Archive for the ‘rede brasil atual’ Category

Lâmia Brito transforma cicatrizes em poesia em livro de estreia

Julho 20, 2017

Obra autobiográfica ‘Todas as Funções de Uma Cicatriz’ refaz trajetória de autora conhecida na cena de saraus e slams. Fã da cultura hip hop, Lâmia também tem seus versos espalhados pelos muros da cidade.

por Xandra Stefanel

A literatura é uma espécie de antídoto para as dores de Lâmia Brito. A autora paulistana se debruçou sobre as marcas da própria vida e transformou suas cicatrizes em uma coletânea de poemas. Seu livro de estreia, Todas as Funções de Uma Cicatriz, é uma obra independente com 70 páginas que traz a história da autora reconstruída em forma de um mosaico poético.

Conhecida na cena de saraus e slams da cidade de São Paulo, Lâmia se debruçou durante cinco anos na matéria-prima do livro: seus machucados e cicatrizes preenchem as páginas com força e subjetividade. Esta foi a forma que ela encontrou para curar suas dores: “É uma das minhas formas de autocura. A dor morre à luz da exposição, e só tornando público o que virou cicatriz é que eu posso pensar nelas como uma lembrança, não mais como sofrimento. Eu segui o exemplo das mulheres artistas que vieram antes de mim, como Florbela Espanca, Frida Kahlo, Matilde Campilho. Cada uma tem um jeito diferente de expor sua dor e foi me inspirando nessas mulheres que eu encontrei meu jeito de escrever sobre cada marca. Minha escrita tem um pouco de morte em cada palavra, e é assim que renasço todos os dias. Dividir minhas cicatrizes também é um ato de não me sentir só, a partir do momento que eu vejo a identificação de outras mulheres com o que eu escrevo. Isso é o mais importante”, afirma.

Frases de Lâmia estão espalhadas pelos muros de São PauloAs inspirações de Lâmia passam pelas obras de Matilde Campilho, Rupi Kaur, Sin, Luiza Borba, Pedro Bomba, entre outros. Mas não apenas. Seus versos estão intrinsecamente ligados à influência da cultura do hip hop. “Eu conheci o rap com 12 anos e nunca mais parei de escutar. A paixão pelo hip hop veio mais tarde, quando comecei a estudar mais sobre os elementos que compõem essa cultura, e um deles é o conhecimento. Foi dentro da cultura hip hop que eu conheci os saraus e slams. Poetas se apresentavam nos shows de rap que eu ia e divulgavam os locais onde eles se reuniam e eu fui visitando e me identificando com aqueles espaços. Eu e MC Marechal trabalhamos juntos com o Projeto Livrar, que distribuía livros da literatura marginal durante os shows dele pelo Brasil e eu fui cada vez mais entrando em contato com as escritoras e os escritores ativos na cena periférica”, declara.

“A minha poesia não é a da militância explícita, como é a maioria dos textos falados e das músicas que eu escuto, mas foi uma escolha consciente trazer à tona dentro da cena os temas que giram em torno do amor: o romântico, o não-romântico, o platônico, o selvagem, o próprio, o destrutivo, o ideal etc., justamente pra quebrar a ideia de que a poesia marginal e rap só falam de desgraça em suas letras”, completa Lâmia.

Além de seus versos estamparem as páginas de Todas as Funções de Uma Cicatriz, eles também estão impregnados em muros, em forma de pixos, e na internet, em vídeo-poemas:

Capa“Eu não tinha intenção de lançar um livro tão cedo, tanto que demorei mais ou menos cinco anos pra publicar. Só que a minha escrita nunca quis ficar engavetada, então eu procurei espalhar meus poemas de outra forma, menos convencional, que não fosse em papel. Nas paredes estão trechos de poemas mais longos, como também estão no Facebook e um dia estiveram num blog pessoal. É um jeito de usar a estética do caos como moldura pra minha arte, de mudar um pouco como vemos e sentimos a cidade. Nenhuma das frases que escrevi pela cidade permanecem lá, algumas foram atropeladas, outras a prefeitura pintou de cinza por cima. Essa efemeridade é muito interessante porque provoca a minha criatividade. Eu nunca pixei a mesma frase em lugares diferentes. Eu escrevo e quero que as pessoas me leiam, não importa o formato.”

Todas as Funções de Uma Cicatriz pode ser comprado pelo site www.lamiabrito.com.br.

Festa comemora aniversário de 17 anos do Samba da Vela

Julho 17, 2017

Celebração será realizada no dia 17 de julho no Esporte Clube Banespa, com participações especiais.

Nesta segunda-feira, 17 de julho de 2017, o Samba da Vela festeja seus 17 anos. A data contará com uma celebração que vai reunir convidados especiais e as músicas mais importantes tocadas durante essas quase duas décadas de existência. A festa será realizada a partir das 20h30 no Esporte Clube Banespa, na Avenida Santo Amaro, na capital paulista, e será apresentada pelos atores Gero Camilia e Victor Mendes.

