantamento. A criança, quando vê o Batman, ela pensa em ser o Batman ou o He-man ou um grande herói, né? Quando vi Roger atuando, eu falei: ‘Acho que esse é o ofício que eu teria prazer em fazer’”, declara.

DIVULGAÇÃOCircoCompanhia LaMínima em ‘Pagliacci’

O riso e a vida

As reflexões que a produção promove sobre a necessidade humana de rir e, especialmente, de rir de si mesmo, são trazidas à tona por meio de entrevistas com vários palhaços e cenas do dia a dia de ensaio da companhia LaMínima. A fotografia de Pedro Moscalcoff harmoniza e traz ainda mais poesia aos depoimentos, além traduzir em imagens a incrível transformação que ocorre quando os atores e atrizes encarnam seus personagens.

Para o italiano Leris Colombaioni, do circo Ercolino, fazer rir é fundamental para a humanidade. “O palhaço é aquela pessoa que percorre o mundo com a esperança de proporcionar riso e alegria, de contribuir para a vida da humanidade. Por isso mesmo o encontramos em tantas partes do mundo, em diversos lugares. É um personagem universal, o encontramos em zonas de guerra, de paz, nas praças, nas ruas, nos metrôs, nos hospitais, em toda parte”, diz.

“O palhaço é uma pessoa livre, exagerada em sua humanidade, e que tem como objetivo fazer rir. Há palhaços profissionais, que vivem da profissão, e há muitos palhaços na vida, nas famílias, nos bairros, entre amigos. É uma atitude”, afirma o Fernando Cavarozzi, que interpreta o palhaço Chacovachi. “As pessoas quando veem um palhaço, se reconhecem em suas estupidezes e veem nele características que gostariam de ter. O que faz o palhaço: perde a dignidade com dignidade. E a pessoa quando perde a dignidade se traumatiza por toda a vida. O palhaço é aquele que cai e se levanta com a mesma alegria. O palhaço provoca, delira, denuncia”, continua o argentino.

DIVULGAÇÃOParceria
Montagner e Sampaio

 Além da paixão pela arte, o que Pagliacci apresenta ao espectador é o trabalho de artistas completos. “Eles são músicos, eles são atores, eles são acrobatas, eles são palhaços. Eles retomam essa tradição de ‘super artistas’ e colocam novamente o palhaço no lugar de destaque. Quando Duma [Domingos] e Fernando ganham o prêmio de Melhor Ator do Prêmio Shell por Uma Noite dos Palhaços Mudos, é como se coroassem esse grande artista, essa grande personalidade que são os palhaços”, pontua Veronika Tamaoki, coordenadora do Centro de Memória do Circo.

O longa do quinteto de diretores da Bossa Nova Films é uma ode ao riso, à arte, ao circo e à alegria, este sentimento de leveza e contentamento cada vez mais difícil de alcançar neste país que ultimamente tem ganhado mais e mais tons de cinza. Vem à tona o desejo de lutar para voltar a ter vontade de sorrir pois, como diz o argentino Fernando Cavarozzi no filme, “ninguém pode estar em paz com algo do qual não pode rir”.

CartazPagliacci
Direção: Chico Gomes, Julio Hey, Luiza Villaça, Pedro Moscalcoff, Luiz Villaça

Argumento: Luiz Villaça
Roteiro: Guilherme Quintella
Produção: Denise Gomes, Paula Cosenza, Luciana Lima, Fernando Sampaio
Produção executiva: Adriana Tavares
Fotografia: Pedro Moscalcoff
Som direto: Adriano Vasquez, Guilherme Lessa, Luciano Raposo, Marcelo Lopes, Robson Lima, Rodrigo Amorim, Tales Manfrinato
Montagem: Gabriel Lancman
Edição de som: Daniel Sasso e Toco Cerqueira
Mixagem: Toco Cerqueira
Trilha sonora original: Marcelo Pellegrini
Texto e adaptação da peça Pagliacci: Luís Alberto de Abreu
Elenco/Personagens: Alexandre Roit, Alice Viveiros de Castro, Carla Candiotto, Cesar Guimarães, Chico Pelúcio, Claudio Carneiro, Erica Stoppel, Fernando Cavarozzi, Fernando Paz, Fernando Sampaio, Filipe Bregantim, Keila Bueno, Luciana Lima, Marcelo Lujan, Roger Avanzi (Picolino), T´ófanes da Silveira, Verônica Tamaoki

