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Companhia de teatro invoca a palavra como forma de resistência social

Junho 21, 2017

Montagem sinfônica “Roda das Vozes em Estado de Sítio” mistura linguagem teatral com samba de breque para refletir sobre o modelo de sociedade que temos e queremos.

por Xandra Stefanel

Estreia nesta quinta-feira (22), no Teatro da Universidade de São Paulo (Tusp), a peça sinfônica Roda das Vozes em Estado de Sítio, da companhia Ausgand de Teatro. A montagem propõe um debate sobre o papel da palavra na nossa sociedade e sobre a mecanização da língua em tempos em que o povo é estraçalhado pelo capital corporativo. “A voz e a palavra podem emergir como resistência a toda forma de controle e violência”, invoca a companhia.

Permeada por canções e falas do cantor e compositor Itamar Assumpção, a peça aborda a saturação da palavra, a produção massiva de uma língua sem ninguém dentro, sem densidade nem mistério. Na obra, se fundem o jogo entre o samba de breque, as canções de Bertolt Brecht e dos compositores alemães Hanns Eisler e Kurt Weill.

“A mecanização da língua se articula à mecanização do corpo promovida pelo capitalismo. Sua principal consequência é a objetivação da palavra e dos discursos, cuja prova cabal é a utilização crescente das estatísticas como dados incontestáveis da realidade. Nossos corpos e vozes estão sitiados, não falamos: somos falados. Estamos perdendo o sabor de língua, como diz o filósofo espanhol José Luis Pardo, para quem há um movimento em marcha para livrar a linguagem de sua incômoda espessura, uma tentativa de que a linguagem seja lisa, sem risco”, diz o dramaturgo Zebba Dal Farra.

O espetáculo aborda essas questões de forma poética, contrapondo fala a canto, e crítica, evocando de diversas maneiras o caráter religioso do capitalismo contemporâneo. Além disso, há uma ideia recorrente de que ao capital não interessa nem o que seja o arroz, o algodão, o homem e a mulher: só lhe interessa seu preço”, completa o dramaturgo, integrante do elenco, junto com Maria Simões, Carolina Martins, Beto Siqueira, Luan Braga, Macalé, Pedro Teixeira e Renan Abreu.

JOÃO GOLD/DIVULGAÇÃOMaria SimõesMaria Simões, da companhia Ausgang de Teatro

Roda das Vozes em Estado de Sítio é uma espécie de híbrido entre teatro e roda de samba. Segundo Dal Farra, o formato surgiu em 2001 em uma ocupação do Teatro Alfredo Mesquita.

“Nas rodas de samba tradicionais há uma mesa no centro, onde se colocam letras de músicas, cerveja, e salgadinhos para os músicos. Nossa roda de samba aparece quando retiramos essa mesa e nela surge a arena, propícia à manifestação teatral. Então, a roda mistura improvisação musical e teatral, guiada por um roteiro como um fio condutor”, descreve Dal Farra. Ele cita Paulinho da Viola: “É o ‘rio de murmúrios da memória, que quando aflora serve antes de tudo pra aliviar o peso das palavras, que ninguém é de pedra’. A roda bebe desse jogo entre memória, tradição e presença. É um lugar de passagem, entre formal e informal, entre acaso e composição”.

Para o dramaturgo, no futuro o teatro talvez seja um dos poucos lugares em que a saturação da palavra pode dar lugar a ações transformadoras. “Diz Noca da Portela, em Peregrino: ‘Ninguém vive feliz se não puder falar, e a palavra mais linda é a que faz cantar’. A saturação da palavra cotidiana pode ser superada talvez pela palavra poética no contexto das relações éticas e políticas. O teatro no futuro será, talvez, o único lugar do encontro presencial das pessoas, em que corpos e vozes se confrontam e se enfrentam em tempo real. Nesta perspectiva, o teatro pode impulsionar ações críticas e transformadoras”, define.

A peça fica em cartaz no Tusp até 9 de julho, de quinta a domingo, com uma apresentação especial na segunda-feira, 10 de julho.

Roda das Vozes em Estado de Sítio, da companhia Ausgand de Teatro
Estreia nesta quinta-feira, dia 22 de junho, às 21h
Temporada: de 23 de junho a 9 de julho
Quintas, sextas e sábados às 21h, e domingos às 19h.
Sessão especial: segunda, dia 10 de julho, às 21h
Onde: Teatro da Universidade de São Paulo (Tusp)
Rua Maria Antonia, 294, Consolação, São Paulo
Quanto: R$ 30 e R$ 15. Ingressos à venda no local duas horas antes das apresentações
Duração: 90 minutos
Classificação: livre
Informações: (11) 3123-5223/ (11) 3123-5233 e rapsodiausgang@gmail.com

Livro reúne reflexões de intelectuais sobre a crise da esquerda no Brasil e no mundo

Junho 19, 2017

Um dos organizadores da obra “A crise das esquerdas”, que chega às livrarias em junho, Aldo Fornazieri diz que é preciso superar a “síndrome de Caim e Abel” e trabalhar pela unidade.

por Eduardo Maretti, da RBA

São Paulo – Chega às livrarias em junho, pela editora Civilização Brasileira, A crise das esquerdas, livro que reúne textos e entrevistas de diversos intelectuais sobre a esquerda no mundo contemporâneo. Segundo Aldo Fornazieri, professor de filosofia política da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp) e um dos organizadores da obra, o coordenador do MTST, Guilherme Boulos, por exemplo, aborda a questão da necessidade de se refletir sobre um fator essencial: a dificuldade de incorporar “uma militância de novo tipo em torno de outras bandeiras que não são as trabalhistas, clássicas”.

De acordo com Fornazieri, os militantes da nova geração não querem mais “saber de estruturas organizadas verticalmente”, mas reivindicam a prática de uma política mais horizontal. “Seria necessário pensar uma nova pedagogia, uma nova prática política da esquerda”, diz Fornazieri, em entrevista à RBA.

Para ele, os fatores que levam a esquerda atualmente a passar por dificuldades são múltiplos e complexos. “As crises são diferentes. A crise no Brasil é de um tipo e na Europa, de outro.” Porém, há aspectos em comum.

Para o outro organizador do livro, o sociólogo Carlos Muanis, “há um abismo perigoso e crescente entre a sociedade e o mundo político”. Segundo ele, existe uma paralisia provocada “pela desconfiança da capacidade de os Estados cumprirem suas promessas básicas de serviços públicos”.

