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DOCUMENTÁRIO RESGATA OBRA E PENSAMENTO DO TROPICALISTA ROGÉRIO DUARTE

Abril 30, 2018

RogérioFilme de José Walter Lima homenageia um dos maiores nomes da contracultura brasileira, o multi-artista que foi designer gráfico, tipógrafo, músico, poeta e um dos criadores da Tropicália.

por Xandra Stefanel, especial para RBA

Há exatos 50 anos, nascia o disco-manifesto Tropicália, o marco fundador de um dos mais importantes movimentos musicais brasileiros. Para celebrar a efeméride e render uma justa homenagem, o cineasta, produtor e artista plástico José Walter Lima lançou esta semana nos cinemas o documentário Rogério Duarte, o Tropikaoslista, que dá voz ao ao multi-artista que é considerado mentor e um dos idealizadores do movimento tropicalista. 

A arte, as lembranças, as crenças, os hobbies e as reflexões sobre a Tropicália são apresentados por meio de um longo depoimento de Rogério Duarte. Não há entrevistas com outros artistas, amigos nem familiares. Na tela, fala apenas Duarte e imagens de arquivo dão conta do rico e conturbado universo do baiano nascido em Ubaíra.

“Esse trabalho é uma tentativa de uma retomada da vanguarda artística do cinema brasileiro. Trata-se de um documentário sem as mesmices pachorrentas, cheio de entrevistas. Só quem fala é o protagonista. Nesse caso, Rogério Duarte. Ao longo desses anos, o que vemos é um deserto total no que se refere ao cinema de linguagem. Dentro desse conceito foi realizado esse filme, contando a magnitude tropical desse maravilhoso pensador, ator de muitas ações nos bastidores que contribuíram para mudar os paradigmas da cultura”, afirma o diretor José Walter Lima.

Duarte é o criador das capas dos principais discos tropicalistas, entre eles de álbuns de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Jorge Mautner, além de cartazes de filmes, como Deus e O Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe Idade da Terra, de Glauber Rocha, o anárquico grito contra a ditadura Meteorango Kid, Herói Intergaláctico, de André Luiz Oliveira, O Desafio, de Paulo Cezar Saraceni, e Cara a Cara, de Julio Bressane.

Tropikaoslista

Gênio marginal

Ao sair da missa de sétimo dia do estudante Edson Luís, no Rio de Janeiro, Rogério e seu irmão foram sequestrados por agentes da ditadura. A brutalidade que sofreu durante os dez dias de tortura e o período que passou na prisão transformaram para sempre a vida do artista que, depois, teve de se esconder em sua cidade natal durante muitos anos em um processo que ele chama de “inxílio”.

“Eu fui uma pessoa muito próspera e auspiciosa até uma determinada época. Depois da prisão, eu fui para o hospício, eu fui arrasado, digamos assim. Quando eu saí da prisão, eu vi a diferença: ninguém queria mais conversa comigo porque os ‘homens’ estavam atrás de mim, entende? Todos fecharam a porta. Todos. Primeiro, eu fui preso em abril e torturado, mas escapei e fiquei meio louco. Durante esse período, até o fim do ano, eu vivi uma vida de zumbi. Foi aí que ninguém queria mais me receber em lugar nenhum. Aí, eu pirei legal, né? Até que minha família me pegou e internou em São Paulo. No fim do exílio de Caetano, encontrei com ele na Bahia e disse: ‘Agora, nunca mais vou dar sopa’. Aquele charme discreto da burguesia nunca mais vai me pegar de novo”, declara Rogério no longa.

Não faltam, aliás, alfinetadas na turma que compunha o movimento tropicalista. “Há um componente político na Tropicália que foi um pouco esquecido. Se vamos falar do nosso tropicalismo, da Tropicália do Hélio [Oiticica], também do Caetano, sem dúvida nenhuma… Mas não dessa coisa que dizem da música popular que virou grife, meio colonizada e que também muito importa, mas [que] não tem a mesma contundência de protesto, de manifestação, de revolução, de transformação no nível político”, diz.

E continua: “Havia ideias tropicalistas que foram abandonadas. As próprias roupas que a gente usou na época do movimento, que o Guilherme [Araújo, então empresário de Caetano e Gil] comprava de Carnaby Street [em Londres]… A ideia inicial era figurinos feitos por Lina Bardi. Então, o Guilherme dá um jeito de ‘beatinizar‘ o tropicalismo. Na medida em que o establishment reencorporou o tropicalismo e o colocou a seu serviço, eu disse ‘Estou fora’.”