Todas as noites de segunda-feira, cerca de 200 pessoas, sambistas e amantes do ritmo, se reúnem em torno de uma vela acesa e tocam samba de raiz até que ela se apague. “Na data emblemática 17/07/2017, chegamos aos 17 anos do Samba da Vela. Com muitos motivos para festejar e sorrir, estaremos aguardando todos que quiserem se juntar a nós para reviver esses anos com os sambas mais importantes da nossa história”, afirma um dos fundadores do movimento, José Marilton da Cruz, mais conhecido como Chapinha.

A festa semanal de celebração ao samba paulista e de raiz ganhou reconhecimento não apenas na cidade de São Paulo, mas no Brasil todo. Beth Carvalho, Diogo Nogueira, Seu Jorge, Ubirany, do grupo Fundo de Quintal, Zezeh Barbosa, Paulo Miklos, Nasi, Emicida, Criolo e outros cantores, compositores e artistas já prestigiaram a comunidade.

Segundo Chapinha, no início das reuniões que deram origem ao Samba da Vela, os sambistas não imaginavam que teriam tanta repercussão. “Fazíamos apenas o que gostávamos, mostrando entre nós os nossos sambas. Quando pensamos em reconhecimento, acreditamos que seria no máximo em São Paulo. Porque o samba não tem muitos espaços, ainda mais quando falamos em samba de São Paulo. As atenções se voltam sempre ao samba do Rio de Janeiro, e mesmo assim, não é sempre que o ritmo tem atenção. Porém, tivemos a graça de sermos amadrinhados pela Beth Carvalho, que abraçou nosso projeto e deu a visibilidade que temos hoje”.

Durante esses 17 anos, Chapinha afirma que o Samba da Vela ajudou a promover a disseminação de outras comunidades sambistas. “A própria música evoluiu, mesmo seguindo o samba tradicional, vemos evoluções nas letras, mesmo na forma de fazer a música. Um movimento muito bacana que visualizamos é a proliferação das comunidades de samba, essa é maior evolução que podemos apontar. A ideia é copiada Brasil a fora e isso é muito importante para as comunidades que ganham com isso e para o país como um todo que acaba por não deixar de lado sua cultura”, diz.

Para o fundador do Samba da Vela, é fundamental que a comunidade celebre o aniversário do movimento: “Nesses 17 anos, podemos dizer para todos que vale a pena insistir em um sonho em apostar na cultura, no valor do trabalho. São 17 anos nos quais não deixamos morrer a tradição do povo brasileiro e sabemos que tudo valeu a pena”.

17 anos do Samba da Vela
Quando: 
segunda-feira, 17 de julho de 2017, às 20h30
Onde: Esporte Clube Banespa
Avenida Santo Amaro, 5565, Cidade Monções, São Paulo (SP)
Quanto: R$ 10
Pontos de venda:
Casa de Cultura de Santo Amaro: Praça Dr. Francisco Ferreira Lopes, 434, Santo Amaro
Lanchonete Casa de Cultura: Praça Francisco Ferreira Lopes, 450, Santo Amaro
Bar Dom José: Galeria Metrópole, Avenida São Luis, 184, Centro
Loja Contemporânea: Rua General Osório, 46, Luz

Repulsa por relações com pessoas mais velhas é tema de filme nacional

Julho 15, 2017

fala.jpg

Em ‘Fala Comigo’, de Felipe Sholl, um adolescente de 17 anos e uma mulher de 43 se apaixonam e decidem enfrentar preconceitos, neuroses e barreiras para viver este amor.

por Xandra Stefanel

Olhando bem de perto, ninguém é normal. Este clichê cai bem na trama do filme Fala Comigo, primeiro longa-metragem de Felipe Sholl, que estreou nesta quinta-feira (13) nos cinemas. O longa-metragem conta a história de Diogo (Tom Karabachian), um adolescente de 17 anos que gosta de ligar anonimamente para as pacientes da sua mãe psicóloga. É assim que ele conhece Ângela (Karine Teles), uma mulher de 43 anos que vive uma crise depressiva porque acabou de ser abandonada pelo marido.

Trata-se de uma espécie de fetiche de Diogo, um garoto virgem que, no auge da adolescência, encontra prazer em ligar para as pacientes de Clarice (Denise Fraga). Ele cataloga as ligações e dá notas que equivalem ao nível de prazer que teve, em silêncio, enquanto se masturbava. No início, Ângela acreditava que aquelas ligações eram do ex-marido, por isso estendia as conversas de via única e acabava dando mais tempo para Diogo se deliciar com sua voz tristonha.

Até o dia em que ela chega ao fundo do poço e se despede do interlocultor anônimo, deixando claro que tinha decidido pelo suicídio. Ao perceber que suas ligações só pioraram o estado de Ângela, Diogo corre para o apartamento da mulher e a encontra desacordada. Quando ela se dá conta de que as ligações silenciosas que recebia eram feitas pelo filho de sua terapeuta, ela fica furiosa e se sente enojada com a situação. Mas, a sensação ruim logo dá lugar à excitação.