A crise das esquerdas reúne textos e entrevistas de Aldo Fornazieri, Tarso Genro, Guilherme Boulos, Renato Janine Ribeiro, Carla Regina Mota Alonso Diéguez, Carlos Melo, Carlos Muanis,  Cícero Araújo, Moisés Marques, Rodrigo Estramanho de Almeida, Ruy Fausto e Sérgio Fausto.

Leia a seguir a entrevista do professor Aldo Fornazieri:

Como se poderia caracterizar a crise da esquerda?

As crises são diferentes. A crise no Brasil é de um tipo e na Europa, de outro. Não dá para fazer uma caracterização geral. Mas se pode dizer que existe uma crise acerca do lugar onde a esquerda se coloca, na medida em que ela se aproximou muito dos liberais e do neoliberalismo.

Os partidos de esquerda vieram para o centro. Tem uma crise da ação política e programática. A esquerda ficava historicamente com a ideia da utopia, e nos últimos tempos ficou naquilo que o professor Renato Janine chama de redução de danos.

Uma atuação pragmática…

Pragmática, mas faz políticas orientadas para a redução dos danos causados pelo capitalismo. A esquerda teria se tornado uma espécie da cereja no bolo do capitalismo, na medida em que não existe mais um conflito sistêmico. Estamos dentro de um único sistema, que é o sistema capitalista, e não existiria mais uma alternativa socialista hoje no mundo, uma alternativa comunista.

O outro aspecto da crise é o que se chama da crise de pressupostos, que eu abordo. Os principais pressupostos: qual o significado da luta de classes hoje, na medida em que o proletariado clássico quase que desapareceu? Faz ainda sentido falar na ideia de um proletariado revolucionário? Parece que não.

O outro elemento dessa crise de pressupostos é que, historicamente, o marxismo entendeu a política subordinada à economia e com isso perdeu a capacidade de perceber a política na sua autonomia.

E uma terceira crise de pressupostos diz respeito aos próprios partidos, que hoje são estruturas verticalizadas, burocratizadas, e não conseguem absorver uma militância de novo tipo em torno de outras bandeiras que não são as trabalhistas, clássicas etc. Eles não querem saber dessas estruturas organizadas verticalmente. Querem praticar uma política mais horizontal. No livro, Guilherme Boulos aborda isso. Seria necessário pensar uma nova pedagogia, uma nova prática política da esquerda.

Poderia traduzir isso, no Brasil, para algo como o PT voltar às bases ou ter abandonado as bases?

Em parte é um pouco isso. Antes de chegar ao poder o partido era de uma militância mais participativa, mais vinculada aos movimentos sociais. Hoje, de modo geral, tanto o PT como os demais partidos de esquerda não têm uma pedagogia capaz de atrair as novas formações militantes em torno de novas bandeiras e questões, e menos ainda a periferia, que cansou de ser massa de manobra dos partidos de esquerda.

Então hoje você vê uma forte influência das igrejas evangélicas na periferia, que adotam um tipo de prática que de certa forma tirou as esquerdas do trabalho de base, principalmente na periferia.

Quando o senhor fala da crise dos pressupostos, aborda mais a esquerda mundial?

Esses pressupostos, mesmo a questão das periferias, não é um problema só aqui no Brasil. Por exemplo, na França, o Partido Socialista, de centro-esquerda, foi reduzido drasticamente. Lá surgiu uma nova esquerda, mas se você for ver, tanto na França, quanto nos EUA, os operários tradicionais votaram na direita.

No mundo, uma crise da esquerda poderia se caracterizar pelo seguinte: em vários países a polarização é entre a direita e o centro, e a esquerda está fora dessa polarização.

No Brasil, depois do golpe que tirou Dilma do poder, a esquerda não ficou um pouco sem rumo, como alguns analistas observaram?

Em todo o processo do impeachment a esquerda ficou muito paralisada, com pouca capacidade de mobilização. Você percebe que agora mesmo, com um governo quase se decompondo no ar, a esquerda tem pouca capacidade de mobilização nas ruas para pôr um fim a esse governo.

Por que isso acontece?

Exatamente porque ela perdeu o trabalho de base. Isso por um lado. E por outro lado tem todo o desgaste que aqui no Brasil a ideia de esquerda sofreu por conta do fracasso do governo Dilma e por conta do fato de que o PT é visto como um partido que se corrompeu também. Isso provocou um enorme desgaste, não só no PT como na esquerda em geral.

Alguns analistas, como Roberto Amaral, defendem que a saída é a união das esquerdas. O senhor concorda?

Eu entendo que é correta essa proposição. Quanto mais a esquerda se divide, mais favorece a direita e o centro. Ela precisa olhar para a formações mais próximas da gente, que são mais exitosas, como a Frente Ampla do Uruguai. Entendo que talvez a esquerda latino-americana mais exitosa no momento seja a esquerda uruguaia, tanto nos resultados que produziu quanto como referência moral, que é o Pepe Mujica.

É viável essa união das esquerdas no Brasil?

Acho que ela é difícil, pelo tipo de cultura divisionista da esquerda. Embora a proposição seja correta, entendo que é difícil porque a esquerda sempre viveu aquilo que a gente chama de “síndrome de Caim e Abel”, ódio entre irmãos.

É preciso superar essa cultura da divisão. As pessoas mais sensatas e que têm uma visão mais ampla do processo político em curso precisam trabalhar para a superação dessa síndrome histórica da divisão entre as esquerdas.

‘Nunca me sonharam’ expõe realidades e utopias de alunos no ensino médio do país

Junho 8, 2017

Documentário de Cacau Rhoden registra depoimentos de alunos de escolas públicas das cincos regiões do Brasil. “A sociedade precisa ouvir os jovens. Disso depende o futuro do país”, diz o diretor.

por Xandra Stefanel

“Como meus pais não foram bem sucedidos na vida, eles também não me influenciavam, não me davam força para estudar. Achavam que quem entrava na universidade era filho de rico. Acho que eles não acreditavam que o pobre também pudesse ter conhecimento, que pudesse ser inteligente. Para eles, o máximo era terminar o ensino médio e arrumar um emprego: trabalhador de roça, vendedor, alguma coisa desse tipo. Acho que nunca me sonharam sendo um psicólogo, nunca me sonharam sendo professor, nunca me sonharam sendo um médico, não me sonharam. Eles não sonhavam e nunca me ensinaram a sonhar. Tô aprendendo a sonhar.”

A declaração do estudante Felipe Lima dá nome e sintetiza bem o espírito do documentário Nunca Me Sonharam, longa-metragem de Cacau Rhoden, que estreia nesta quinta-feira (8) em circuito comercial em São Paulo e Rio de Janeiro, com sessões grátis no primeiro final de semana. Nas cidades onde ele não estiver em cartaz nos cinemas, ele estará disponível para exibições públicas gratuitas no Videocamp, uma plataforma de distribuição online de filmes de interesse social.