Em uma das metáforas mais bonitas do filme, Rogério Duarte explica sua postura marginal. “Como a gente era, assim digamos, à gauche [do francês, à esquerda] da Tropicália, eu fiz um trecho que se chama Marginália. Sou marginal porque descobri que a margem fica dentro do rio. Isso era muito mais importante porque era um paradoxo. A margem fica dentro do rio e não na margem. Mas o rio era o Rio de Janeiro.”

O engajamento na programação visual da União Nacional dos Estudantes, a UNE, as agitações tropicalistas com o grupo baiano e Hélio Oiticica, seus contatos com a Bossa Nova, a profunda amizade que nutria por Glauber Rocha, a descoberta do xadrez aos 50 anos, a vida de sitiante no interior da Bahia, sua dedicação ao movimento Hare Krishna e a descoberta do câncer também são abordados no filme.

Outro destaque é a participação de dois de seus companheiros tropicalistas na homenagem feita porJosé Walter Lima: Caetano Veloso canta Gayana, de autoria de Rogério, e Gilberto Gil interpreta Não Tenho Medo da Vida, que compôs depois de uma conversa com o Rogério.

Apesar da linearidade que não combina muito com a obra do protagonista, Rogério Duarte, o Tropikaoslista apresenta ao público a obra e o pensamento de um gênio provocador que nem sempre teve os créditos e a atenção que mereceu. Uma pena que esta celebração tenha chegado aos cinemas só dois anos depois de sua morte, em 2016.

CartazRogério Duarte, o Tropikaoslista
Direção: José Walter Lima
Elenco: Rogério Duarte, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Paquito, Carlos Rennó, Luis Caldas, Armandinho, Diogo Duarte
Distribuição: O2 Play
Ano: 2016
País: Brasil
Gênero: Documentário
Duração: 88 minutos

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‘O PROCESSO’ ABRE DA PROGRAMAÇÃO DE CINEMA PELA DEMOCRACIA

Abril 29, 2018

Sucesso de crítica e de público, documentário será exibido na praça Santos Andrade, no centro de Curitiba, nesta segunda (30). A partir do dia 4, a Mostra passa a ser exibida na vigília Lula Livre.

por Redação RBA

Vencedor da competição internacional de documentários Visions du Réel, em Nyon, na Suíça, e escolhido pelo público como o terceiro melhor da mostra Panorama, do Festival de Berlim, “O Processo”, de Maria Augusta Ramos, vai abrir a programação da Mostra de Cinema pela Democracia em Curitiba que começa nesta segunda-feira (30), às 19 horas, na praça Santos Andrade, no centro.

Na praça Santos Andrade haverá sessões nos dias 2 e 3, sempre às 19 horas. E nos dias 4, 5 e 6, no mesmo horário, os filmes serão exibidos no acampamento Marisa Letícia, perto da Polícia Federal, onde o ex-presidente Lula está preso desde 7 de abril.

Mostra Cinema pela Democracia é uma iniciativa de produtores, cineastas, técnicos e artistas em uma organização coletiva e suprapartidária, unidos na luta pela democracia em todos os âmbitos, e contra os retrocessos que vêm sendo incessantemente impostos.

Segundo a organização, exibir o documentário no âmbito da vigília Lula Livre é uma maneira de somar forças à resistência pela democracia incessantemente golpeada neste país. “Iremos resistir com arte, lutar nas ruas e nas telas! Agir na disputa de narrativas que se trava no Brasil sob golpe legislativo, jurídico e midiático”, diz a mensagem na página da mostra.

As apresentações são gratuitas, ao ar livre. Mas toda e qualquer contribuição até o fim da ação é bem vinda para ajudar a cobrir compromisso assumidos durante a produção.

REPRODUÇÃOO processo documentário
Cartaz oficial do documentário O Processo, de Maria Augusta Ramos

Alguns dos títulos já confirmados na programação são: Linha de Montagem, de Renato Tapajós; Martírio, de Vincent Carelli: Joaquim, de Marcelo Gomes; Peripatético, de Jéssica Queiroz e Nóis por Nóis, de Jandir Santin e Aly Muritiba.

450 horas

Para realizar o documentário, Maria Augusta acompanhou durante meses o processo que levou ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff mesmo sem a existência de crime de responsabilidade.

No total reuniu 450 horas de filmagens feitas por ela e sua equipe nos corredores do Congresso Nacional, em entrevistas coletivas, sessões de votação na Câmara dos Deputados e no Senado – um testemunho nunca mostrado dos bastidores do golpe de estado de 2016.

Depois de Berlim e da Suíça, o documentário estará no Canadá, em Portugal, na Espanha, Inglaterra e volta para a Alemanha, desta vez para Munique.