E assim nasce a paixão entre a mulher experiente e o garoto que ruma a passos largos para a vida adulta. A diferença de idade, a mãe de Diogo, o preconceito dos amigos e da família são obstáculos que os dois, aos poucos, decidem enfrentar juntos.

A culpa que Diogo sente por se interessar por mulheres mais velhas, a repulsa inicial de Ângela com a situação e seu sentimento de culpa, assim como os conflitos que esta relação traz são os principais temas do filme. Mas a necessidade de contato humano e de verdadeiras e profundas interações perpassam toda a obra, assim como o desconforto que este vazio traz ao espectador.

Clarice (Denise Fraga) e Marcos (Emílio de Mello), pais de Diogo (Tom Karabachian)Apesar de Clarice ser psicóloga e estar acostumada a ouvir seus pacientes, o mesmo não ocorre dentro de sua própria família: ali, há pouco diálogo e a comunicação é visivelmente falha. Os problemas e as neuroses são mantidos em um quarto escuro que ninguém parece querer acessar, afinal muitas vezes é mais fácil guardá-los do que resolvê-los. A única relação mais próxima da casa é entre Diogo e sua irmã caçula (Anita Ferraz).

Quando Diogo decide enfrentar todos para viver a paixão com Ângela, ele acaba trazendo à luz muitos problemas que precisam ser resolvidos dentro e fora de casa. Na família, ele incita Clarice a deixar de lado a carapuça de psicóloga para assumir o papel de uma mãe que têm em casa um filho entrando na vida adulta, uma filha que dá sinais claros que precisa de mais atenção de todos e um marido que já não suporta mais o silêncio de sua casa.

CartazFala Comigo
Direção e roteiro: Felipe Sholl
Produção: Daniel van Hoogstraten
Elenco principal: Denise Fraga, Karine Teles, Tom Karabachian, Emílio de Mello e Anita Ferraz
Produtor associado: Marcelo Guerra
Produção executiva: Daniel van Hoogstraten e Carlos Eduardo Valinoti
Direção de fotografia: Léo Bittencourt
Montagem: Luisa Marques
Direção de arte: Cedric Aveline
Gênero: Drama
Duração: 90 minutos
País: Brasil
Ano: 
2016

Exposição denuncia justiça desigual e clama por direito de defesa de Rafael Braga

Julho 6, 2017

Obras de 28 artistas plásticos chamam a atenção para a permanência de estruturas desiguais no acesso à defesa e à Justiça no país.

São Paulo – Para denunciar as arbitrariedades cometidas contra Rafael Braga, preso durante as manifestações de quatro anos atrás, 28 artistas plásticos se reuniram na exposição Osso, em cartaz no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. As obras chamam a atenção sobre a desigualdade no acesso à defesa e à Justiça no país.

Rafael Braga, catador de recicláveis, foi preso no Rio de Janeiro em 2013 por portar dois frascos plásticos com produtos de limpeza durante uma das manifestações de junho. A acusação alega que ele portava materiais inflamáveis com intenção de produzir explosivos. Condenado a quase cinco anos, ele foi preso novamente, acusado por tráfico de drogas, que, segundo a defesa, foram plantadas por policiais.

Osso é uma exposição-apelo ao amplo direito de defesa de Rafael Braga. É uma iniciativa, um chamado social, para uma questão humanitária urgente que é a igualdade de direitos, especialmente do direito de defesa da população mais pobre, muitas vezes negra, periférica”, explica o curador Paulo Miyada, em entrevista ao repórter Jô Miyagui, para o Seu Jornal, da TVT.

As obras discutem racismo, violência policial e exclusão social e ressaltam outras injustiças históricas, como o tráfico de escravos e os experimentos eugenistas – tentativas proto-científicas de legitimar argumentos raciais.

“Algumas coisas mudaram, mas, infelizmente, certas estruturas permanecem ativas. Com certeza, o Rafael Braga sabe muito bem disso”, destaca Miyada. As obras sintéticas, “em gesto artístico condensado”, segundo o curador, impactam o público: “O Rafael é um jovem negro. Entendi que a polícia quis prender alguém e pegou o negro, pobre, favelado”, diz uma visitante.

A exposição Osso fica em cartaz até 30 de julho, e funciona de terça a domingo, no Instituto Tomie Ohtake, em Pinheiros, com entrada gratuita. Assista à reportagem.

Banda Bixiga 70 protesta contra Temer no Festival de Jazz de Montreal

Julho 5, 2017

Com show lotado, banda brasileira levanta faixa com mensagem ‘Fora Temer’ no maior festival de jazz do mundo. ‘Nós precisamos continuar lutando’.

por Xandra Stefane

Com um show que reuniu milhares de pessoas no palco principal do Festival Internacional de Jazz de Montreal, no Canadá, nesta segunda-feira (3), a big band Bixiga 70 levou além de sua música, uma contundente mensagem contra o presidente Michel Temer e o atual governo brasileiro. Com uma enorme faixa com os dizeres “Fora Temer”, um dos músicos disse, em inglês: “Nós vivemos um golpe de Estado no Brasil. Espalhe a mensagem. Foi por isso que fizemos a música Primeiramente”. No início do espetáculo, a banda levantou a faixa e a colocou em frente ao palco, para que a mensagem ficasse visível durante toda a apresentação.