PORTAL FÓRUM: GÊMEOS DA PARAÍBA LANÇAM “NESSE TREM”, PRIMEIRO CD DA CARREIRA

Abril 26, 2018
  Acaba de ser lançado o disco “Nesse Trem”, do Som D’Luna, formado pelos gêmeos Vitor e Diogo Luna. De João Pessoa, os irmãos, que decidiram caminhar juntos pela música, lançam o seu primeiro CD gravado em estúdio, totalmente autoral, com composições que vão desde o baião ao soul/funk.

Com 11 faixas e produzido no estúdio Gota Sonora, em João Pessoa, o “Nesse Trem” carrega uma variedade de estilos diferentes, conectados por timbres, histórias, texturas e arranjos. Um disco que guarda os olhares dos gêmeos sobre a vida, sobre os amores, as paixões que os fazem vibrar e acordar dispostos, sobre enxergar com esperança cada recorte das horas. “Esse disco é uma tentativa de escancarar uma relação entre nós e as sonoridades que nos fizeram chegar a decisão da música”, afirmam. “Dormimos e acordamos pensando em dividir aquilo que amamos fazer e achamos que não tem algo que descreva melhor esse momento do que: uma incessante busca de sempre fazer música com o coração. Fazer esse trabalho com toda entrega possível”.

Sob direção geral do paulista Jader Finamore (os Fulano), mixagem de Renato Oliveira e arranjos de Vitor Luna e Diogo Luna, Jader Finamore e Ítalo Viana (baixista), o disco foi finalizado junto a uma campanha bem-sucedida de financiamento coletivo. Fazem parte do disco ainda, os bateristas Thiago Jorge, Herbert José e Gilson Machado, os tecladistas Uaná Barreto e Renato Oliveira, o percussionista paulista Luccas Martins (Serelepe), além do saxofonista Joab Andrade, o trompetista Emanoel Barros, o trombonista Sabiano Araújo, o violoncelista Tom Drummond, o flautista Renan Rezende e o clarinetista Thompson Moura. Violões e guitarras por conta dos irmãos gêmeos.

 Vitor e Diogo Luna

Nascidos e residindo em João Pessoa (Paraíba), os irmãos começaram sua história profissionalmente com apresentações em bares locais, casamentos, recepções e festas fechadas. Com o tempo, um repertório autoral ganhou corpo e, em 2013, uma nova percepção sobre o mercado se consolidou buscando novos caminhos, que vieram em seguida, em 2014, com uma apresentação na Usina Cultural Energisa (João Pessoa –PB) e, logo depois, a pedido de um produtor musical, um período em Portugal, onde realizaram apresentações em diversas casas, inclusive na Avenida da Liberdade, principal avenida de Lisboa.

De volta ao Brasil, gravaram em home studio e de forma independente o EP “Secura”, formado por 7 faixas autorais e executadas de forma acústica, basicamente vozes, violões e, em algumas canções, percussão. O EP foi importante para os irmãos se tornarem conhecidos na cidade, com músicas tocando em diversas rádios locais e virtuais, com destaque para o single “Mais Ninguém”, gravado depois da estreia do disco, atingindo uma divulgação inesperada na programação diária das emissoras e redes sociais.

 

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O ROCK PROGRESSIVO DO SOM NOSSO DE CADA DIA ESTÁ DE VOLTA. POR CARLOS MOTTA

Abril 25, 2018

por Carlos Motta

No fim dos anos 60 e início dos anos 70 do século passado, bandas como Yes, Emerson, Lake & Palmer, Pink Floyd, King Crimson, Genesis e outras deram vida nova ao rock, com músicas melódica e harmonicamente mais elaboradas, letras que saíam do lugar comum do “I love you, baby” e abordavam temas complexos, além de contarem com virtuoses em suas formações. Na falta de algo melhor, esse tipo de rock ficou conhecido como “progressivo”.