´É POR ISSO QUE UMA THURMAN ESTÁ ZANGADA´

Fevereiro 6, 2018

Em depoimento ao jonrnal The New York Times atriz fala do assédio do produtor Harvey Weinstein e como foi vítima de acidente nas filmagens de Kill Bill, sem que pudesse ser substituída por um dublê.

por Blog Dias de Cinefilia

Dias de Cinefilia – Uma Thurman foi estuprada. Ela foi assediada sexualmente. Ela foi traída por pessoas que ela conhecia e iludida por aqueles em quem confiava. Ela foi pressionada e levada a um evento que deixou sequelas físicas. Embora isso lembre o enredo de Kill Bill, filme de Quentin Tarantino estrelado por ela e produzido por Harvey Weinstein, estamos falando da história real de Uma. E os dois homens citados têm tudo a ver com esse sofrimento.

Em outubro de 2017, em meio a várias denúncias contra Harvey Weinstein, Uma Thurman declarou que não falaria nada naquele momento, porque ela queria ficar “menos zangada” antes de falar qualquer coisa. Hoje, ela falou. “Eu disse ‘zangada’, mas a verdade é que eu tinha medo de chorar enquanto te conto a verdade.”

Uma foi lançada ao estrelato por Pulp Fiction, filme que a indicou ao Oscar e tornou Harvey Weinstein um produtor prestigiado e multimilionário. Uma foi apresentada ao produtor depois que o filme já estava fazendo sucesso. “Eu o conheci bem antes dele me atacar. Ele passava horas me falando sobre possíveis projetos, ele me elogiava e me validava. Mas eu nunca fui uma queridinha do estúdio. Ele me mantinha numa coleira com os filmes e diretores que ele achava que eram os certos para mim.”

Ainda nos anos 90, Weinstein a convidou para uma reunião em um hotel para discutirem papeis. No meio da reunião, Weinstein apareceu só de roupão. “Eu não me senti intimidada. Achei que ele estava sendo só rotineiro, como um tio doidinho e excêntrico.” Harvey a levou para uma sala parecida com uma sauna e se insinuou para ela. Uma perguntou o que ele estava fazendo e Harvey foi embora.

Pouco tempo depois, ele a atacou novamente em uma reunião. “Ele me empurrava pra baixo e tentou se esfregar em mim. Ele tentou ficar pelado pra mim. Ele tentou todo tipo de situação desagradável. Eu me sentia um animal me torcendo para fugir, como uma lagarta.”

No dia seguinte, Harvey a mandou um buquê de flores. Os assistentes dele a ligavam o tempo todo para falar de projetos. Uma pensou em confrontá-lo. Uma sabia do que os homens de Hollywood eram capazes: quando ela tinha 16 anos, foi estuprada por um ator 20 anos mais velho.

Ele agendou uma reunião com ela em um hotel. Uma foi acompanhada de Ilona Herman, maquiadora (que trabalhou em Kill Bill, anos depois). Ilona a esperou na porta do elevador, depois que os assistentes de Harvey a convenceram a subir até o quarto e falar com ele. Assim que Uma entrou, ela disse a Harvey: “Se você fizer o que fez comigo com outras pessoas, você vai perder sua carreira, sua reputação e sua família. Eu te prometo isso.”

Horas depois, a porta do elevador abriu e Thurman parecia devastada. “Ela estava muito abatida e tinha uma expressão vazia no rosto. Os olhos dela estavam arregalados e ela estava fora de controle. Eu a empurrei para dentro do táxi e fomos para a minha casa. Ela tremia muito.” Harvey prometeu que acabaria com a carreira dela.

A partir daquele dia, Uma o tomou com inimigo. Ela só se reunia com ele em situações supervisionadas.

Em 2001, Uma Thurman estava grávida no Festival de Cannes, se reunindo com Quentin Tarantino. Kill Bill, um filme baseado numa ideia que Uma e Quentin tiveram juntos ainda na época de Pulp Fiction. Uma tentava convencer Tarantino a não trabalhar com Harvey. Quentin já sabia da história e desconversou da primeira vez, dizendo que “o Harvey estava sempre tentando ter as garotas que ele não pode ter”. Em Cannes, Uma o lembrou de novo do ocorrido e Quentin decidiu confrontar Weinstein.

Weinstein disse que ela estava louca e que ele estava ressentido pelas acusações. Uma o confrontou pessoalmente. Ele pediu desculpas a ela.

Mas a relação de Uma e Quentin Tarantino mudou desde então.

Quentin cuidou pessoalmente de algumas das medidas sádicas que a Noiva sofre durante o filme, como a cena em que ela é enforcada pela Gogo e quando Budd cospe na cara dela. Foi Tarantino quem cuspiu.