Esta música foi lançada no início de junho acompanhada de um videoclipe que apresenta várias cenas de protesto no país. “Primeiramente é fruto do crescente sentimento de insatisfação com a atual situação política e social no Brasil e no mundo. Foi inspirada e é dedicada à luta histórica pela garantia de direitos – independente de classe, cor, gênero, religião, etnia ou partido. Essa é nossa pequena contribuição ao processo de reflexão sobre o momento que vivemos”, anunciou a banda na época do lançamento. Antes de apresentar esta faixa ao público do festival de jazz, os músicos fizeram um breve discurso explicando a situação política no Brasil e, com braços erguidos, gritaram “Fora Temer”.

Durante uma hora de show, a banda apresentou um repertório que mistura música instrumental africana, latina e brasileira com composições próprias e versões. Fizeram até uma homenagem ao rei do baião, Luiz Gonzaga.

O Festival Internacional de Jazz de Montreal, realizado anualmente desde 1980 na cidade canadense de mesmo nome, é considerado pelo Guinness como o maior festival do gênero no mundo. O evento, realizado geralmente entre junho e julho, recebe a cada edição mais de 2 milhões de pessoas do mundo todo. A mensagem e a sonoridade do Bixiga 70 foram devidamente espalhadas nesta segunda-feira, em dois shows, realizados às 10h e à meia-noite (horário do Brasil).

Ellen Oléria recebe convidados para o show ‘Baile da Nêga’

Julho 2, 2017

Com Alma Thomas e Walmir Borges, apresentação no Sesc Belenzinho reverencia música negra com muito soul, samba e funk.

Como nos bailes de salão de antigamente, a cantora Ellen Oléria transforma a Comedoria do Sesc Belenzinho em uma grande pista de dança na sexta-feira, dia 7 de julho. Nesta edição do Baile da Nêga, Oléria se reúne com os intérpretes Alma Thomas e Walmir Borges para celebrar a música negra brasileira. O show faz parte do projeto Música Preta, que apresenta o som das diásporas africanas e dos protagonismos políticos, principalmente das vertentes feministas e outros ativismos periféricos.

Funks, souls e sambas fazem parte da set list do espetáculo, que deve contar com as músicas 5 Minutos, de Jorge Ben Jor, Ilê Ayé, de Paulinho Camafeu, Descobridor dos Sete Mares, de Tim Maia, Bananeira, de João Donato e Gilberto Gil, entre outras.

Baile da Nêga nasceu em Brasília, em 2014, quando Ellen Oléria convidou Sandra de Sá e Paula Lima para a primeira edição. Sempre com Oléria como anfitriã, o evento já contou com a participação do cantor e compositor brasileiro Lazzo Matumbi e a cantora e instrumentista cubana Yusa.

Baile da Nêga
Quando: 
sexta-feira, 7 de julho, às 21h30
Onde: na Comedoria do Sesc Belenzinho
Rua Padre Adelino, 1000, São Paulo (SP)
Quanto: R$ 20,00 (inteira), 10,00 (meia-entrada) e R$ 6,00 (trabalhador do comércio de bens, serviços e turismo credenciado e dependentes)
Duração: 1h30
Classificação: 18 anos
Mais informações: (11) 2076-9700/ www.sescsp.org.br/belenzinho

Xangai ‘conversa’ no palco com mestres do coco e da embolada

Junho 30, 2017

Quatro dias de apresentação gratuita na Caixa Cultural, em São Paulo, incluem bate-papo com o público no sábado.

São Paulo – Ele se chama Eugênio Avelino, e talvez pouca gente o conheça pelo nome. Mas basta ouvir Xangai que o cantador aparece. Próximo dos 70 anos, que completará em março de 2018, o baiano nascido às margens do Córrego do Jundiá estará a partir desta quinta (29) até domingo (2), em São Paulo, tocando e cantando obras dos mestres Jackson do Pandeiro e Jacinto da Silva.

O paraibano Jackson (1919-1982) é mais conhecido do público do Sudeste. Basta lembrar de obras como Sebastiana (gravada em 1953 – o autor é Rosil Cavalcanti, um “pernambucano aparaibanado”, como diz o pesquisador Assis Ângelo), O Canto da Ema e Chiclete com Banana, entre outras de seu vasto repertório. O alagoano Jacinto (1933-2001) é tipo como “discípulo” de Jackson, mas tem vasto repertório desde que começou, ainda criança, nos anos 1940.

Xangai: afiando a língua com os reis do ritmo é o nome do show. O cantor é acompanhado pelo violonista Ricardo Vieira e o flautista e saxofonista Marcelo Bernardes. Depois do show de sábado, 1º de junho, haverá um bate-papo do artista com o público, sobre a cultura popular que ele tão bem representa.