Um dos grupos mais emblemáticos do rock progressivo nacional foi o formado em 1972 por Pedro Baldanza, o Pedrão (baixo, viola e vocal), Pedrinho Batera (bateria e vocal) e  o ex-Incríveis Manito (teclados, sax, flauta e violino), batizada de Som Nosso de Cada Dia, que lançou em 1974 o LP “Snegs”, um dos melhores discos brasileiros do gênero.

Em 1977, eles saíram com o álbum “Som Nosso”, que trouxe no lado A (“Sábado”) funk e soul e no Lado B (“Domingo”) rock progressivo. Mesmo com a boa repercussão do disco, o grupo acabou se dissolvendo em 1978.

Em 1994 houve o ensaio de um retorno, com a gravação do disco “Live’94”, mas com a morte inesperada e prematura de Pedrinho Batera no ano seguinte, o grupo resolveu parar mais uma vez. Em 2004, houve nova reunião para uma série de apresentações que foram até o ano de 2010, quando se agravou a doença que levou Manito a falecer, em 2011.

Nesses 46 anos de existência, o grupo passou por diversas formações, caminhos musicais e poéticos distintos, sendo descoberto e redescoberto, geração após geração. No dia 5 de maio, o público vai poder comprovar se a banda passou mesmo pelo teste do tempo, no show programado para começar às 20 horas no Teatro Municipal João Caetano, em Niterói. A promessa é recriar o lendário álbum “Snegs” – uma tarefa e tanto. 

Os ingressos podem ser comprados em www.ingressorapido.com.br/event/6476/d/27135 .

O Som Nosso de Cada Dia volta à ativa sob a batuta de um de seus fundadores, Pedro Baldanza, que terá a companhia de Pedro Calasso (Projeto Preto Véio), percussão e vocal, Marcello Schevano (Casa das Maquinas/Golpe de Estado/Carro Bomba), guitarra e vocal, Fernando Cardoso (Violeta de Outono), teclados, e Edson Ghilardi (Terreno Baldio) na bateria.

O show é resultado da jovem parceria entre a produtora Vértice Cultural, a Rádio Beprog, a Masque Records e a Moshi Moshi Produtora, abrindo uma importante ponte aérea Rio-SP de rock progressivo.

O retorno à carreira artística deve mesmo ser para valer, já que a banda prepara um novo disco, só com músicas inéditas, para ser lançado no segundo semestre deste ano.

Se ele trouxer apenas uma pequena parcela da competência musical da banda em seus primórdios, o rock nacional ficará muito agradecido.

ELZA SOARES LANÇA PRIMEIRO SINGLE DO NOVO ÁLBUM ‘DEUS É MULHER’

Abril 25, 2018
MÚSICA
‘Banho’, de autoria da cantora e compositora paulistana Tulipa Ruiz e com participação do bloco afro feminino Ilú Obá de Min, chegou às plataformas digitais nesta sexta-feira
por Redação RBA.
 
DARYAN DORNELLES/DIVULGAÇÃO

Elza

Tulipa Ruiz: ‘Banho’ traz Elza como personificação de toda essa energia feminina, molhada e forte

A energia feminina dá o tom de Banho, primeiro single do novo álbum de Elza Soares, divulgada nesta sexta-feira nas plataformas digitais. Com uma pegada eletrônica e guitarra potente, a faixa composta pela cantora e compositora Tulipa Ruiz tem participação do bloco afro feminino Ilú Obá de Min nas vozes e percussão. A faixa faz parte do álbum Deus é Mulher, previsto para ser lançado no dia 18 de maio pela Deckdisc.

“Acordo maré/ Durmo cachoeira / Embaixo, sou doce/ Em cima, salgada/ Meu músculo musgo/ Me enche de areia/ E fico limpeza debaixo da água// Misturo sólidos com os meus líquidos/ Dissolvo pranto com a minha baba/ Quando tá seco, logo umedeço/ Eu não obedeço porque sou molhada// Enxáguo a nascente e lavo a porra toda/ Pra maresia combinar com o meu rio, viu?/ Minha lagoa engolindo a sua boca/ Eu vou pingar em quem até já me cuspiu, viu?”, provoca a letra de Banho, que pode ser ouvida aqui.