Faltando quatro dias para terminar as filmagens, Tarantino exigiu que Uma filmasse sem dublê a famosa cena em que ela dirige um carro e fala com a câmera. Uma tinha que dirigir a 65km/h para que o cabelo dela voasse da forma planejada. A estrada era de areia e tinha alguns obstáculos e curvas. O carro bateu numa árvore durante a cena. Uma deu entrada no hospital com uma concussão.

O acidente deixou sequelas até hoje no pescoço e nos dois joelhos da atriz. Ela chama o evento de “minha desumanização ao ponto de morte”.

A Miramax a proibiu de ter acesso à filmagem do acidente, a menos que ela assinasse um documento confirmando que não processaria o estúdio. Ela não assinou. A acusação não deu em nada.

Uma Thurman e Quentin Tarantino não conseguiam mais se encontrar sem brigar. Eles nunca mais fizeram um filme juntos, apesar dele viver prometendo um dia fazer Kill Bill 3.

O filme seguinte de Quentin, À Prova de Morte, trazia Zoe Bell (dublê de Uma Thurman em Kill Bill e parecida com ela fisicamente) sendo jogada do capô de um carro.

Uma não foi a única do elenco de Kill Bill a ser atacada por Weinstein. Daryl Hannah foi assediada pelo produtor e disse que Quentin Tarantino ignorou suas acusações.

“Quando eles se voltaram contra mim depois do acidente… Eu deixei de ser uma colaboradora criativa de Kill Bill e uma atriz, eu passei a ser uma ferramenta quebrada.”

“Harvey me atacou mas não me matou. O que mais me doeu no acidente foi que tudo aconteceu por uma cena barata. Eu já tinha passado por tanta coisa até aquele momento. Eu sempre senti uma conexão muito forte com o meu trabalho com Quentin e muito do que eu deixei acontecer comigo e fiz parte eram, para mim, como brigar com um irmão mais velho. Mas eu achava que eu estava colaborando, sabe?”

Quinze anos depois do acidente, Tarantino a entregou a filmagem do ocorrido. “Quentin finalmente se redimiu, certo? Mas agora não importa mais, depois do meu pescoço machucado permanentemente e meus joelhos ferrados.”

“Eu levei 47 anos para parar de chamar de ‘apaixonadas por mim’ pessoas que são simplesmente más comigo. Levei um tempo enorme porque, quando somos garotas, nós somos condicionadas a acreditar que crueldade e amor estão interligados. Isso vem de uma época que nós precisamos nos distanciar urgentemente.”

Texto baseado no depoimento Uma Thurman para o The New York Times hoje à tarde. A matéria completa tem o vídeo do acidente: https://www.nytimes.com/…/this-is-why-uma-thurman-is-angry.… )

Lâmia Brito transforma cicatrizes em poesia em livro de estreia

Julho 20, 2017

Obra autobiográfica ‘Todas as Funções de Uma Cicatriz’ refaz trajetória de autora conhecida na cena de saraus e slams. Fã da cultura hip hop, Lâmia também tem seus versos espalhados pelos muros da cidade.

por Xandra Stefanel

A literatura é uma espécie de antídoto para as dores de Lâmia Brito. A autora paulistana se debruçou sobre as marcas da própria vida e transformou suas cicatrizes em uma coletânea de poemas. Seu livro de estreia, Todas as Funções de Uma Cicatriz, é uma obra independente com 70 páginas que traz a história da autora reconstruída em forma de um mosaico poético.

Conhecida na cena de saraus e slams da cidade de São Paulo, Lâmia se debruçou durante cinco anos na matéria-prima do livro: seus machucados e cicatrizes preenchem as páginas com força e subjetividade. Esta foi a forma que ela encontrou para curar suas dores: “É uma das minhas formas de autocura. A dor morre à luz da exposição, e só tornando público o que virou cicatriz é que eu posso pensar nelas como uma lembrança, não mais como sofrimento. Eu segui o exemplo das mulheres artistas que vieram antes de mim, como Florbela Espanca, Frida Kahlo, Matilde Campilho. Cada uma tem um jeito diferente de expor sua dor e foi me inspirando nessas mulheres que eu encontrei meu jeito de escrever sobre cada marca. Minha escrita tem um pouco de morte em cada palavra, e é assim que renasço todos os dias. Dividir minhas cicatrizes também é um ato de não me sentir só, a partir do momento que eu vejo a identificação de outras mulheres com o que eu escrevo. Isso é o mais importante”, afirma.