As apresentações, sempre às 19h15, são gratuitas, na Caixa Cultural São Paulo (Praça da Sé, 111) na região central da capital. Os ingressos, limitados a um par por pessoa, são distribuídos a partir das 9h do dia de cada espetáculo. O local tem capacidade para 80 pessoas.

Xangai canta nas várias línguas de sua terra. É amigo de outro baiano famoso, Elomar. Em entrevista no ano passado ao Correio Braziliense, quando lhe perguntaram sobre a obra de Elomar, disse que vinha à mente o escritor Guimarães Rosa, grande “brasilerança”, como ele se refere à herança brasileira, desde o primeiro habitante deste país.

Leandra Leal retrata primeira geração de divas travestis brasileiras

Junho 23, 2017

Marquesa

Documentário ‘Divinas Divas’ resgata a memória afetiva da atriz que cresceu entre mulheres que esbanjam talento e (ainda) desafiam com sua arte os costumes de uma sociedade homofóbica.

por Xandra Stefanel, para a RBA

São Paulo – “As divas fazem parte do meu mundo e eu do delas. Elas nunca foram estranhas para mim. Meu avô tinha um teatro, minha mãe é atriz e eu também sou atriz. Nós herdamos esse teatro Rival, onde vivi as memórias mais fortes da minha infância, nos bastidores, na beira do palco”. É assim que a atriz Leandra Leal começa o filme Divinas Divas, seu primeiro longa-metragem como diretora, que estreia nesta quinta-feira (22) nos cinemas.

Enquanto Nelson Gonçalves canta Escultura, sobre o sonho de uma mulher perfeita, fotos de homens vão se transmutando em glamurosas mulheres – “Cansado de tanto amar/ eu quis um dia criar/ na minha imaginação/ uma mulher diferente/ de olhar e voz envolvente/ que atingisse a perfeição”. Surgem na tela elas que que compõem a primeira geração de artistas transformistas brasileiras: Rogéria, Jane Di Castro, Divina Valéria, Camille K, Fujika de Halliday, Eloína dos Leopardos, Marquesa e Brigitte de Búzios.

DARYAN DORNELLES/DIVULGAÇÃOLeandra
Leandra: ‘Estreei neste mesmo palco em que hoje as divas encenam suas trajetórias para serem eternizadas’

O fio condutor do filme é a memória afetiva da diretora, neta do dono do Teatro Rival, que foi um dos primeiros palcos no Brasil a apresentar homens vestidos de mulher, ainda em plena ditadura militar. Leandra cresceu nas coxias, entre plumas, paetês, brilho, roupas e maquiagens deslumbrantes. “Esse tema fala sobre o que me constitui, sobre a minha história, sobre a minha família. E, ao mesmo tempo, pela relação que tinha com elas, sempre acreditei que só eu poderia fazer esse filme”, afirma.

“Quando eu tinha apenas um mês, uma peça escrita pela minha mãe estava em cartaz. A atriz teve problemas de saúde e ela foi convocada às pressas para o papel. Eu ia bebezinho no colo dela para o teatro toda noite e ficava na coxia, com a camareira, quando ela entrava em cena. Fizeram uma roupa de mini-vedete para mim e no final do espetáculo, minha mãe me levava ao palco. Foi aqui que eu estreiei, neste mesmo palco em que hoje as divas encenam suas trajetórias para serem eternizadas”, declara a diretora durante o filme.

Mas não se trata de um filme sobre Leandra Leal. Ao contrário. Sua voz pontua apenas algumas passagens do longa-metragem, com pouquíssimas e efêmeras aparições. As estrelas do documentário são estas outras mulheres, artistas que representam a história da arte performática no país.

Além contar a trajetória das divas oito divas, Leandra acompanha o processo de construção de um espetáculo homônimo que celebra os 50 anos de carreira do grupo: os ensaios, as discussões, as memórias de dias gloriosos mas também das enormes dificuldades que enfrentaram (e ainda enfrentam) por seus corpos e sua arte serem uma espécie de ato político que revolucionou o comportamento sexual da sociedade brasileira.

No palco, divas

Humor e drama se alternam de maneira natural e equilibrada durante todo o longa-metragem. Há também uma ode ao feminino em seu sentido mais amplo: sobre a força necessária para ser mulher quando não se nasce mulher, os preconceitos de gênero ainda mais acentuados quando se trata de mulheres trans, as vaidades, o medo de envelhecer, os amores e as dores. Tudo vem à tona com força e graça. Rogéria, por exemplo, provocadora e engraçada, se diz “a travesti da família brasileira”.

Modesta, Fujika de Halliday reflete sobre a palavra que dá nome ao filme: “Diva é uma coisa muito séria, né, gente? Diva é diva! Eu sou diva? Será? Oh, meu Deus… Divas são essas mulheres maravilhosas, Maria Callas e essas mulheres divinas, divas. Ser artista é bom, eu gosto”, afirma, sorrindo.