Enquanto o primeiro documentário de longa-metragem de Cacau Rhoden tratava sobre a importância das brincadeiras infantis para a formação social, intelectual e afetiva (Tarja Branca – A Revolução que Faltava), Nunca Me Sonharam se volta com a mesma sensibilidade para o universo dos adolescentes. Desta vez, o diretor se debruça sobre os desafios do presente, as expectativas para o futuro e os sonhos de quem vive a realidade do ensino médio nas escolas públicas brasileiras.

Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad-IBGE, 2015), 82% das crianças e jovens até 19 anos que estão estudando no Brasil são atendidos pela escola pública e 1,6 milhão de adolescentes de 15 a 17 anos estão fora das salas de aula. O filme traz histórias de alunos que tiveram de abandonar os estudos para trabalhar, de estudantes que deixaram as salas de aula por se sentirem incapazes de acompanhar o desenvolvimento dos outros colegas, de jovens que simplesmente não entendem como o que eles aprendem na escola pode lhes ser útil para a vida e para conseguirem um lugar ao sol… Mas o filme vai muito além disso.

A primeira parte do documentário mostra como a castração dos sonhos geralmente é cruel, daí o panorama desanimador porém realista constatado hoje em dia no sistema público de educação. Nisso, pode até não haver novidade. O que surpreende, no entanto, é que aos poucos, sem que seja óbvio, o filme vai se transformando em uma agradável e realista proposição de como é possível mudar este cenário educacional brasileiro.

Gestores, professores e especialistas dão depoimentos muito precisos, mas são sobretudo os alunos que mostram que têm voz e iniciativa para promover mudanças, basta que suas ideias e opiniões sejam ouvidas e levadas em consideração. Nunca me Sonharam reflete sobre o valor da educação, mostra que é preciso deixar os jovens sonharem e que os sonhos deles podem, sim, fazer do Brasil um país menos desigual.

“Para a juventude mais vulnerável, menos favorecida, a infância se encurta: você brinca menos, você está assediado pela iminência de trabalhar mais cedo, você tem uma relação com a aprendizagem e com a educação que é fortemente instrumental, ou seja, aprender uma atividade ou um ofício para a profissão, aprender a versão mais simples das coisas, aprender sem ambicionar muito. Essa compressão da adolescência e da infância produz o que me parece ser a principal sequela psicológica, que é o encurtamento dos sonhos. Isso é pior do que oferecer oportunidades reais não equitativas. Isso é matar o futuro”, aponta o psicanalista Christian Dunker.

Longa mostra juventude preocupada com o futuro, ávida para estabelecer diálogo com instituições educacionais

Sonhar no coletivo

“É muito sonho, muita ideia e pouca gente escutando para realizar”, declara o diretor teatral, escritor e cineasta Marcus Faustini. O que Cacau Rhoden faz neste filme é exatamente isso: escutar o que os jovens têm a dizer sobre o que esperam da vida e do mundo. E em suas andanças pelo Brasil, o diretor encontrou uma juventude interessada e preocupada com o futuro, ávida para estabelecer diálogo e aproximação com as instituições educacionais.

“Ao começar a desenvolver o filme, fui investigar em que condições se dá o ensino médio nas escolas públicas do Brasil e porque os jovens estão abandonando a escola. Os obstáculos que os estudantes enfrentam no convívio em sociedade impactam diretamente não só suas vidas particulares, mas a escola e a educação como um todo, o que gera um ciclo vicioso. Ao dar voz aos jovens, percebemos que, apesar de todas as adversidades enfrentadas, eles estão se autoproclamando protagonistas de seus caminhos, da sua educação, em busca de seus sonhos”, declara o diretor.

Em tempos de tanta desesperança nas ruas, Nunca Me Sonharam chega a ser um bálsamo para aqueles que andam descrentes quanto ao futuro do país. Assim como o documentário Resistência, de Eliza Capai (também disponível no Videocamp), este filme evidencia que aqui, bem debaixo dos nossos olhos, vivem e lutam juventudes que querem um futuro mais gentil com todos, independentemente de classe social, raça ou orientação sexual.

“Este jovem, eu acho que ele pode reinventar algo além. Ele está livre para poder inventar a sua narrativa, para andar pela cidade e para inventar um lugar. Deixem os jovens inventarem o mundo!”, reivindica Marcus Faustini. E a “reinvenção” do mundo pode começar pela escola. Como diz a professora, mestre em Educação e secretária de Educação de Minas Gerais, Macaé Evaristo, se “mesmo a escola mais chata salva milhares de vidas no nosso país”, imagine as transformações que um sistema educacional público mais eficiente e inclusivo não seria capaz…

Assim como as iniciativas mostradas no filme, Nunca Me Sonharam parece ser uma semente de um sonho que é bastante possível. Afinal, utopia não é um conceito ligado ao impossível, mas sim ao idealizado. “Eu gostaria que isso fosse um incentivo para toda a sociedade repensar a escola pública, para que a educação, efetivamente, possa formar cidadãos preparados para fazer um país mais justo, menos desigual, onde as pessoas possam sonhar e realmente ter oportunidades”, declara Cacau Rhoden.

CartazNunca Me Sonharam
Produtora:
Maria Farinha Filmes

Direção: Cacau Rhoden
Produzido por: Marcos Nis, Estela Renner e Luana Lobo
Produção executiva: Juliana Borges
Roteiro: Tetê Cartaxo, André Fino e Cacau Rhoden
Argumento: Tiago Borba, Ricardo Henriques e Cacau Rhoden
Direção de fotografia: Janice D’Avila e Carlos Firmino 
Montagem: André Fino 
Música: Conrado Goys
Desenho de som: Beto Ferraz
Coordenação de pós-produção: Geisa França 
Produção: Renata Romeu 
Assistência de direção: Camila Gentile 
Estratégia de distribuição: Luana Lobo e Marcos Nis
Distribuição: Maria Farinha Filmes e Videocamp

Apresentado por: Instituto Unibanco

Caixa Cultural do Rio expõe destaques do fotojornalismo mundial

Junho 4, 2017

lalo de almeida

CCRJ recebe 60ª edição da World Press Photo, com 154 fotografias. Entre elas, o flagrante do momento do assassinato do embaixador russo, premiada. Até 18 de junho.

por Xandra Stefanel,

Em cartaz até 18 de junho na Caixa Cultural Rio de Janeiro (CCRJ), a 60ª edição da World Press Photo apresenta os mais impactantes registros do fotojornalismo mundial de 2016. Ao todo, estão expostas 154 fotografias de temas variados, entre eles política, economia, esportes, cultura e meio ambiente.