Frases de Lâmia estão espalhadas pelos muros de São PauloAs inspirações de Lâmia passam pelas obras de Matilde Campilho, Rupi Kaur, Sin, Luiza Borba, Pedro Bomba, entre outros. Mas não apenas. Seus versos estão intrinsecamente ligados à influência da cultura do hip hop. “Eu conheci o rap com 12 anos e nunca mais parei de escutar. A paixão pelo hip hop veio mais tarde, quando comecei a estudar mais sobre os elementos que compõem essa cultura, e um deles é o conhecimento. Foi dentro da cultura hip hop que eu conheci os saraus e slams. Poetas se apresentavam nos shows de rap que eu ia e divulgavam os locais onde eles se reuniam e eu fui visitando e me identificando com aqueles espaços. Eu e MC Marechal trabalhamos juntos com o Projeto Livrar, que distribuía livros da literatura marginal durante os shows dele pelo Brasil e eu fui cada vez mais entrando em contato com as escritoras e os escritores ativos na cena periférica”, declara.

“A minha poesia não é a da militância explícita, como é a maioria dos textos falados e das músicas que eu escuto, mas foi uma escolha consciente trazer à tona dentro da cena os temas que giram em torno do amor: o romântico, o não-romântico, o platônico, o selvagem, o próprio, o destrutivo, o ideal etc., justamente pra quebrar a ideia de que a poesia marginal e rap só falam de desgraça em suas letras”, completa Lâmia.

Além de seus versos estamparem as páginas de Todas as Funções de Uma Cicatriz, eles também estão impregnados em muros, em forma de pixos, e na internet, em vídeo-poemas:

Capa“Eu não tinha intenção de lançar um livro tão cedo, tanto que demorei mais ou menos cinco anos pra publicar. Só que a minha escrita nunca quis ficar engavetada, então eu procurei espalhar meus poemas de outra forma, menos convencional, que não fosse em papel. Nas paredes estão trechos de poemas mais longos, como também estão no Facebook e um dia estiveram num blog pessoal. É um jeito de usar a estética do caos como moldura pra minha arte, de mudar um pouco como vemos e sentimos a cidade. Nenhuma das frases que escrevi pela cidade permanecem lá, algumas foram atropeladas, outras a prefeitura pintou de cinza por cima. Essa efemeridade é muito interessante porque provoca a minha criatividade. Eu nunca pixei a mesma frase em lugares diferentes. Eu escrevo e quero que as pessoas me leiam, não importa o formato.”

Todas as Funções de Uma Cicatriz pode ser comprado pelo site www.lamiabrito.com.br.

Festa comemora aniversário de 17 anos do Samba da Vela

Julho 17, 2017

Celebração será realizada no dia 17 de julho no Esporte Clube Banespa, com participações especiais.

Nesta segunda-feira, 17 de julho de 2017, o Samba da Vela festeja seus 17 anos. A data contará com uma celebração que vai reunir convidados especiais e as músicas mais importantes tocadas durante essas quase duas décadas de existência. A festa será realizada a partir das 20h30 no Esporte Clube Banespa, na Avenida Santo Amaro, na capital paulista, e será apresentada pelos atores Gero Camilia e Victor Mendes.

Todas as noites de segunda-feira, cerca de 200 pessoas, sambistas e amantes do ritmo, se reúnem em torno de uma vela acesa e tocam samba de raiz até que ela se apague. “Na data emblemática 17/07/2017, chegamos aos 17 anos do Samba da Vela. Com muitos motivos para festejar e sorrir, estaremos aguardando todos que quiserem se juntar a nós para reviver esses anos com os sambas mais importantes da nossa história”, afirma um dos fundadores do movimento, José Marilton da Cruz, mais conhecido como Chapinha.

A festa semanal de celebração ao samba paulista e de raiz ganhou reconhecimento não apenas na cidade de São Paulo, mas no Brasil todo. Beth Carvalho, Diogo Nogueira, Seu Jorge, Ubirany, do grupo Fundo de Quintal, Zezeh Barbosa, Paulo Miklos, Nasi, Emicida, Criolo e outros cantores, compositores e artistas já prestigiaram a comunidade.

Segundo Chapinha, no início das reuniões que deram origem ao Samba da Vela, os sambistas não imaginavam que teriam tanta repercussão. “Fazíamos apenas o que gostávamos, mostrando entre nós os nossos sambas. Quando pensamos em reconhecimento, acreditamos que seria no máximo em São Paulo. Porque o samba não tem muitos espaços, ainda mais quando falamos em samba de São Paulo. As atenções se voltam sempre ao samba do Rio de Janeiro, e mesmo assim, não é sempre que o ritmo tem atenção. Porém, tivemos a graça de sermos amadrinhados pela Beth Carvalho, que abraçou nosso projeto e deu a visibilidade que temos hoje”.