DIVULGAÇÃOJane di Castro
Jane di Castro

Apesar de toda censura e opressão que elas sofreram durante a ditadura, Jane di Castro acredita que é ainda mais difícil ser travesti nos dias de hoje. “Ninguém se transformou para se prostituir. Eu não tenho nada contra a prostituição. Pra mim, prostituição é uma coisa normal, é uma profissão que deveria ser legalizada. Principalmente para as travestis, que não têm espaço. Se travesti não se prostituir, vai morrer de fome mesmo, porque não tem emprego. Travesti, hoje em dia, piorou. Porque elas não são artistas, porque também não têm espaço. Naquela época, tinha espaço e nós trabalhávamos de terça a domingo, com duas sessões na quinta, três no sábado e três no domingo, com casa lotada. Hoje em dia, elas não têm espaço para trabalhar, não têm teatro, não têm nada pra trabalhar. Então, o que têm que fazer? Se prostituir, ganhar o dinheiro delas, senão elas vão morrer de fome. Eu sou totalmente à favor da prostituição. Cada um faz do seu corpo o que quer. Tem de ganhar dinheiro, meu amor, tem de comer, beber, vestir… Sem ser marginal, eu admito tudo. Eu não gosto de marginalidade”, declara Jane.

Divinas Divas apresenta as artistas glamurosas, vestidas para o show biz, mas mostra também as pessoas que existem debaixo da maquiagem pesada e das roupas deslumbrantes. Traz à tona, por exemplo, a história de Marquesa, que foi internada em um sanatório pela família e decidiu que iria se travestir apenas nos palcos para não afrontar a mãe. A única das oito artistas a usar roupas masculinas no dia a dia tem uma saúde frágil que contrasta com suas performances intensas. Marquesa morreu aos 71 anos, em 2015, antes de ver o filme finalizado.

Aliás, este é o maior trunfo do filme: eternizar estrelas cujas existências cintilaram tanto nos palcos quanto nesta sociedade que ainda hoje se bate contra a homofobia, a transfobia e todos os preconceitos de gênero. Divinas Divas, assim como as artistas nele retratadas, personifica a resistência de ser quem se é na arte e na vida. Como elas cantam em uma das apresentações: “Je suis comme je suis“, do francês, eu sou como sou. E é preciso ter muita força, coragem e resiliência para se assumir travesti no Brasil de ontem e de hoje.

O longa ganhou o Prêmio de Melhor Documentário pelo voto popular e foi eleito Melhor Documentário pelo Prêmio Felix, de produções com temáticas relativas à diversidade de gênero, no Festival do Rio 2016, o Prêmio do Público da Mostra Global do Festival South by Southwest, em Austin, no Texas e Melhor Filme pelo Júri Popular e Melhor Direção no 11º Fest Aruanda do Audiovisual Brasileiro, em João Pessoa.

CartazDivinas Divas
Direção: Leandra Leal
Roteiro: Carol Benjamin, Leandra Leal, Lucas Paraizo, Natara Ney
Produção executiva: Carol Benjamin
Montagem: Natara Ney, edt
Fotografia: David Pacheco
Produtoras: Leandra Leal, Carol Benjamin, Natara Ney e Rita Toledo
Produtores associados: Bianca Villar, Fernando Fraiha e Karen Castanho
Realização e produção: Daza Filmes
Coprodução: Biônica Filmes e Canal Brasil
Distribuição: Sessão Vitrine Petrobras

Companhia de teatro invoca a palavra como forma de resistência social

Junho 21, 2017

Montagem sinfônica “Roda das Vozes em Estado de Sítio” mistura linguagem teatral com samba de breque para refletir sobre o modelo de sociedade que temos e queremos.

por Xandra Stefanel

Estreia nesta quinta-feira (22), no Teatro da Universidade de São Paulo (Tusp), a peça sinfônica Roda das Vozes em Estado de Sítio, da companhia Ausgand de Teatro. A montagem propõe um debate sobre o papel da palavra na nossa sociedade e sobre a mecanização da língua em tempos em que o povo é estraçalhado pelo capital corporativo. “A voz e a palavra podem emergir como resistência a toda forma de controle e violência”, invoca a companhia.

Permeada por canções e falas do cantor e compositor Itamar Assumpção, a peça aborda a saturação da palavra, a produção massiva de uma língua sem ninguém dentro, sem densidade nem mistério. Na obra, se fundem o jogo entre o samba de breque, as canções de Bertolt Brecht e dos compositores alemães Hanns Eisler e Kurt Weill.

“A mecanização da língua se articula à mecanização do corpo promovida pelo capitalismo. Sua principal consequência é a objetivação da palavra e dos discursos, cuja prova cabal é a utilização crescente das estatísticas como dados incontestáveis da realidade. Nossos corpos e vozes estão sitiados, não falamos: somos falados. Estamos perdendo o sabor de língua, como diz o filósofo espanhol José Luis Pardo, para quem há um movimento em marcha para livrar a linguagem de sua incômoda espessura, uma tentativa de que a linguagem seja lisa, sem risco”, diz o dramaturgo Zebba Dal Farra.