Neste ano, dois brasileiros foram selecionados neste que é um dos mais importantes concursos fotográficos do mundo e cuja exposição é realizada em 45 países. Lalo de Almeida recebeu o 2º lugar na categoria Assuntos Contemporâneos com o ensaio sobre bebês com microcefalia, vítimas do vírus da Zika, no Nordeste; e Felipe Dana ficou em 3º lugar na categoria Notícias em Destaque, com a imagem Batalha por Mosul, feita no Iraque durante a ofensiva das forças especiais iraquianas e das milícias aliadas para recuperar o controle da cidade tomada pelo Estado Islâmico.

O prêmio principal foi para a imagem Um assassinato na Turquia, do turco Burhan Ozbilici. O registro foi feito em dezembro de 2016, quando o policial Mevlüt Mert atirou contra o embaixador da Rússia Andrei Karlov em uma sala de exposições, em Ancara. Na imagem, o assassino aparece com a pistola na mão e o dedo em riste. Na ocasião, ele gritava: “Não se esqueçam de Aleppo. Não se esqueçam da Síria”.

A escolha causou polêmica dentro do próprio comitê de seleção, já que a imagem de um assassinato premeditado poderia, segundo o presidente do juri, Stuart Franklin, amplificar a mensagem de ódio. “Foi uma decisão muito, muito difícil, mas no final a maioria sentiu que a foto era uma imagem explosiva e muito representativa do ódio contemporâneo. Nós realmente achamos que ela resumia o que uma World Press Photo do Ano deve ser e representar”, afirmou Mary F. Calvert, membro do júri.

World Press Photo 2017
Quando: até 18 de junho de 2017
De terça-feira a domingo, das 10h às 21h
Onde: Caixa Cultural Rio de Janeiro, Galeria 4
Avenida Almirante Barroso, 25, Centro, Rio de Janeiro (RJ)
Quanto: grátis
Mais informações: (21) 3980-3815
Classificação indicativa:
não recomendado para menores de 14 anos

Paul Singer terá filme dirigido por Ugo Giorgetti, com financiamento coletivo

Maio 30, 2017

Campanha começou nesta segunda e vai até 5 de julho.

São Paulo – Começou nesta segunda-feira (29) a campanha de financiamento coletivo para a filmagem de Paul Singer – uma história do Brasil, que será dirigido por Ugo Giorgetti, autor de, entre outros, Uma Noite em Sampa (2016), Cara ou Coroa (2012), O Príncipe (2002) e Boleiros – Era uma Vez o Futebol (1998). A campanha vai até 5 de julho. Nesses 40 dias, o objetivo é arrecadar R$ 130 mil.

Com 85 anos, completados em março, Paul Singer permaneceu 13 anos à frente da Secretaria Nacional de Economia Solidária, desde que foi criada, em 2003, no primeiro ano do governo Lula. Saiu há um ano, depois do impeachment. Militante de um novo modelo de consumo e de distribuição da riqueza, o economista defende os empreendimentos coletivos, vendo na modalidade uma volta às origens do socialismo. Na primeira edição da Revista do Brasil, em maio de 2006, ele falou sobre o tema, informando que a secretaria havia conseguido identificar 15 mil empreendimentos no país.

Austríaco de nascimento, Paul Singer veio com a família para o Brasil em 1940 – obteve a cidadania em 1954. Formou-se em eletrotécnica, foi trabalhador metalúrgico, filiado ao sindicato da categoria em São Paulo, e um dos líderes da chamada greve dos 300 mil, em 1953. Estudou Economia na Universidade de São Paulo (USP), onde se graduou em 1959. Foi um dos fundadores do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Militante do PSB, em 1980 ele ajudou a criar o PT, um projeto que sempre defendeu, mas sem perder o senso crítico em relação a posturas internas. “Houve deslumbre, desbunde e descontrole”, disse, por exemplo, na entrevista de 2006, ao comentar sobre contribuições eleitorais.

Há um mês, Paul Singer participou do 4º Encontro dos Municípios com o Desenvolvimento Solidário, em Brasília. E no começo deste mês esteve na 2ª Feira Nacional da Reforma Agrária, em São Paulo. Ele foi um dos signatários do Projeto Brasil Nação, organizado por Luiz Carlos Bresser-Pereira, que propõe novo modelo de desenvolvimento para o país.

Interessados em participar do projeto  podem acessar o link https://www.catarse.me/paulsinger. Serão aceitas contribuições a partir de R$ 10.

O paulistano Ugo Giorgetti, 75 anos, assume  um projeto, como diz o material de divulgação, “de registrar essa forma de pensar autônoma e livre”, referindo-se a Paul Singer. ” O resultado é uma trajetória de um personagem que nos leva a refletir sobre o presente, o passado e o futuro do Brasil e do mundo. O filme é também, inevitavelmente, um retrato intelectual da própria cidade de São Paulo em anos particularmente conturbados.”

Documentário amplifica a voz das ocupações contra o impeachment

Maio 29, 2017

Resistência

Filme ‘Resistência’, de Eliza Capai, acompanha movimentos de ocupação e manifestações de luta por direitos constitucionais como igualdade de gênero, educação, cultura e pela democratização da mída.

por Xandra Stefanel

São Paulo – Cinquenta e cinco minutos. É este o tempo que a documentarista Eliza Capai (Severinas e Tão Longe é Aqui) leva para dizer – por meio de imagens, de discursos, entrevistas e de muita luta – que, por mais que a situação seja ou esteja difícil, é possível (e é preciso) ter esperança. Seu documentário Resistência, lançado na semana em que o afastamento de Dilma Rousseff completou um ano, apresenta a energia mobilizadora e obstinada de milhares de jovens e militantes que ocuparam edifícios públicos para reivindicar que suas vozes e suas demandas fossem ouvidas. Já na semana de pré-lançamento, o filme foi exibido em mais de 70 sessões em todas as regiões do Brasil, e também na Europa e Estados Unidos.

Tudo começou com uma série que Eliza estava fazendo sobre democracia em que um dos temas era educação. Em meio às ocupações estudantis na Assembleia de São Paulo pela instalação da CPI da Merenda, em maio de 2016, ela entrou em contato com os estudantes, que prontamente abriram a porta para sua entrada. Surpresa com a maneira com que aqueles jovens se organizavam, Eliza decidiu ficar e registrar aquilo que ressoava como uma nova forma de fazer política.