Durante esses 17 anos, Chapinha afirma que o Samba da Vela ajudou a promover a disseminação de outras comunidades sambistas. “A própria música evoluiu, mesmo seguindo o samba tradicional, vemos evoluções nas letras, mesmo na forma de fazer a música. Um movimento muito bacana que visualizamos é a proliferação das comunidades de samba, essa é maior evolução que podemos apontar. A ideia é copiada Brasil a fora e isso é muito importante para as comunidades que ganham com isso e para o país como um todo que acaba por não deixar de lado sua cultura”, diz.

Para o fundador do Samba da Vela, é fundamental que a comunidade celebre o aniversário do movimento: “Nesses 17 anos, podemos dizer para todos que vale a pena insistir em um sonho em apostar na cultura, no valor do trabalho. São 17 anos nos quais não deixamos morrer a tradição do povo brasileiro e sabemos que tudo valeu a pena”.

17 anos do Samba da Vela
Quando: 
segunda-feira, 17 de julho de 2017, às 20h30
Onde: Esporte Clube Banespa
Avenida Santo Amaro, 5565, Cidade Monções, São Paulo (SP)
Quanto: R$ 10
Pontos de venda:
Casa de Cultura de Santo Amaro: Praça Dr. Francisco Ferreira Lopes, 434, Santo Amaro
Lanchonete Casa de Cultura: Praça Francisco Ferreira Lopes, 450, Santo Amaro
Bar Dom José: Galeria Metrópole, Avenida São Luis, 184, Centro
Loja Contemporânea: Rua General Osório, 46, Luz

Repulsa por relações com pessoas mais velhas é tema de filme nacional

Julho 15, 2017

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Em ‘Fala Comigo’, de Felipe Sholl, um adolescente de 17 anos e uma mulher de 43 se apaixonam e decidem enfrentar preconceitos, neuroses e barreiras para viver este amor.

por Xandra Stefanel

Olhando bem de perto, ninguém é normal. Este clichê cai bem na trama do filme Fala Comigo, primeiro longa-metragem de Felipe Sholl, que estreou nesta quinta-feira (13) nos cinemas. O longa-metragem conta a história de Diogo (Tom Karabachian), um adolescente de 17 anos que gosta de ligar anonimamente para as pacientes da sua mãe psicóloga. É assim que ele conhece Ângela (Karine Teles), uma mulher de 43 anos que vive uma crise depressiva porque acabou de ser abandonada pelo marido.

Trata-se de uma espécie de fetiche de Diogo, um garoto virgem que, no auge da adolescência, encontra prazer em ligar para as pacientes de Clarice (Denise Fraga). Ele cataloga as ligações e dá notas que equivalem ao nível de prazer que teve, em silêncio, enquanto se masturbava. No início, Ângela acreditava que aquelas ligações eram do ex-marido, por isso estendia as conversas de via única e acabava dando mais tempo para Diogo se deliciar com sua voz tristonha.

Até o dia em que ela chega ao fundo do poço e se despede do interlocultor anônimo, deixando claro que tinha decidido pelo suicídio. Ao perceber que suas ligações só pioraram o estado de Ângela, Diogo corre para o apartamento da mulher e a encontra desacordada. Quando ela se dá conta de que as ligações silenciosas que recebia eram feitas pelo filho de sua terapeuta, ela fica furiosa e se sente enojada com a situação. Mas, a sensação ruim logo dá lugar à excitação.

E assim nasce a paixão entre a mulher experiente e o garoto que ruma a passos largos para a vida adulta. A diferença de idade, a mãe de Diogo, o preconceito dos amigos e da família são obstáculos que os dois, aos poucos, decidem enfrentar juntos.

A culpa que Diogo sente por se interessar por mulheres mais velhas, a repulsa inicial de Ângela com a situação e seu sentimento de culpa, assim como os conflitos que esta relação traz são os principais temas do filme. Mas a necessidade de contato humano e de verdadeiras e profundas interações perpassam toda a obra, assim como o desconforto que este vazio traz ao espectador.

Clarice (Denise Fraga) e Marcos (Emílio de Mello), pais de Diogo (Tom Karabachian)Apesar de Clarice ser psicóloga e estar acostumada a ouvir seus pacientes, o mesmo não ocorre dentro de sua própria família: ali, há pouco diálogo e a comunicação é visivelmente falha. Os problemas e as neuroses são mantidos em um quarto escuro que ninguém parece querer acessar, afinal muitas vezes é mais fácil guardá-los do que resolvê-los. A única relação mais próxima da casa é entre Diogo e sua irmã caçula (Anita Ferraz).