Enquanto seu último trabalho, Mulher do Fim do Mundo, denuncia mazelas da sociedade, o novo disco parece se inspirar no renascimento de uma nova era possibilitado pela energia das mulheres. “O produtor Guilherme Kastrup me pediu uma música para o disco bem na semana em que eu havia descoberto minhas ligações com duas poderosas Orixás, Oxum e Iemanjá. Eu estava muito encantada com essas divindades, suas representações simbólicas e divagando muito sobre as águas que produzimos. As que saem dos nossos olhos, da nossa boca e do nosso sexo. Banho veio desse momento de limpeza e alumbramento e traz Elza como personificação de toda essa energia feminina, molhada e forte”, afirma a compositora da canção, Tulipa Ruiz.

Nos shows da turnê de Mulher do Fim do Mundo, que terminou neste sábado, além de sempre reforçar a importância da luta contra o racismo, a homofobia e a luta das mulheres por igualdade e contra a violência, Elza Soares frequentemente fazia críticas à situação política que o país vem vivendo. Foi o que ela fez durante o espetáculo em Buenos Aires, no dia 10 de abril. “Meu país enfrenta um triste momento político e social. Querem matar nossos sonhos, prender nossas liberdades. Não irão conseguir! Lula livre! Por ele e por nós, viva a democracia”, bradou Elza ovacionada pela plateia que gritava “Lula livre”, como mostra a reportagem da TVT: 

MILTON HATOUM: ‘PARECE QUE VIVEMOS EM UM PESADELO’

Abril 24, 2018
LUGAR MAIS SOMBRIO
Escritor ministrou em São Paulo uma palestra sobre seu romance A Noite da Espera, que trata das angústias dos jovens que amadureceram durante a ditadura civil-militar
por Gabriel Valery, da RBA.
FESPSP/DIVULGAÇÃO/ICARABEhatoum

‘Tempos em que até a arte é praticamente banida. É incrível como vai e volta (a repressão)’

São Paulo – Intolerância, incertezas e o vazio de uma geração sufocada pela ditadura civil-militar (1964-1985) são os temas centrais do mais recente livro de Milton Hatoum, A Noite da Espera (2017). Um dos mais aclamados nomes da literatura nacional na contemporaneidade, ele esteve na noite de ontem (24), na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp), onde falou sobre sua obra e fez paralelos com a situação do país hoje. “Achava que algumas coisas poderiam desandar, mas parece que vivemos em um pesadelo”, disse, sobre as mazelas que voltam a assombrar o país nos contextos políticos e sociais após um breve momento de aparente consolidação democrática.

O escritor contou que o projeto do livro, que é o primeiro de uma trilogia intitulada O Lugar Mais Sombrio, vem de longa data, mas que sua entrega ao tema carecia do instante certo. “Tinha receio de tocar em alguns temas em algum momento da minha já distante juventude. Achava o grau de complexidade da época difícil de ser abordado, então adiei e quando me entreguei a ele, há exatos dez anos, o Brasil estava em outra toada”, disse. “Lembra de 2008? Parece outro país. Parece que estamos em meio a um pesadelo, que nada daquilo aconteceu ou que nada hoje é real. Não sabemos para onde vamos, se pensamos que foi tudo um sonho ou se isso hoje é este sonho enterrado.”

A história, por vezes, se confunde com a própria história do autor. Assim como Hatoum, o protagonista, Martim, vai morar jovem em Brasília e passa por um processo de amadurecimento na capital durante a passagem dos anos 1960 para 1970, início da ditadura. Por isso, a obra é considerada um “romance de formação”, estrutura literária que acompanha o processo de aprendizagem do protagonista. E é nesta linha que a obra honra o legado dos grandes nomes do gênero como Johann Wolfgang von Goethe, Thomas Mann, sem deixar de lado a poética com referências de Fernando Pessoa e a inteligência na utilização do idioma escrito como é possível saborear nas obras do inigualável Guimarães Rosa.

Questionado sobre ter saudades dos tempos de sua formação, o autor nega. “A saudade pode ofuscar o presente e gosto de viver com os pés no chão e a cabeça viajando. O passado interessa para entender o presente, mas existe um perigo. Existe uma massa de alienados proto fascistas e fascistas, literalmente, que se recusam a entender o passado. Ela sim, sente uma nostalgia dessa época bruta.”