É assim que nasce o documentário Resistência: da percepção de que os estudantes que instigaram outras ocupações em escolas em vários cantos do país faziam parte de uma geração que se articula de maneira diferente e que alinha suas demandas políticas e sociais com questionamentos de gênero e de papéis em prol da construção de um futuro melhor para todos.

Eliza registrou como aquele grupo relativamente pequeno de adolescentes dividia as funções dentro do movimento, como se organizavam para atingir seus objetivos, como pautaram a mídia alternativa e a tradicional e se fizeram ouvir por políticos, artistas e pela sociedade como um todo. Ao constatar a grandiosidade daquele movimento, Eliza decidiu que só sairia de lá quando o prédio fosse desocupado. E foi o que fez.

A semente de Resistência estava plantada. Entre maio e agosto de 2016, o Poder Legislativo votou o afastamento da primeira mulher eleita presidenta do Brasil, Dilma Rousseff e, como resposta, outras dezenas de edifícios públicos foram ocupados e surgiram dentro e fora deles manifestações que exigiam direitos constitucionais como cultura, educação, igualdade de gênero e democratização da mídia.

Entre abril e agosto do ano passado, Eliza Capai acompanhou de perto as ocupações no prédio do Ministério da Cultura do Rio de Janeiro, da Funarte de São Paulo, a Marcha das Vadias na capital carioca e a Parada LGBTT de São Paulo.

A forma como ela costura a grave situação política no Brasil e todas essas manifestações de resistência são de uma força e delicadeza raras. As legítimas demandas desses movimentos são apresentadas sob diversos pontos de vista: do protagonismo feminino e negro, da quebra de estereótipos de gênero e da ocupação de espaços de poder por setores até pouco tempo completamente excluídos das tomadas de decisão. A mensagem que fica é que a luta só está começando.

Impossível não chegar ao final do filme triste por ver na tela a triste situação política do país. Mas ao mesmo tempo, o espectador é invadido por uma onda de esperança em uma geração que está reiventando a todo tempo as formas de lutar por um país melhor. A associação com a música E Vamos À Luta, de Gonzaguinha, é inevitável, apesar de ela não fazer parte do filme: “Eu acredito é na rapaziada/ Que segue em frente e segura o rojão/ Eu ponho fé é na fé da moçada/ Que não foge da fera e enfrenta o leão/ Eu vou à luta com essa juventude/ Que não corre da raia a troco de nada/ Eu vou no bloco dessa mocidade/ Que não tá na saudade e constrói/ A manhã desejada”.

Onde ver

Nem adianta procurar o documentário Resistência nos cinemas. Segundo Eliza Capai, ele foi feito para ser um filme compartilhado, para servir como um instrumento de reflexão sobre tudo o que está acontecendo no país. Portanto, a equipe do filme incentiva que qualquer cidadão organize sessões gratuitas para sua exibição. Para saber onde serão as próximas sessões e como organizar uma exibição de Resistência, visite o link www.videocamp.com/pt/movies/resistencia.

Belchior, pequeno perfil de um cidadão incomum

Maio 28, 2017

Belchior

Lembranças e anotações sobre o compositor que morreu em 30 de abril, aos 70 anos. Ele é tema de biografia escrita pelo jornalista Jotabê Medeiros, a ser lançada no segundo semestre.

por Vitor Nuzz

São Paulo – “Aí um analista amigo meu/ Disse que desse jeito não vou viver satisfeito” são alguns dos versos da Divina Comédia Humana, de Belchior. Esse analista existe, entrou na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará junto com o futuro compositor – que trocaria o curso pelo de Filosofia – e foi localizado pelo jornalista Jotabê Medeiros, que prepara uma biografia a ser lançada no segundo semestre.

Reticente, o analista amigo dele acabou concordando em conversar, no horário de uma sessão, um dia depois do sepultamento de Belchior, que ocorreu na manhã de 2 de maio, em Fortaleza. Dois dias antes, o músico havia sido encontrado morto na pequena Santa Cruz do Sul (RS, 130 mil habitantes), última parada de um desaparecimento de anos.

“A história de Antonio Carlos Belchior é a história de uma criança, saudável e feliz, que cresceu ouvindo música em casa e nas ruas cantadores repentistas. É a história de uma criança que apaixonou-se pela cultura do povo e para o povo cantou a vida toda”, escreveu em seu blog o jornalista paraibano Assis Ângelo, que várias vezes recebeu o artista em sua casa, já em São Paulo, servindo bons pratos de bacalhau. Assis desembarcou em terras paulistanas praticamente ao mesmo tempo em que Belchior começava a experimentar o sucesso, com o disco Alucinação (1976), depois que Elis Regina lançou Como Nossos Pais e Velha Roupa Colorida, as duas primeiras faixas do disco Falso Brilhante, do mesmo ano.

Veloso, o sol não é tão bonito
Pra quem vem do Norte e vai viver na rua
(Fotografia 3 x 4)
Mas trago de cabeça um canção do rádio
Em que um antigo compositor baiano me dizia
Tudo é divino, tudo é maravilhoso
(Apenas um Rapaz Latino-americano)

 

“Suas canções não são das que morrem. Ele prefigurou os anos 80 em termos globais e se instalou na memória profunda da história da criação de música popular no Brasil”, escreveu Caetano Veloso em artigo no jornal O Estado de S. Paulo. Caetano e os tropicalistas em geral foram implícita ou explicitamente citados em composições de Belchior, e o baiano, em seu texto-tributo, comentou as referências. “Todas as citações a canções nossas que estavam em trechos de canções de Belchior me agradavam por estarem dentro de um timbre criativo sempre rico e instigante.”

Caetano também interpretou na chegada do chamado Pessoal do Ceará (Belchior, Fagner, Ednardo e outros), no início dos anos 1970, a intenção de “exibir confronto com os tropicalistas”. “Sugeriam que nós, os baianos, já representávamos o estabelecido, o velho, enquanto eles seriam o novo e a verdadeira rebeldia. (…) No estilo de Belchior, soava justo”, comentou Caetano, lembrando que o Tropicalismo se opôs à Bossa Nova ainda que “louvando” João Gilberto, Tom Jobim e Carlos Lyra. E que a Bossa Nova se opôs à “velha”, mas louvando Dorival Caymmi, Ary Barroso e Bide&Marçal (dupla de compositores cariocas).  “O pessoal do Ceará queria opor-se mesmo. Não chegava a isso e a recusa à louvação teria ficado vazia não fosse o talento e a personalidade de Belchior.”

Caetano contou ter encontrado Belchior pela última vez pouco antes do desaparecimento do artista. “Ele me procurou e conversamos bastante. Me trouxe de presente dois retratos de Drummond desenhados por ele, muito sugestivos e profundamente sentidos.”