Quando Diogo decide enfrentar todos para viver a paixão com Ângela, ele acaba trazendo à luz muitos problemas que precisam ser resolvidos dentro e fora de casa. Na família, ele incita Clarice a deixar de lado a carapuça de psicóloga para assumir o papel de uma mãe que têm em casa um filho entrando na vida adulta, uma filha que dá sinais claros que precisa de mais atenção de todos e um marido que já não suporta mais o silêncio de sua casa.

CartazFala Comigo
Direção e roteiro: Felipe Sholl
Produção: Daniel van Hoogstraten
Elenco principal: Denise Fraga, Karine Teles, Tom Karabachian, Emílio de Mello e Anita Ferraz
Produtor associado: Marcelo Guerra
Produção executiva: Daniel van Hoogstraten e Carlos Eduardo Valinoti
Direção de fotografia: Léo Bittencourt
Montagem: Luisa Marques
Direção de arte: Cedric Aveline
Gênero: Drama
Duração: 90 minutos
País: Brasil
Ano: 
2016

Exposição denuncia justiça desigual e clama por direito de defesa de Rafael Braga

Julho 6, 2017

Obras de 28 artistas plásticos chamam a atenção para a permanência de estruturas desiguais no acesso à defesa e à Justiça no país.

São Paulo – Para denunciar as arbitrariedades cometidas contra Rafael Braga, preso durante as manifestações de quatro anos atrás, 28 artistas plásticos se reuniram na exposição Osso, em cartaz no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. As obras chamam a atenção sobre a desigualdade no acesso à defesa e à Justiça no país.

Rafael Braga, catador de recicláveis, foi preso no Rio de Janeiro em 2013 por portar dois frascos plásticos com produtos de limpeza durante uma das manifestações de junho. A acusação alega que ele portava materiais inflamáveis com intenção de produzir explosivos. Condenado a quase cinco anos, ele foi preso novamente, acusado por tráfico de drogas, que, segundo a defesa, foram plantadas por policiais.

Osso é uma exposição-apelo ao amplo direito de defesa de Rafael Braga. É uma iniciativa, um chamado social, para uma questão humanitária urgente que é a igualdade de direitos, especialmente do direito de defesa da população mais pobre, muitas vezes negra, periférica”, explica o curador Paulo Miyada, em entrevista ao repórter Jô Miyagui, para o Seu Jornal, da TVT.

As obras discutem racismo, violência policial e exclusão social e ressaltam outras injustiças históricas, como o tráfico de escravos e os experimentos eugenistas – tentativas proto-científicas de legitimar argumentos raciais.

“Algumas coisas mudaram, mas, infelizmente, certas estruturas permanecem ativas. Com certeza, o Rafael Braga sabe muito bem disso”, destaca Miyada. As obras sintéticas, “em gesto artístico condensado”, segundo o curador, impactam o público: “O Rafael é um jovem negro. Entendi que a polícia quis prender alguém e pegou o negro, pobre, favelado”, diz uma visitante.

A exposição Osso fica em cartaz até 30 de julho, e funciona de terça a domingo, no Instituto Tomie Ohtake, em Pinheiros, com entrada gratuita. Assista à reportagem.

Banda Bixiga 70 protesta contra Temer no Festival de Jazz de Montreal

Julho 5, 2017

Com show lotado, banda brasileira levanta faixa com mensagem ‘Fora Temer’ no maior festival de jazz do mundo. ‘Nós precisamos continuar lutando’.

por Xandra Stefane

Com um show que reuniu milhares de pessoas no palco principal do Festival Internacional de Jazz de Montreal, no Canadá, nesta segunda-feira (3), a big band Bixiga 70 levou além de sua música, uma contundente mensagem contra o presidente Michel Temer e o atual governo brasileiro. Com uma enorme faixa com os dizeres “Fora Temer”, um dos músicos disse, em inglês: “Nós vivemos um golpe de Estado no Brasil. Espalhe a mensagem. Foi por isso que fizemos a música Primeiramente”. No início do espetáculo, a banda levantou a faixa e a colocou em frente ao palco, para que a mensagem ficasse visível durante toda a apresentação.

Esta música foi lançada no início de junho acompanhada de um videoclipe que apresenta várias cenas de protesto no país. “Primeiramente é fruto do crescente sentimento de insatisfação com a atual situação política e social no Brasil e no mundo. Foi inspirada e é dedicada à luta histórica pela garantia de direitos – independente de classe, cor, gênero, religião, etnia ou partido. Essa é nossa pequena contribuição ao processo de reflexão sobre o momento que vivemos”, anunciou a banda na época do lançamento. Antes de apresentar esta faixa ao público do festival de jazz, os músicos fizeram um breve discurso explicando a situação política no Brasil e, com braços erguidos, gritaram “Fora Temer”.