O espetáculo aborda essas questões de forma poética, contrapondo fala a canto, e crítica, evocando de diversas maneiras o caráter religioso do capitalismo contemporâneo. Além disso, há uma ideia recorrente de que ao capital não interessa nem o que seja o arroz, o algodão, o homem e a mulher: só lhe interessa seu preço”, completa o dramaturgo, integrante do elenco, junto com Maria Simões, Carolina Martins, Beto Siqueira, Luan Braga, Macalé, Pedro Teixeira e Renan Abreu.

JOÃO GOLD/DIVULGAÇÃOMaria SimõesMaria Simões, da companhia Ausgang de Teatro

Roda das Vozes em Estado de Sítio é uma espécie de híbrido entre teatro e roda de samba. Segundo Dal Farra, o formato surgiu em 2001 em uma ocupação do Teatro Alfredo Mesquita.

“Nas rodas de samba tradicionais há uma mesa no centro, onde se colocam letras de músicas, cerveja, e salgadinhos para os músicos. Nossa roda de samba aparece quando retiramos essa mesa e nela surge a arena, propícia à manifestação teatral. Então, a roda mistura improvisação musical e teatral, guiada por um roteiro como um fio condutor”, descreve Dal Farra. Ele cita Paulinho da Viola: “É o ‘rio de murmúrios da memória, que quando aflora serve antes de tudo pra aliviar o peso das palavras, que ninguém é de pedra’. A roda bebe desse jogo entre memória, tradição e presença. É um lugar de passagem, entre formal e informal, entre acaso e composição”.

Para o dramaturgo, no futuro o teatro talvez seja um dos poucos lugares em que a saturação da palavra pode dar lugar a ações transformadoras. “Diz Noca da Portela, em Peregrino: ‘Ninguém vive feliz se não puder falar, e a palavra mais linda é a que faz cantar’. A saturação da palavra cotidiana pode ser superada talvez pela palavra poética no contexto das relações éticas e políticas. O teatro no futuro será, talvez, o único lugar do encontro presencial das pessoas, em que corpos e vozes se confrontam e se enfrentam em tempo real. Nesta perspectiva, o teatro pode impulsionar ações críticas e transformadoras”, define.

A peça fica em cartaz no Tusp até 9 de julho, de quinta a domingo, com uma apresentação especial na segunda-feira, 10 de julho.

Roda das Vozes em Estado de Sítio, da companhia Ausgand de Teatro
Estreia nesta quinta-feira, dia 22 de junho, às 21h
Temporada: de 23 de junho a 9 de julho
Quintas, sextas e sábados às 21h, e domingos às 19h.
Sessão especial: segunda, dia 10 de julho, às 21h
Onde: Teatro da Universidade de São Paulo (Tusp)
Rua Maria Antonia, 294, Consolação, São Paulo
Quanto: R$ 30 e R$ 15. Ingressos à venda no local duas horas antes das apresentações
Duração: 90 minutos
Classificação: livre
Informações: (11) 3123-5223/ (11) 3123-5233 e rapsodiausgang@gmail.com

Livro reúne reflexões de intelectuais sobre a crise da esquerda no Brasil e no mundo

Junho 19, 2017

Um dos organizadores da obra “A crise das esquerdas”, que chega às livrarias em junho, Aldo Fornazieri diz que é preciso superar a “síndrome de Caim e Abel” e trabalhar pela unidade.

por Eduardo Maretti, da RBA

São Paulo – Chega às livrarias em junho, pela editora Civilização Brasileira, A crise das esquerdas, livro que reúne textos e entrevistas de diversos intelectuais sobre a esquerda no mundo contemporâneo. Segundo Aldo Fornazieri, professor de filosofia política da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp) e um dos organizadores da obra, o coordenador do MTST, Guilherme Boulos, por exemplo, aborda a questão da necessidade de se refletir sobre um fator essencial: a dificuldade de incorporar “uma militância de novo tipo em torno de outras bandeiras que não são as trabalhistas, clássicas”.

De acordo com Fornazieri, os militantes da nova geração não querem mais “saber de estruturas organizadas verticalmente”, mas reivindicam a prática de uma política mais horizontal. “Seria necessário pensar uma nova pedagogia, uma nova prática política da esquerda”, diz Fornazieri, em entrevista à RBA.

Para ele, os fatores que levam a esquerda atualmente a passar por dificuldades são múltiplos e complexos. “As crises são diferentes. A crise no Brasil é de um tipo e na Europa, de outro.” Porém, há aspectos em comum.

Para o outro organizador do livro, o sociólogo Carlos Muanis, “há um abismo perigoso e crescente entre a sociedade e o mundo político”. Segundo ele, existe uma paralisia provocada “pela desconfiança da capacidade de os Estados cumprirem suas promessas básicas de serviços públicos”.

A crise das esquerdas reúne textos e entrevistas de Aldo Fornazieri, Tarso Genro, Guilherme Boulos, Renato Janine Ribeiro, Carla Regina Mota Alonso Diéguez, Carlos Melo, Carlos Muanis,  Cícero Araújo, Moisés Marques, Rodrigo Estramanho de Almeida, Ruy Fausto e Sérgio Fausto.