Agora ficou fácil
Todo mundo compreende
Aquele toque Beatle
I wanna hold your hand
(Medo de Avião)
João, o tempo 
Andou mexendo com a gente, sim
John, eu não esqueço
Oh no, oh no, oh no
A felicidade é uma arma
Quente, quente, quente
(Comentários a respeito de John)

 

A presença constante de referências – musicais e literárias, basicamente – no cancioneiro de Belchior chamou a atenção também do mundo acadêmico. Foi tema, por exemplo, de tese de doutorado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, em 2014, apresentada por Josely Teixeira Carlos (Fosse um Chico, um Gil, um Caetano: uma análise retórico-discursiva das relações polêmicas na construção da identidade do cancionista Belchior).

 

Ali, a pesquisadora lembra do início da relação entre Belchior e os Beatles, sempre lembrados em canções. Em entrevista de 1990, o compositor conta que, assim que saiu do mosteiro, viu em uma banca de jornal um texto criticando o grupo inglês, pelo aspecto “sujo e repugnante” das roupas e dos cabelos. Em seguida, ouviu no rádio Love me Do e outras canções.

O que chamou inicialmente a atenção de Belchior foi o fato de que aquelas músicas teriam um viés religioso, como “Eleanor Rigby” do LP Revolver de 1966, que tem arranjos exclusivamente de cordas e à moda gregoriana; uma música muito próxima àquela com a qual o futuro artista estava habituado na Igreja. Então, a experiência do seminário serviu como ponte para o ingresso na música. Como Belchior na época não sabia inglês, o que chamou a sua atenção inicialmente foram as músicas traduzidas; mas também o comoveram as canções originais em inglês, dentre as quais Belchior lembra “Penny Lane”. Logo depois dessa experiência, Belchior conta que comprou um violão e já começou a tocar. 

ACERVO DO FUTURO LIVRO DE JOTABÊ MEDEIROSAcervo do futuro livro de Jotabê Medeiros
Belchior foi frei Francisco Antônio de Sobral no mosteiro dos capuchinhos em Guaramiranga, região serrana do Ceará

Belchior foi o frei Francisco Antônio de Sobral no mosteiro dos capuchinhos em Guaramiranga, na região serrana do Ceará, conforme conta Jotabê Medeiros no início de sua ainda inédita biografia, que teve um trecho publicado na revista Piauí. Entrou lá em fevereiro de 1964, pouco antes do golpe. Uma das pérolas escavadas pelo escritor mostra um grupo de capuchinhos, entre eles Belchior, 17 anos, recebendo o primeiro presidente do ciclo militar, marechal Castelo Branco.

A bagagem que trouxe, em uma mala de mascate, era mínima como a dos demais noviços: dois lençóis, duas toalhas e três mudas de roupa, além de escova, pasta, saboneteira e sabonete. Espelho, pente e qualquer perfume eram proibidos. Uma hora após adentrar o mosteiro, seu cabelo foi raspado e o noviço foi enfiado num hábito rude, que a ele pareceu subitamente confortável. (…)

Logo descobririam: aquele jovem de Sobral trazia outras coisas para Guaramiranga além da bagagem exígua. Era capaz de improvisar repentes e emboladas durante até duas horas, para alegria de sua turma. A escolha do nome Sobral foi de um bairrismo orgulhoso, mas essa seria uma das raras concessões de Antonio à cidade natal ao longo de toda a vida.

Além de bem-humorado, Frei Sobral era atento, disciplinado, fraterno e cortês. Recitava capítulos inteiros da Regra de Vida (espécie de Constituição dos capuchinhos), todo o Testamento de São Francisco, longas passagens de Os Lusíadas, de Camões. Mostrava controlada tendência para o rigorismo (as penitências e os jejuns impostos pela ordem). Encarava o cilício quase com indiferença.

Um dos mais de 100 entrevistados por Jotabê para o livro, Hermínio Bezerra, lembra de alguns motes de improvisações feitas por Belchior, o que sugere que uma de suas principais canções, Galos, Noites e Quintais, tenha sido gestada ainda no convento. A música só foi gravada em 1977, no LP Coração Selvagem.

Jotabê Medeiros considera Belchior o artista mais outsider, mais “fora dos trilhos” que já apareceu no Brasil. “Ele nunca integrou nenhum tipo de panelinha. A produção dele era interiorizada, ele tinha uma atitude de filósofo”, diz o biógrafo, que define o compositor como “cavaleiro solitário”.

O jornalista havia conseguido a pista do paradeiro de Belchior, em Santa Cruz do Sul, mas não teve tempo de ir procurá-lo. Se, por um lado, a morte do compositor põe um ponto final na história (“Antes, era um livro aberto, existiam milhares de possibilidades”), por outro facilitou o acesso a fontes. “Por lealdade e até por laços de amizade, as pessoas falavam com restrições. Era mais difícil o acesso a certos personagens. Consegui personagens novos, que vão enriquecer o livro. Foi como se o livro abrisse de novo.”

O sumiço de Belchior parece ter galvanizado a idolatria em torno do artista. Jotabê observa que não é possível medir o quanto isso alimentou a chama, mas lembra que a maior parte dos seguidores mais fiéis é bastante jovem, como uma tatuadora de 25 anos que sabe tudo sobre o compositor. “A música dele também veio à tona para muita gente que não conhecia”, diz, o jornalista, para quem isso só demonstra a “profundidade e solidez” da obra, ainda mais considerando que o último disco de inéditas, o independente Bahiuno, é de 1993, e ele não tocava ou fazia shows havia pelo menos 11 anos. “Que tipo de artista permaneceria tão forte?”

Hora do Almoço, homenagem a Belchior em fevereiro de 2016

 

Rick Ferreira, guitarrista, participou de gravações de cinco LPs de Belchior – Alucinação, Coração Selvagem, Todos os Sentidos, Era uma vez o homem e seu tempo (que ele chama de Medo de Avião, como a obra também ficou conhecida) e Objeto Direto –, de 1976 a 1980. “Posso dizer que os dois melhores artistas (com quem trabalhou), em termos de alto-astral, foram o Raul (Seixas) e o Belchior. Era um cara extremamente educado, sabia como pedir as coisas. Na parte musical, o Raul até dava mais pitaco. O Belchior comprava mais as ideias”, lembra.

Ele considera “inevitável” a comparação com Bob Dylan, tanto pelo tamanho (das letras) como pela parte musical. “Vejo ele como um músico folk”, diz Rick, que considera Medo de Avião o melhor trabalho de Belchior. “Foi um disco que eu deitei e rolei, com um pezinho na country music mesmo”, conta o músico, que tocou banjo e steel guitar, um instrumento que ele introduziu no Brasil.