São movimentos ultraconservadores, reacionários, que exaltam os tempos sombrios de repressão. Hatoum lamenta sua existência e vê a formação de ciclos relacionados à opressão. “Essas lideranças que estão ai, como o MBL e o Vem Pra Rua, ligadas à direita, são farsantes. Usam discursos oportunistas, moralistas e antidemocráticos, sobretudo. Eles carregam o discurso arbitrário e proto fascista”, disse.

Tempos de intolerância que fazem do livro uma peça de reflexão, introspectiva, com forte pessimismo e ares de uma geração perdida. “Se trata da trajetória de um personagem com suas metas, com seus anseios, em uma sociedade cujas normas não obedecem ao agregado. A trajetória da passagem do jovem para a vida adulta de forma problemática (…) É a história do desencanto, do indivíduo que persegue uma meta, vai em busca de um sentido para a sua vida. Sobre isso que o romance trata. E essa busca não se completa, ele não completa seus anseios então, vive um momento de renúncia e melancolia.”

“Nem tudo é suportável quando se está longe”, afirma em certa hora o protagonista que, além dos traumas relacionados à separação de sua mãe ao ser obrigado a morar em Brasília, em decorrência da ditadura, tem outra ruptura adiante. Exilado em Paris, relembra de seu amadurecimento ingrato. Esta é a natureza deste romance de formação, com toda a complexidade das relações humanas, sem maniqueísmos.

LIVRO DISCUTE A DISSEMINAÇÃO DE NOTÍCIAS FALSAS NAS REDES SOCIAIS

Abril 24, 2018
FAKE NEWS
Segundo Pollyana Ferrari, a pressa é a maior inimiga da verdade. A jornalista e professora da PUC-SP recomenda: pare, reflita e averigue informações
por Julianna Granjeia, do Brasil de Fato.
EBCFAKE NEWS

‘Devemos reconhecer que as notícias falsas são, na verdade, uma variedade de desinformações’, diz Pollyana

Brasil de Fato – A professora da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica) e jornalista especializada em Comunicação Digital Pollyana Ferrari faz, em livro, uma reflexão sobre os fenômenos das bolhas de informação e da rapidez com que informações falsas são compartilhadas sem checagem pelas redes sociais no livro “Como Sair das Bolhas”, das editoras Educ e Armazém da Cultura, lançado na semana passada. A viralização de notícias falsas, ou as chamadas fake news, em inglês, é um dos grandes problemas dos últimos anos. 

Para combater o fenômeno, em seu livro Pollyana propõe uma relação diferente com o “excesso de ruído” e o silêncio como uma forma de existência. Ela recomenda o uso dos oito passos de Buda (compreensão, pensamento, fala, ação, esforço, atenção, concentração e modo de vida corretos) antes de compartilhar mensagens.

“Primeiramente, devemos reconhecer que as notícias falsas são, na verdade, uma variedade de desinformações que pode variar entre a correta utilização de dados manipulados, a utilização errada de dados verdadeiros, a incorreta utilização de dados falsos e outras combinações possíveis. A sociedade do fluxo informacional, a velocidade das redes sociais, dos aplicativos, tudo nos deixa inquietos, e a inquietude só causa prejuízos: compartilhamos o que não lemos, aceitamos a sedução como verdade, pois ela nos conforta no momento de angústia”, diz trecho do livro.

Confira entrevista com Pollyana Ferrari:

Como sair das bolhas?

Tendo uma postura de transitar, de perceber que o mundo é diferente, que as pessoas não são iguais. Eu falo no livro que a gente tem mais muros pichados e grafites do que varandas gourmets pasteurizadas, iguais entre si. As pessoas se acostumaram nas redes sociais, se são de esquerda, a não ter ninguém que pensa diferente, se são veganos, a mesma coisa.

Foram limpando suas timelines e seus convívios nas redes e ficando só com quem pensa igual. E isso é muito ruim. O importante é cultivar democraticamente o debate público. Então, sair das bolhas é uma volta a você conseguir conviver.

Você acha que a tecnologia aumentou a propagação de fake news ou isso já existia antes?