Leia a seguir a entrevista do professor Aldo Fornazieri:

Como se poderia caracterizar a crise da esquerda?

As crises são diferentes. A crise no Brasil é de um tipo e na Europa, de outro. Não dá para fazer uma caracterização geral. Mas se pode dizer que existe uma crise acerca do lugar onde a esquerda se coloca, na medida em que ela se aproximou muito dos liberais e do neoliberalismo.

Os partidos de esquerda vieram para o centro. Tem uma crise da ação política e programática. A esquerda ficava historicamente com a ideia da utopia, e nos últimos tempos ficou naquilo que o professor Renato Janine chama de redução de danos.

Uma atuação pragmática…

Pragmática, mas faz políticas orientadas para a redução dos danos causados pelo capitalismo. A esquerda teria se tornado uma espécie da cereja no bolo do capitalismo, na medida em que não existe mais um conflito sistêmico. Estamos dentro de um único sistema, que é o sistema capitalista, e não existiria mais uma alternativa socialista hoje no mundo, uma alternativa comunista.

O outro aspecto da crise é o que se chama da crise de pressupostos, que eu abordo. Os principais pressupostos: qual o significado da luta de classes hoje, na medida em que o proletariado clássico quase que desapareceu? Faz ainda sentido falar na ideia de um proletariado revolucionário? Parece que não.

O outro elemento dessa crise de pressupostos é que, historicamente, o marxismo entendeu a política subordinada à economia e com isso perdeu a capacidade de perceber a política na sua autonomia.

E uma terceira crise de pressupostos diz respeito aos próprios partidos, que hoje são estruturas verticalizadas, burocratizadas, e não conseguem absorver uma militância de novo tipo em torno de outras bandeiras que não são as trabalhistas, clássicas etc. Eles não querem saber dessas estruturas organizadas verticalmente. Querem praticar uma política mais horizontal. No livro, Guilherme Boulos aborda isso. Seria necessário pensar uma nova pedagogia, uma nova prática política da esquerda.

Poderia traduzir isso, no Brasil, para algo como o PT voltar às bases ou ter abandonado as bases?

Em parte é um pouco isso. Antes de chegar ao poder o partido era de uma militância mais participativa, mais vinculada aos movimentos sociais. Hoje, de modo geral, tanto o PT como os demais partidos de esquerda não têm uma pedagogia capaz de atrair as novas formações militantes em torno de novas bandeiras e questões, e menos ainda a periferia, que cansou de ser massa de manobra dos partidos de esquerda.

Então hoje você vê uma forte influência das igrejas evangélicas na periferia, que adotam um tipo de prática que de certa forma tirou as esquerdas do trabalho de base, principalmente na periferia.

Quando o senhor fala da crise dos pressupostos, aborda mais a esquerda mundial?

Esses pressupostos, mesmo a questão das periferias, não é um problema só aqui no Brasil. Por exemplo, na França, o Partido Socialista, de centro-esquerda, foi reduzido drasticamente. Lá surgiu uma nova esquerda, mas se você for ver, tanto na França, quanto nos EUA, os operários tradicionais votaram na direita.

No mundo, uma crise da esquerda poderia se caracterizar pelo seguinte: em vários países a polarização é entre a direita e o centro, e a esquerda está fora dessa polarização.

No Brasil, depois do golpe que tirou Dilma do poder, a esquerda não ficou um pouco sem rumo, como alguns analistas observaram?

Em todo o processo do impeachment a esquerda ficou muito paralisada, com pouca capacidade de mobilização. Você percebe que agora mesmo, com um governo quase se decompondo no ar, a esquerda tem pouca capacidade de mobilização nas ruas para pôr um fim a esse governo.

Por que isso acontece?

Exatamente porque ela perdeu o trabalho de base. Isso por um lado. E por outro lado tem todo o desgaste que aqui no Brasil a ideia de esquerda sofreu por conta do fracasso do governo Dilma e por conta do fato de que o PT é visto como um partido que se corrompeu também. Isso provocou um enorme desgaste, não só no PT como na esquerda em geral.

Alguns analistas, como Roberto Amaral, defendem que a saída é a união das esquerdas. O senhor concorda?

Eu entendo que é correta essa proposição. Quanto mais a esquerda se divide, mais favorece a direita e o centro. Ela precisa olhar para a formações mais próximas da gente, que são mais exitosas, como a Frente Ampla do Uruguai. Entendo que talvez a esquerda latino-americana mais exitosa no momento seja a esquerda uruguaia, tanto nos resultados que produziu quanto como referência moral, que é o Pepe Mujica.

É viável essa união das esquerdas no Brasil?

Acho que ela é difícil, pelo tipo de cultura divisionista da esquerda. Embora a proposição seja correta, entendo que é difícil porque a esquerda sempre viveu aquilo que a gente chama de “síndrome de Caim e Abel”, ódio entre irmãos.

É preciso superar essa cultura da divisão. As pessoas mais sensatas e que têm uma visão mais ampla do processo político em curso precisam trabalhar para a superação dessa síndrome histórica da divisão entre as esquerdas.