O guitarrista lembra de um show em 2005, em Divinópolis (MG), baseado no álbum Baú do Raul, em que Belchior cantou Maluco Beleza e As Minas do Rei Salomão. “Embora sejam estilos diferentes – para os fãs, obviamente, o Raul tem um apelo inigualável, é um fenômeno”, diz Rick, referindo-se a Belchior. Para ele, os três grandes letristas brasileiros são, nessa ordem, Raul Seixas, Belchior e Zé Ramalho.

O músico levou um susto quando, durante a gravação de Objeto Direto (1980), recebeu uma letra de Belchior para pôr melodia. “Nunca fui de compor muito. Peguei essa letra e nada de fazer uma música, nada que eu gostasse, até que lembrei de uma música que eu fiz com uns 17 anos”, lembra Rick. A parceria, de 1981, com roupagem bem country, chama-se Meu Nome é Cem, inédita em discos.

Meu nome é legião
Não sou só um
Sou um cidadão comum
Meu nome é cem
(…)
O amigo que saiu pra ver a lua
Jaz anônimo na rua
(…)
A lei dos homens nos obriga
A ser normal
E como vivo comovido
Dizem que sou um bandido marginal

 

Jotabê estima em pelo menos 600 as composições de Belchior, muitas inéditas. Só Jorge Mello, um de seus parceiros mais constantes, tem pelo menos uma dezena. Dias depois da morte do artista, em um tributo realizado em Fortaleza durante o festival Maloca Dragão, o ator, diretor e dramaturgo Ricardo Guilherme declamou uma dessas inéditas, Madalena, feita para a peça O Morro do Ouro. Com 14 anos, Ricardo trabalhou com Belchior no programa Porque Hoje é Sábado, da TV Ceará. “Ele era de uma geração que tinha o sonho de liberdade e de democracia. O seu desejo de transgressão e superação é permanente. Sua obra fala sobre o rejuvenescimento permanente que o sonho deve ter”, declarou ao jornal cearense O Povo.

Graduado e mestre em Geografia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o professor da Federal de Pelotas César Augusto Ferrari Martinez falou sobre sua convivência com Belchior já durante o período de “sumiço” do artista para o grande público. Conheceram-se no final de 2012, quando Martinez ofereceu abrigo ao artista e sua companheira, Edna, com direito a “blindagem” contra jornalistas.

“Ele me chamava de Professor. Eu lhe dizia Mestre. Ele arrumava meus livros, eu lhe contava meus planos. Nós compartíamos vinhos. Ele caligrafava, tocava, sorria. Fazia tudo, menos cantar. Não cantava mais.”

Não cantava, mas dedilhou Galos, Noites e Quintais, aquela mesma concebida nos tempos de mosteiro..

Talvez o último registro conhecido de Belchior cantando tenha sido feito em 7 de setembro de 2011, no Centro Cultural do Consulado do Brasil em Artigas, no Uruguai, como parte de um projeto chamado Ondas Sonoras – Primeiro Movimento, que não foi adiante. Mas ali o artista canta, entre outras canções, Velha Roupa Colorida, acompanhado ao piano por João Tavares Filho, que conheceu o compositor cearense naquele ano, após um concerto em Quaraí (RS), terra natal do músico, que hoje mora em Roma. “Muito me marcou a sabedoria, cultura e simplicidade desse grande artista que hoje partiu”, escreveu João no dia da morte de Belchior, em 30 de abril, aos 70 anos.

Em várias etapas da vida, o artista fala na tradução de A Divina Comédia Humana, de Dante Alighieri, um projeto no qual parecia permanentemente empenhado. Até ao mosteiro dos capuchinhos ele retornou, contando sobre seu trabalho. Em 30 de abril, o jornalista Thales de Menezes, em texto na Folha de S.Paulo, recordou uma entrevista feita com Belchior em 1987, em que ele contava sobre sua proposta de criar 3 mil desenhos inspirados na obra épica, escrita no século 14. “Uma paixão quase juvenil foi tomando conta de seu discurso. Dante era, sem dúvida, a maior influência comportamental, filosófica e artística assumida por Belchior.”

“Tenho a impressão de que ele pode ter feito anotações, mas era um trabalho para não concluir”, comenta Jotabê Medeiros, sobre A Divina Comédia.

Se concluísse, talvez perdesse o sentido.

Ora, direis,
Ouvir estrelas,
Certo perdeste o senso
Eu vos direi, no entanto
Enquanto houver espaço, corpo e tempo
E algum modo de dizer não
Eu canto

‘Vamos sem Temer’: clipe de Márcio Lugó faz crítica ao governo golpista

Maio 27, 2017

Vídeo de “O Sobrevivente” traz animação que escancara abuso de poder, desigualdade social, violência policial, superlotação do metrô e os muros cinzas de João Doria. “Agora é esperança de revolução’.

O cantor paulistano Márcio Lugó acaba de lançar no YouTube e nas redes sociais o terceiro clipe do álbum Pêndulo. O vídeo feito completamente em animação faz uma crítica literal à atual conjuntura política e social brasileira. Apesar de a letra ter sido escrita há seis anos, a produção escancara mensagens que atingem diretamente o presidente Michel Temer (PMDB), o governo de Geraldo Alckmin (PSDB) no estado de São Paulo e o do prefeito paulistano, João Doria (PSDB).

A música trata sobre um homem que foi preso por pegar “dinheiro como solução” e que mudou de lado dentro da prisão, “se fez comportado, um tanto humilde e sem distrair cumpriu a pena na certeza que não voltaria pra cela abafada depois de sair”. Acontece, que quando saiu da cadeia, ele viu que o cinza tomava conta da situação – e, de forma literal, a animação mostra as brigadas anti-pichação do atual prefeito de São Paulo.

Videoclipe de 'O Sobrevivente' foi dirigido e finalizado pelo ilustrador Dan Leal

Depois de enfrentar as filas e a desesperança nos serviços públicos de empregabilidade, só lhe resta voltar pra casa em metrô abarrotado (“Reverência bovina de todas as noites, onde será que vai essa nação?”). Quando ajuda alguém em situação de rua e com fome, o homem se revolta aparentemente com os lucros exorbitantes dos bancos, com a desigualdade social e conclama o povo a agir. Com mais pessoas, a luta tem mais força contra esta máquina opressora, a mídia e a violência policial: “Agora é esperança de revolução” e é aí que o povo unido carrega a faixa “Vamos sem Temer”.