É uma relação de escala. Sempre teve fake news. Eu relato no livro que Roma antiga tinha, mas não era nessa escala grande. Depois das redes sociais e todas essas plataformas do Google, muita gente ganhou voz. As pessoas com smartphone viraram mídia. Isso é muito bacana, mas ao mesmo tempo você tem muita gente propagando muita coisa e a checagem não fez parte dessa década. Não fomos treinados para checar.

eleição do (Donald) Trump (presidente dos Estados Unidos) mostrou para o jornalismo, para nós, um alerta de que era preciso checar as informações recebidas. As pessoas não foram educadas a checar, chega no Whatsapp e as pessoas acreditam. E não é só o jovem que propaga fake news. Então, na questão de escala, a tecnologia propaga muito mais do que antes dessas redes.

E como você acha que seria possível diminuir a propagação das fake news?

Não compartilhando e não curtindo. Primeiro, você checa, joga no Google, tenta ver a procedência do texto, qual a fonte, quando foi publicado, se é uma coisa velha, se a foto foi manipulada. E agora também temos vídeos fakes (falsos). Então, a gente tem que aprender socialmente a checar. É fundamental ter as agências de checagem, bots e algoritmos de checagem, mas nunca vai ter fim. Vamos pensar em eleições, 140 milhões vão votar e temos três agências de checagem (Aos FatosLupaPública), mesmo se tivesse 6.000 agências de checagem, não iam dar conta.

DIVULGAÇÃOPollyana Ferrari
Pollyana Ferrari é especialista em Comunicação Digital da PUC-SP. Ao lado, a capa do livro ‘Como Sair das Bolhas’

Como você avalia o trabalho dessas agências?

Eu comecei em 2016 essa minha pesquisa, comecei olhando os jornais primeiro e cheguei às agências. São iniciativas fora das grandes redações muito bem-vindas. Acho que avançamos muito com as agências, os códigos de ética, os grupos de checadores. Precisamos ter mais e vão surgir mais. Acho legal, mas sempre pensar na educação de quem dissemina, senão não vai ter fim. Quantas agências de checagem precisariam ter no mundo?

Tem uma discussão de tempo e silêncio no seu livro. Como aplicar isso nas redes?

Isso. Eu volto aos oito passos do Buda, técnica milenar, não numa ideia de doutrinar para religião, mas é sobre ser ético, respirar, pensar. Porque nessa velocidade que as pessoas compartilham, normalmente é porque não leem, tirando os que compartilham porque produziram e ganham dinheiro com isso. As pessoas leem só o título e passam pra frente.

Os pensadores de psicologia cognitiva dizem que o cérebro precisa de três a cinco minutos, então se parar pra respirar e pensar e voltar à essa questão do silêncio, desligar o celular pra dormir. Parece dicas holísticas, mas faz todo sentido nessa pressa de compartilhar conteúdo que não está dando certo. Todo mundo virou colunista de tudo, todo mundo dá um palpite, o dedo está o tempo todo ali, as pessoas curtem até marca. 

ideia do silêncio é isso, tanta evolução tecnológica e eticamente e moralmente estamos comprometidos. O Whatsapp é o maior propagador de mentiras e o grande perigo nessa eleição vai ser isso.

Sobre eleição, qual a análise que você faz desse cenário?

Fake news em ano de eleição é um perigo. Gostaria de dizer que, infelizmente, acho que vai ter muita barbárie. Até porque o brasileiro está falando sobre isso só agora em 2018. Teve a eleição do Trump, quando os grandes veículos como The Washington Post e BBC falaram disso, alertaram muito sobre esse perigo, mas acho que foi no caso da Marielle (Franco, vereadora do Rio de Janeiro assassinada em março) que a gente conseguiu ver a proporção, como é rápido o desserviço do MBL (Movimento Brasil Livre). E vão continuar agindo. Então, como a gente faz? Primeiro, desconfie de tudo. Cheque, veja se o perfil existe, quem mandou, explica para seu tio, seu pai, mãe, que compartilha fake news, e respeite o outro. Tem que ser um eterno exercício, checagem de fatos tinha que estar na grade das escolas, os professores tinham que debater, aprender a checar é aprender a conviver e ouvir outras vozes, outras opiniões.