Durante uma hora de show, a banda apresentou um repertório que mistura música instrumental africana, latina e brasileira com composições próprias e versões. Fizeram até uma homenagem ao rei do baião, Luiz Gonzaga.

O Festival Internacional de Jazz de Montreal, realizado anualmente desde 1980 na cidade canadense de mesmo nome, é considerado pelo Guinness como o maior festival do gênero no mundo. O evento, realizado geralmente entre junho e julho, recebe a cada edição mais de 2 milhões de pessoas do mundo todo. A mensagem e a sonoridade do Bixiga 70 foram devidamente espalhadas nesta segunda-feira, em dois shows, realizados às 10h e à meia-noite (horário do Brasil).

Ellen Oléria recebe convidados para o show ‘Baile da Nêga’

Julho 2, 2017

Com Alma Thomas e Walmir Borges, apresentação no Sesc Belenzinho reverencia música negra com muito soul, samba e funk.

Como nos bailes de salão de antigamente, a cantora Ellen Oléria transforma a Comedoria do Sesc Belenzinho em uma grande pista de dança na sexta-feira, dia 7 de julho. Nesta edição do Baile da Nêga, Oléria se reúne com os intérpretes Alma Thomas e Walmir Borges para celebrar a música negra brasileira. O show faz parte do projeto Música Preta, que apresenta o som das diásporas africanas e dos protagonismos políticos, principalmente das vertentes feministas e outros ativismos periféricos.

Funks, souls e sambas fazem parte da set list do espetáculo, que deve contar com as músicas 5 Minutos, de Jorge Ben Jor, Ilê Ayé, de Paulinho Camafeu, Descobridor dos Sete Mares, de Tim Maia, Bananeira, de João Donato e Gilberto Gil, entre outras.

Baile da Nêga nasceu em Brasília, em 2014, quando Ellen Oléria convidou Sandra de Sá e Paula Lima para a primeira edição. Sempre com Oléria como anfitriã, o evento já contou com a participação do cantor e compositor brasileiro Lazzo Matumbi e a cantora e instrumentista cubana Yusa.

Baile da Nêga
Quando: 
sexta-feira, 7 de julho, às 21h30
Onde: na Comedoria do Sesc Belenzinho
Rua Padre Adelino, 1000, São Paulo (SP)
Quanto: R$ 20,00 (inteira), 10,00 (meia-entrada) e R$ 6,00 (trabalhador do comércio de bens, serviços e turismo credenciado e dependentes)
Duração: 1h30
Classificação: 18 anos
Mais informações: (11) 2076-9700/ www.sescsp.org.br/belenzinho

Xangai ‘conversa’ no palco com mestres do coco e da embolada

Junho 30, 2017

Quatro dias de apresentação gratuita na Caixa Cultural, em São Paulo, incluem bate-papo com o público no sábado.

São Paulo – Ele se chama Eugênio Avelino, e talvez pouca gente o conheça pelo nome. Mas basta ouvir Xangai que o cantador aparece. Próximo dos 70 anos, que completará em março de 2018, o baiano nascido às margens do Córrego do Jundiá estará a partir desta quinta (29) até domingo (2), em São Paulo, tocando e cantando obras dos mestres Jackson do Pandeiro e Jacinto da Silva.

O paraibano Jackson (1919-1982) é mais conhecido do público do Sudeste. Basta lembrar de obras como Sebastiana (gravada em 1953 – o autor é Rosil Cavalcanti, um “pernambucano aparaibanado”, como diz o pesquisador Assis Ângelo), O Canto da Ema e Chiclete com Banana, entre outras de seu vasto repertório. O alagoano Jacinto (1933-2001) é tipo como “discípulo” de Jackson, mas tem vasto repertório desde que começou, ainda criança, nos anos 1940.

Xangai: afiando a língua com os reis do ritmo é o nome do show. O cantor é acompanhado pelo violonista Ricardo Vieira e o flautista e saxofonista Marcelo Bernardes. Depois do show de sábado, 1º de junho, haverá um bate-papo do artista com o público, sobre a cultura popular que ele tão bem representa.

As apresentações, sempre às 19h15, são gratuitas, na Caixa Cultural São Paulo (Praça da Sé, 111) na região central da capital. Os ingressos, limitados a um par por pessoa, são distribuídos a partir das 9h do dia de cada espetáculo. O local tem capacidade para 80 pessoas.

Xangai canta nas várias línguas de sua terra. É amigo de outro baiano famoso, Elomar. Em entrevista no ano passado ao Correio Braziliense, quando lhe perguntaram sobre a obra de Elomar, disse que vinha à mente o escritor Guimarães Rosa, grande “brasilerança”, como ele se refere à herança brasileira, desde o primeiro habitante deste país.