Em seu site, Márcio Lugó declara a importância da arte na transformação social: “De alguns anos pra cá, percebi que a importância do artista é muito maior do que só o aspecto musical. A arte é a essência. É a desculpa que a gente tem para chegar ao próximo. Para fazer as pessoas refletirem e pensarem um pouco diferente. Nosso papel é estar em contato com essa sociedade que nos cerca, fazendo parte dela, tentando ajudá-la e tentando aprimorá-la”.

O videoclipe foi dirigido e finalizado pelo ilustrador Dan Leal.

Ficha técnica O Sobrevivente
Música
Voz e guitarra: Márcio Lugó
Guitarra, baixo synth e programações: Rafa Moraes
Percuteria, congas, bells e efeitos: Raphael Coelho
Mixagem: Gustavo Lenza
Masterização: Carlos Freitas
Videoclipe
Direção, animação e finalização: Dan Leal

Caetano, Mano Brown, Criolo e outros artistas se apresentam em ato no Rio por diretas já

Maio 26, 2017

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Grandes nomes da música brasileira marcam presença neste domingo (28), na praia de Copacabana, para pedir a saída de Temer e “o direito do povo votar”

“Vamos para as ruas em um evento gigantesco, com grandes artistas, pelas diretas já. Pelo direito do povo votar. Nossa crise é de legitimidade”, afirma em vídeo o ator Wagner Moura, sobre o evento “O Rio pelas Diretas Já“, que será realizado na praia de Copacabana, a partir das 11h, no próximo domingo (28). Além de pedir a saída do presidente Michel Temer (PMDB) e a realização de eleições diretas, os presentes poderão assistir a shows de grandes nomes da música nacional.

“Isso não é um movimento de esquerda nem de direita. Isso é pela democracia. Vamos pressionar para tirar esse Temer de onde ele nunca deveria ter chegado. Temos o direito de escolher o próximo presidente”, completa o ator. O ato conta com a organização das frentes Povo sem Medo e Brasil Popular. “É um fato: Temer não se sustenta mais na presidência. Agora é hora de escolhermos o nosso caminho”, afirmam os organizadores.

Caetano Veloso, Mano Brown, Criolo, Maria Gadú, Teresa Cristina, Mart´nália, Mosquito, Cordão da Bola Preta e BNegão são alguns dos nomes que estarão presentes. “Esse movimento é super importante e necessário para o país”, afirma a cantora e atriz Emanuelle Araújo. “Vamos para a rua lutar por nosso direito de mudar essa bagunça em que foi transformado o governo do nosso país. Serão vários artistas maravilhosos e você não pode perder”, completa.

A organização do evento remete ao movimento das Diretas Já, que defendia o direito de a população votar para presidente, em 1984. “Mais de 30 anos se passaram desde o histórico movimento das Diretas Já. Não há saída que não seja a democracia (…) Não podemos abrir mão dessa escolha e deixar que a Câmara formada por parlamentares tão corruptos quanto Temer e seus aliados decidam por nós”, diz o texto da convocação no Facebook.

O ator Vladimir Brichta gravou um vídeo em seu perfil no Facebook convocando para o ato. “Vamos todos para as ruas pedir nosso direito de escolher o novo presidente. Não vamos deixar nas mão do Congresso. Novo presidente porque todos sabem que Temer vai cair, isso não se discute mais. Mas não se engane, esse Congresso não representa a gente. São mais de 200 pessoas sendo investigadas”, afirma.

Com lei de fomento, coletivo de São Paulo inaugura centro cultural na periferia

Maio 24, 2017

Preta Rara

O Coletivo Perifatividade oferecerá cursos gratuitos de dança étnica, inglês, espanhol e produção audiovisual. Centro conta ainda com biblioteca comunitária.

por Sarah Fernandes

São Paulo – O Coletivo Perifatividade, que reúne artistas e militantes da cultura na periferia, irá inaugurar, no próximo sábado (27), um centro cultural no Parque Bristol, na zona sul de São Paulo, que oferecerá aulas de inglês e espanhol, dança e produção audiovisual. As atividades terão início em julho e serão gratuitas.

O projeto foi um dos beneficiados pela Lei de Fomento à Cultura da Periferia, sancionada no ano passado pelo então prefeito Fernando Haddad (PT), a partir de um projeto de lei de iniciativa popular redigido por coletivos culturais das periferias. Após a sanção foi lançado o primeiro edital, que financia projetos culturais nas periferias da cidade por até dois anos, executados por grupos com pelo menos três anos de atividade. A lei prevê que os editais sejam publicados uma vez por ano.

“Vai ser um espaço de encontros de moradores, vizinhos e movimentos populares, principalmente os ligados à habitação, que são históricos no bairro, desde os mutirões e ocupações”, conta um dos integrantes do coletivo, Ruivo Lopes. “Queremos que haja mais iniciativas como essa no centro e nas cinco regiões da cidade.”

Em junho começarão as inscrições para participar dos cursos e oficinas, que serão todos gratuitos. As aulas começam efetivamente em julho. Entre os cursos oferecidos estão o de dança étnica, com foco em danças indígenas e afro-brasileiras; o de inglês, que usará como pano de fundo das aulas poemas de escritores afroamericanos; e o de espanhol, que trabalhará literatura latinoamericana para o ensino da língua.

Na programação também estão previstas oficinas de capacitação em produção audiovisual independente, que terá como um dos objetivos produzir materiais que contem a história do bairro, marcadas por diversas mobilizações de lutas por direitos, a partir de entrevistas com moradores mais antigos.

O centro comunitário também conta com uma biblioteca comunitária, aberta a todos os interessados, e com espaço para realização do Sarau Perifatividade, que terá periodicidade mensal. No segundo semestre, serão promovidos debates do Círculo de Cultura, Educação e Direitos Humanos, que por três meses terão como tema com a comunidade. “Os três assuntos estão entrelaçados: lutar pelo fazer cultural é um processo de ensinamento que promove direitos”, diz Lopes.

Inauguração

O evento oficial de inauguração do espaço deve começar às 14h, quando o local será apresentado para os moradores do Parque Bristol. Às 17h, será lançada a coletânea de livros de poesias e discos chamada Antologia Poética.

A programação conta ainda com um show da rapper Preta Rara e uma apresentação da escola de samba Acadêmicos do Parque Bristol. O coordenador da Central de Movimentos Populares, Benedito Barbosa, o Dito, estará presente, além de um representante do coletivo Mães de Maio e da escritora Dinha, expoente importante do movimento de literatura da periferia.

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Inauguração do Espaço Cultural Perifatividade
Quando? Sábado (27), a partir das 14h
Onde? R. Dr. Benedito Tolosa, 729 – Parque Bristol, São Paulo
Quanto? Grátis